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palco? O mangueirão próximo à estação
ferroviária e que servia para acomodar o gado descarregado das gaiolas, até o
momento de conduzi-lo, pela rua que atravessava o bairro do Jardim Portela, ao
frigorífico.
A arquibancada? O “barrancão”,
como era conhecido o barranco que ficava dentro e ao fundo do mangueirão, onde
se apinhava a garotada para assistir ao espetáculo do descarregamento da
boiada.
O mangueirão era um cercado, feito com grossas pranchas
pregadas horizontalmente nos mourões, com pesadas porteiras que, quando
abertas, formavam um corredor de ligação entre o mangueirão e a porta da gaiola
por onde deveria sair o gado.
Vale dizer que a rua, durante o descarregamento, ficava
interditada. Por quanto tempo? Depende.
Se tudo corresse bem, algo em torno de uma hora. Caso contrário, sem
estimativa.
O movimento dos boiadeiros, em suas montarias, era o
aviso de que haveria espetáculo. Roupas rústicas, botas de cano alto, chapéu de
couro; equipados com laços e chicotes, aos olhos de criança, pareciam gigantes.
Se frio ou chuva, a enorme capa, que cobria inclusive boa parte da montaria,
lhes emprestava um toque ainda maior de imponência. Lourenço, França, Zé
Boiadeiro, João Boiadeiro, Ernesto, Sebastião, Lindolfo.
Todos a postos. O show vai começar. A máquina a óleo
termina a manobra para colocar as gaiolas no desvio. Desengata-se, indo embora.
Os boiadeiros abrem as portinholas que permitem a passagem do gado de um para
outro vagão. O trem todo é um único corredor com acesso ao mangueirão.
No “barrancão”
começa a torcida. Torcida para que alguns daqueles animais resolvam fugir.
Retardar seu destino. E a corrente de pensamentos é tão forte, que quase sempre
a rotina do descarregamento é quebrada por um ou mais bois que resolvem escapar
ao controle.
A correria é geral. A garotada procura um melhor lugar
para acompanhar todos os detalhes. Os boiadeiros param o que estavam fazendo e
correm para suas mulas. Saem na captura do animal desgarrado. Na estação, as
pessoas procuram um lugar para se esconder. Nas ruas, o corre-corre
desordenado, à procura de um barranco, uma casa ou uma árvore que sirvam de
abrigo para escapar do animal em fuga.
E lá do alto do morro, a visão é de pura diversão. Tudo é
muito engraçado. As pessoas correndo de um lado para outro. Os boiadeiros
errando suas laçadas. Os bois escondendo-se no matagal à beira da estrada. A
plateia vai ao delírio quando outros animais, aproveitando a confusão, fogem do
mangueirão, aumentando a “dor de cabeça” dos responsáveis pela sua captura.
Como tudo que é bom dura pouco, a caçada também tem fim.
Os fugitivos são reconduzidos ao cercado. Em alguns casos, derrubados e
amarrados pelo boiadeiro. Mais tarde, o “Jipão” virá buscá-los.
A porteira do mangueirão é aberta. Sob o estalar dos
chicotes a boiada inicia sua caminhada para o frigorífico. A criançada desce do
morro e acompanha sua marcha pela Vila.
Agora é só esperar pelo próximo trem de bois.
Texto
publicado em 26/2/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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