segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

DO ALAMBRADO



R
ecordando um passado não muito distante, lembrei-me, com saudade, dos campos e jogadores de futebol de nossa cidade. Do CIPE, do América e do Grêmio. Do Tadeu, Geraldinho, Nishimura, Guinho, Bira, Miguelzinho, Maloca, Nestor e Zulu. Apenas para citar alguns dos craques de uma época em que nem se falava em escolinhas de futebol. Nunca procurei saber, mas tenho a impressão de que aprenderam no quintal de suas casas. Treinavam na rua. Acho até que dormiam com a bola, pois, se assim não fosse, fica difícil explicar a facilidade com que a dominavam.
      Lembrei-me das sombras das árvores que ofereciam guarida aos torcedores e das águas refrescantes dos rios que amenizavam o calor dos dias de verão. Do prazer de assistir a uma partida, sentado à beira do gramado, separado dos jogadores apenas pela linha de cal que delimitava o campo. Portões, alambrados e arquibancadas não faziam parte do vocabulário e muito menos da paisagem dos esportistas e torcedores da época.
      Pois bem, quarta-feira fiz questão de reviver esses momentos. Dia do Trabalho, 1o de maio.
     Providenciei o quilo de alimento não perecível, contribuição para ingresso. Louve-se aqui a iniciativa.  E lá fui eu para o campo.
     Cheguei cedo. Sem dificuldade para estacionar. Carimbado, entrei no estádio. Arquibancadas já lotadas. Paciência. Fui para a beira do campo. Lá perto da linha branca lateral do gramado. Licença aqui, licença acolá e consegui um lugar até que razoável. 
         O sol do meio da tarde me fez procurar pelas árvores. Olhei para trás.  Apenas a sombra de um muro à beira da rua. De lá, conseguiria ver somente metade do campo.
      Fiquei ali mesmo. Grudado no alambrado e tentando entender porque não havia pelo menos mais dois blocos de arquibancadas. Com certeza, acomodariam todos aqueles torcedores que, como eu, queriam ver o campo inteiro.
        Sol quente. Em pé, sem poder sair porque “quem vai a Portugal perde o lugar” e, sem a moitinha amiga por perto, a opção era torcer para que o jogo fosse muito bom. Jogo bom termina logo. O tempo passa mais depressa.
         A chegada de um amigo que há muito não via ajudou a tornar a situação menos desconfortável. Falamos um pouco de tudo. Sem desviar a atenção. O Zé Calcinha se lembrou de alguns amigos comuns. Falamos de lugares e histórias da cidade. Muito rapidamente. Interrompidos por uma ou outra jogada mais emocionante, alguns assuntos ficaram por terminar. Fiquei sem saber, por exemplo, se ele recuperou a camisa que emprestou para um amigo ir ao baile. Mas não faltará oportunidade. Um dia continuaremos nosso bate-papo.
          Apito final. Final do jogo. Final, também, do sacrifício.
         Castigado pelo sol, depois de assistir ao jogo inteiro em pé, não pude deixar de fazer alguns comentários. Reclamei da falta de mais arquibancadas, da falta de sombra e de melhores instalações.
        Ao meu lado alguém disse que eu me acostumaria. Que os tempos são outros. Que esse é o preço que pagamos pelo progresso.
       Diante de tamanha resignação, fiquei calado e fui saindo do estádio. Até porque, se respondesse, acabaria lhe pedindo desculpas por eu estar sendo tão exigente.
Publicado em 11/5/2002

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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