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ntem, convidado por um amigo, fui assistir a um comício.
Chegamos bem antes do horário marcado. A praça estava assim de gente. Eu
confesso que nunca tinha visto um candidato com tanta popularidade. Tanto
carisma, como se costuma dizer. Devia ser alguém muito querido do povo, para
conseguir reunir uma multidão daquela. Comecei a achar que valeu a pena aceitar
o convite do meu amigo. Afinal iria conhecer, de perto, um político dos bons.
E a
praça estava lotada. Não tinha espaço para mais ninguém, exceto para os
vendedores de água, cerveja, refrigerante, algodão doce e milho cozido, que
circulavam com desenvoltura, passando suas caixas de isopor sobre nossas
cabeças.
Fiquei
um tanto abismado com o tamanho do palanque e com toda a parafernália de
equipamentos eletroeletrônicos instalados. Caixas de som espalhadas por
todos os lados, refletores de todos os tipos e tamanhos, câmeras de vídeo
estrategicamente montadas em diversos pontos.
Uma
cerca de metal isolava um espaço bem perto do palco. RESERVADO – dizia a placa. A cara pitbull dos
seguranças tamanho armário desencorajava qualquer intenção de questionar o
“reservado”.
Em
cima do tablado, alguns instrumentos musicais, o que me fez deduzir que aquele
espaço era utilizado também para shows. Isso, quando não houvesse comício, é
claro.
É
claro que eu estava errado. Meu amigo tratou logo de me esclarecer que as duas
coisas, ou seja, música e comício aconteciam juntos. Uma ao mesmo tempo da
outra. Um pouco de falatório, um pouco de música. Um pouco de música e um pouco
de falatório. Para o final, o candidato e o artista mais importantes. Enquanto
isso, candidatos e artistas não tão importantes se revezam em suas
apresentações. Comício mais show, igual a showmício, disse ele. Agora, sim,
ficou claro!
Lá
em cima, alguém começava a falar. E quando digo lá em cima, é lá em cima mesmo!
Nunca tinha visto um palanque tão alto. Tão distante do povo.
E,
enquanto ele falava, o povaréu ao meu lado se inquietava. Nem prestava atenção.
Traziam fotos dos artistas, para que fossem autografadas. Esperavam
ansiosamente pelo artista principal, que se apresentaria apenas no final.
Sabiam disso, mas vieram cedo para garantir o melhor lugar. Entendi, então, o
porquê de toda aquela multidão.
Lembrei-me
de outros tempos. Quando, para nós crianças, o período eleitoral não passava de
uma grande festa. Tempo de colecionar os “santinhos” fartamente distribuídos na
campanha. Lembrança do broche de lapela, com as figuras do galo, do pintinho,
da peneira e da vassoura. Dourados, imitando a ouro. Objetos de coleção.
Não
existia showmício. Os palanques eram baixos, sem área reservada. Que me lembre,
não havia nem microfone. Os adultos compareciam para ouvir e comparar as
propostas dos candidatos e ficavam, todos, até o final. Terminado o comício,
pequenos grupos se formavam, comentando o desempenho de cada orador. O assunto
era um só: política.
Era
assim. E agora, assistindo pela primeira vez a um showmício, fiquei imaginando
quantos permaneceriam naquela praça, se o apresentador anunciasse que os
artistas não viriam. Que não haveria show, apenas comício.
Texto publicado em 24/9/2004
Do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos"

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