quinta-feira, 4 de julho de 2019

A FARRA DO BOI, SEGUNDO A PLATEIA


O
 palco? O mangueirão próximo à estação ferroviária e que servia para acomodar o gado descarregado das gaiolas, até o momento de conduzi-lo, pela rua que atravessava o bairro do Jardim Portela, ao frigorífico.
A arquibancada? O “barrancão”, como era conhecido o barranco que ficava dentro e ao fundo do mangueirão, onde se apinhava a garotada para assistir ao espetáculo do descarregamento da boiada.
O mangueirão era um cercado, feito com grossas pranchas pregadas horizontalmente nos mourões, com pesadas porteiras que, quando abertas, formavam um corredor de ligação entre o mangueirão e a porta da gaiola por onde deveria sair o gado. 
              Vale dizer que a rua, durante o descarregamento, ficava interditada.  Por quanto tempo? Depende. Se tudo corresse bem, algo em torno de uma hora. Caso contrário, sem estimativa.
              O movimento dos boiadeiros, em suas montarias, era o aviso de que haveria espetáculo. Roupas rústicas, botas de cano alto, chapéu de couro; equipados com laços e chicotes, aos olhos de criança, pareciam gigantes. Se frio ou chuva, a enorme capa, que cobria inclusive boa parte da montaria, lhes emprestava um toque ainda maior de imponência. Lourenço, França, Zé Boiadeiro, João Boiadeiro, Ernesto, Sebastião, Lindolfo.
             Todos a postos. O show vai começar. A máquina a óleo termina a manobra para colocar as gaiolas no desvio. Desengata-se, indo embora. Os boiadeiros abrem as portinholas que permitem a passagem do gado de um para outro vagão. O trem todo é um único corredor com acesso ao mangueirão.  
             No “barrancão” começa a torcida. Torcida para que alguns daqueles animais resolvam fugir. Retardar seu destino. E a corrente de pensamentos é tão forte, que quase sempre a rotina do descarregamento é quebrada por um ou mais bois que resolvem escapar ao controle. 
            A correria é geral. A garotada procura um melhor lugar para acompanhar todos os detalhes. Os boiadeiros param o que estavam fazendo e correm para suas mulas. Saem na captura do animal desgarrado. Na estação, as pessoas procuram um lugar para se esconder. Nas ruas, o corre-corre desordenado, à procura de um barranco, uma casa ou uma árvore que sirvam de abrigo para escapar do animal em fuga. 
              E lá do alto do morro, a visão é de pura diversão. Tudo é muito engraçado. As pessoas correndo de um lado para outro. Os boiadeiros errando suas laçadas. Os bois escondendo-se no matagal à beira da estrada. A plateia vai ao delírio quando outros animais, aproveitando a confusão, fogem do mangueirão, aumentando a “dor de cabeça” dos responsáveis pela sua captura.
              Como tudo que é bom dura pouco, a caçada também tem fim. Os fugitivos são reconduzidos ao cercado. Em alguns casos, derrubados e amarrados pelo boiadeiro. Mais tarde, o “Jipão” virá buscá-los.
               A porteira do mangueirão é aberta. Sob o estalar dos chicotes a boiada inicia sua caminhada para o frigorífico. A criançada desce do morro e acompanha sua marcha pela Vila.
              Agora é só esperar pelo próximo trem de bois. 
Texto publicado em 26/2/2005


Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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