A FARRA DO
BOI, SEGUNDO GENTE GRANDE
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ente grande também participava da farra do boi. Ou
melhor, era envolvido pela farra do boi e não achava nada engraçado. Não via
com muito bons olhos o que, para a criançada, era uma verdadeira festa.
Antes
de sair de casa, os adultos se preocupavam em saber se estavam descarregando
boiada. Quando não viam o movimento dos boiadeiros, perguntavam para um moleque
qualquer. Ele sabia; estava sempre bem informado para não perder o espetáculo e
os adultos queriam saber, para evitar surpresas desagradáveis; para não se
tornarem parte do show.
Quantas
vezes, de cima do “barrancão”, tivemos a oportunidade de assistir à correria
dos adultos. Homens, mulheres sozinhas, com crianças, com sacolas de feira,
corriam feito loucos. Viravam uma curva – e a rua era cheia delas –
davam de cara com os bois e voltavam sem saber que rumo tomar, espalhando
sacolas e crianças para todos os lados. O importante era ficar o mais distante
possível dos animais.
Sofria,
a Vila, sofriam os moradores. Em tempo de estiagem, a poeira levantada com a
passagem do gado encardia roupas nos varais. Pintava de marrom os lençóis
cuidadosamente alvejados em cândida. Cobria os móveis das casas mais à beira da
rua e emporcalhava cortinas.
Saindo
do mangueirão, a boiada pegava a rua São João da Boa Vista e, em seguida, a rua
São Roque. Cruzava toda a extensão do Bairro, passava pela chácara do japonês e
seguia pela rua em meio aos eucaliptos, entrando no frigorífico pelos portões
do fundo. Essas ruas, todas elas, eram só buracos.
Em
épocas de chuva, a poeira se transformava num lamaçal cremoso, misturado às
fezes e urina deixadas pelos animais. Os adultos, a caminho da cidade, andavam
aos pulos procurando lugares menos enlameados, quando isso era possível, para
pisar. Tombos eram tão comuns que ninguém mais achava graça quando alguém
mergulhava numa poça de lama.
Para
que conseguissem chegar menos sujos possível a seus destinos, alguns calçavam
os sapatos em sacos plásticos, presos por elásticos na altura da canela. Outros
arregaçavam as calças e levavam os sapatos nas mãos, calçando-os depois de
lavar os pés no banheiro da estação.
Vender
um terreno ou uma casa no Bairro do Jardim Portela era algo que exigia muita
esperteza e uma boa dose de sorte. Não era aconselhável, por exemplo, levar o
interessado para conhecer o imóvel, nas seguintes situações: períodos de chuva,
períodos de seca, dias de descarregamento de gado, durante estouro de boiada,
com os boiadeiros circulando pela Vila, com gaiolas de bois nos desvios e
quando houvesse bois amarrados pelo caminho à espera do “jipão”. Ah, e também
quando a criançada estivesse toda alvoroçada, pois certamente tinham
informações de que o trem de bois estava a caminho. Fora isso, qualquer outro
momento era ideal para uma boa venda.
Por
tudo isso, os adultos viviam procurando uma forma de tirar a boiada do Bairro.
Vez ou outra alguém aparecia prometendo que a situação seria resolvida. E a
coisa acabava sempre dando em nada.
Enquanto
isso, quem era gente grande continuava, mesmo a contragosto, a fazer parte da
farra do boi.
Texto
publicado em 25/3/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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