sábado, 6 de julho de 2019


A FARRA DO BOI, SEGUNDO GENTE GRANDE



G
ente grande também participava da farra do boi. Ou melhor, era envolvido pela farra do boi e não achava nada engraçado. Não via com muito bons olhos o que, para a criançada, era uma verdadeira festa.
Antes de sair de casa, os adultos se preocupavam em saber se estavam descarregando boiada. Quando não viam o movimento dos boiadeiros, perguntavam para um moleque qualquer. Ele sabia; estava sempre bem informado para não perder o espetáculo e os adultos queriam saber, para evitar surpresas desagradáveis; para não se tornarem parte do show.
     Quantas vezes, de cima do “barrancão”, tivemos a oportunidade de assistir à correria dos adultos. Homens, mulheres sozinhas, com crianças, com sacolas de feira, corriam feito loucos. Viravam uma curva – e a rua era cheia delas – davam de cara com os bois e voltavam sem saber que rumo tomar, espalhando sacolas e crianças para todos os lados. O importante era ficar o mais distante possível dos animais.
     Sofria, a Vila, sofriam os moradores. Em tempo de estiagem, a poeira levantada com a passagem do gado encardia roupas nos varais. Pintava de marrom os lençóis cuidadosamente alvejados em cândida. Cobria os móveis das casas mais à beira da rua e emporcalhava cortinas.
     Saindo do mangueirão, a boiada pegava a rua São João da Boa Vista e, em seguida, a rua São Roque. Cruzava toda a extensão do Bairro, passava pela chácara do japonês e seguia pela rua em meio aos eucaliptos, entrando no frigorífico pelos portões do fundo. Essas ruas, todas elas, eram só buracos.
     Em épocas de chuva, a poeira se transformava num lamaçal cremoso, misturado às fezes e urina deixadas pelos animais. Os adultos, a caminho da cidade, andavam aos pulos procurando lugares menos enlameados, quando isso era possível, para pisar. Tombos eram tão comuns que ninguém mais achava graça quando alguém mergulhava numa poça de lama.
     Para que conseguissem chegar menos sujos possível a seus destinos, alguns calçavam os sapatos em sacos plásticos, presos por elásticos na altura da canela. Outros arregaçavam as calças e levavam os sapatos nas mãos, calçando-os depois de lavar os pés no banheiro da estação.
     Vender um terreno ou uma casa no Bairro do Jardim Portela era algo que exigia muita esperteza e uma boa dose de sorte. Não era aconselhável, por exemplo, levar o interessado para conhecer o imóvel, nas seguintes situações: períodos de chuva, períodos de seca, dias de descarregamento de gado, durante estouro de boiada, com os boiadeiros circulando pela Vila, com gaiolas de bois nos desvios e quando houvesse bois amarrados pelo caminho à espera do “jipão”. Ah, e também quando a criançada estivesse toda alvoroçada, pois certamente tinham informações de que o trem de bois estava a caminho. Fora isso, qualquer outro momento era ideal para uma boa venda. 
     Por tudo isso, os adultos viviam procurando uma forma de tirar a boiada do Bairro. Vez ou outra alguém aparecia prometendo que a situação seria resolvida. E a coisa acabava sempre dando em nada.
     Enquanto isso, quem era gente grande continuava, mesmo a contragosto, a fazer parte da farra do boi.
Texto publicado em 25/3/2005

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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