A FARRA DO
BOI, SEGUNDO O BOI
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A
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té aqui foram quatro: A farra do boi, segundo a plateia;
A farra do boi, segundo gente grande; A farra do boi, segundo os boiadeiros e A
farra do boi, segundo os políticos. Não poderia encerrar esse assunto sem dar
espaço ao principal e involuntário personagem dessa história toda: o boi. Isso
mesmo, o boi. Sem ele, poderia haver qualquer tipo de farra. Menos a farra do
boi. Por isso, personagem principal.
Involuntário,
no entanto, por que ele, com certeza, não pediu para fazer parte do espetáculo.
Nas
gaiolas de madeira entrelaçada, os animais vindo de fazendas distantes,
olhavam, curiosos, o movimento do lado de fora. Observavam, sem nada entender,
toda aquela agitação.
–
Gostaria de saber o que está acontecendo lá fora. Você sabe?
–
Não faço a mínima ideia. Estou interessado apenas em saber quando vamos voltar
para nossos pastos. Esta viagem foi muito cansativa e não vejo a hora de
esticar as pernas. Estão adormecidas de tanto ficar paradas.
–
Eu também. E não é só isso. Estou com muita saudade de casa, das crianças.
Enquanto
eles conversavam, os boiadeiros abriam as portinholas que davam passagem de uma
para outra gaiola, até alcançar a porta que dava acesso ao mangueirão.
–
Quando voltar, terei muitas histórias para contar. Os lugares que vi, as
pessoas que conheci, as estrelas em céus diferentes...
– Eu
também. Estou pensando até em escrever um livro. Muitos já fizeram isso. Vivem
uma experiência, escrevem livros e ficam famosos. Talvez consiga até algumas
palestras.
Com
um baque, a pesada porta vem ao chão.
Começa
a saída. No início, um a um e, depois, em pequenos grupos apressados,
atropelando-se, fugindo das doloridas cutucadas do ferrão habilmente manejado
pelo boiadeiro.
De
repente, um dos animais saiu pelo vão deixado pela portinhola mal travada,
buscando a liberdade. Estava cansado, com fome e com sede, e suas pernas quase
não o sustentavam. Seu corpo doía muito. Afinal, estava sem exercícios há mais
de quarenta dias. Sabia apenas que tinha que fugir dali. Não sabia para onde,
pois aquele lugar lhe era totalmente estranho. Estava desorientado.
Deu
uma olhada para trás e viu seus companheiros de viagem nas gaiolas. Decidido,
afastou-se o mais que pode.
De
seu esconderijo, ouvia o estalar dos chicotes e o latido dos cães. Algo lhe
dizia que estavam à sua procura. E pra coisa boa parecia não ser. Só não
entendia por quê. Não fizera nada de mal a ninguém. Aliás,
ainda não tinha entendido a razão daquela viagem para tão longe de sua casa.
“Lá está ele!” – gritou um dos boiadeiros.
Arremessado
à distância e com pontaria certeira, o laço foi se enrolar no corpo do animal
que, juntando um pouco de suas forças, iniciava uma carreira. O trançado de
couro esticou-se de repente, interrompendo aquela acanhada tentativa de fuga. A
poeira subiu com a queda do pesado corpo ao solo.
Vencido
pelo cansaço olhou para seus algozes, procurando explicação para toda aquela
violência. Nada. O boiadeiro atava-lhe as patas com tiras de couro cru e o
deixava ofegante, abandonado à sua sorte. Dormiu.
Não
sabe quanto tempo se passou. Abriu os olhos a tempo de ver seus colegas sendo
conduzidos pelos boiadeiros. Alguma coisa lhe dizia que não mais os veria.
Seus
olhos se encheram de lágrima. Fechou-os mais uma vez. Apertou-os bem forte,
procurando, no sono, o alívio para seu sofrimento.
Texto
publicado em 9/7/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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