quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020


E SE NÃO DER TEMPO?



R
elembrar o passado, falar de momentos que deixaram saudades não significa, necessariamente, estar alheio ao presente.
Recordar é uma maneira gostosa de reviver os momentos bons que ficaram para trás e que, embora prazerosos, não podem fechar nossos olhos para os acontecimentos atuais.
         Por que tudo isso? Por que deixar um pouco de lado as histórias alegres do passado para falar de algo não tão agradável? Apenas para firmar os pés no chão e não correr o risco de passar todo tempo nas nuvens. Para lembrar a presença da realidade. Uma realidade que, com certeza, não deixará saudades.
       Um dia não muito distante, precisei dos serviços médicos emergenciais disponíveis no Pronto Socorro da cidade. Disponíveis é apenas força de expressão. Faltava tudo, ou quase tudo. Desde um atendimento decente e respeitoso, até materiais básicos de primeiros socorros.
        Detalhar, desnecessário. A maioria que já procurou por esses serviços saberá exatamente do que estou falando. Angústia é muito pouco para definir a sensação diante daqueles que se deliciam com o poder que, circunstancialmente, têm sobre nossas vidas. Felizes porque imploramos por seus serviços. Felizes porque podem decidir se ou quando nos atendem.
         No início pensei que tinha sido apenas vítima da falta de sorte. Que naquele dia exatamente as coisas não iam bem. Uma exceção.
         Ou que se tratava de uma situação nova. Que logo seria solucionada.  Que o povo deveria ter um pouco mais de paciência. Que tudo, em breve, iria melhorar, etc., etc., etc.
         Até que um dia desses, procurando alguma coisa para ler, peguei um jornal em meus arquivos. Ao acaso. Um jornal da 1a quinzena de julho de 1979. De vinte e três anos atrás, portanto. Lá estava. “Saúde: o eterno problema”. Mostrando o quadro lamentável do serviço de saúde em Itapevi. Aí pensei: Puxa! Esse problema já é bem velhinho! 
         Então eu não tinha sido vítima do acaso! O serviço de atendimento à saúde pública sempre foi assim. Ineficiente, para não dizer inexistente. E continua, até hoje, sem solução.
      Pois bem. Oportunamente, falei dessa minha desagradável experiência com um amigo. Representante da classe melhor favorecida. Esclarecido. De família tradicional e influente na cidade. Ele me ouviu atentamente.
         Fiquei aguardando seu comentário, na esperança de que me dissesse que a solução já estaria a caminho. Olhou-me por algum tempo como se estivesse escolhendo as palavras e deu seu ponto de vista.
       Disse que uma pequena parcela da sociedade local, assim como ele, tem condições de pagar pelos melhores médicos, melhores laboratórios e melhores hospitais ou, na pior das hipóteses, possui um bom plano privado de saúde. Que essas pessoas já se sentem confortáveis e seguras. Em português bem claro, não estão nem um pouco interessadas no assunto. E muito menos em contribuir para que as coisas melhorem.
      Ele ia continuar suas explicações quando fomos interrompidos por visitas.  Aproveitei para me despedir e fui embora. Pensando no que acabara de ouvir e com algumas dúvidas.
        Será que essas pessoas confortavelmente seguras já pensaram no que fariam diante da necessidade de um atendimento de emergência? Ali, no pronto socorro perto de sua casa. Sabe, aquele atendimento essencial. Para ganhar um pouquinho de tempo necessário, até que se consiga chegar a melhores recursos.  Pensaram?
          Pensaram no que fariam caso encontrassem um pronto socorro sem profissionais preparados e sem materiais e medicamentos adequados para o primeiro e decisivo atendimento? Acho que não. Talvez acreditem que nunca precisarão. Afinal, à menor indisposição, basta que recorram aos melhores e mais bem equipados hospitais a que têm acesso, para que tudo se resolva prontamente... se der tempo.
Publicado em 28/12/2002

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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