E SE NÃO DER TEMPO?
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elembrar o passado, falar de momentos que deixaram
saudades não significa, necessariamente, estar alheio ao presente.
Recordar
é uma maneira gostosa de reviver os momentos bons que ficaram para trás e que,
embora prazerosos, não podem fechar nossos olhos para os acontecimentos atuais.
Por
que tudo isso? Por que deixar um pouco de lado as histórias alegres do passado
para falar de algo não tão agradável? Apenas para firmar os pés no chão e não
correr o risco de passar todo tempo nas nuvens. Para lembrar a presença da
realidade. Uma realidade que, com certeza, não deixará saudades.
Um
dia não muito distante, precisei dos serviços médicos emergenciais disponíveis
no Pronto Socorro da cidade. Disponíveis é apenas força de expressão. Faltava
tudo, ou quase tudo. Desde um atendimento decente e respeitoso, até materiais
básicos de primeiros socorros.
Detalhar,
desnecessário. A maioria que já procurou por esses serviços saberá exatamente
do que estou falando. Angústia é muito pouco para definir a sensação diante
daqueles que se deliciam com o poder que, circunstancialmente, têm sobre nossas
vidas. Felizes porque imploramos por seus serviços. Felizes porque podem
decidir se ou quando nos atendem.
No
início pensei que tinha sido apenas vítima da falta de sorte. Que naquele dia
exatamente as coisas não iam bem. Uma exceção.
Ou
que se tratava de uma situação nova. Que logo seria solucionada. Que o povo deveria ter um pouco mais de
paciência. Que tudo, em breve, iria melhorar, etc., etc., etc.
Até
que um dia desses, procurando alguma coisa para ler, peguei um jornal em meus
arquivos. Ao acaso. Um jornal da 1a quinzena de julho de 1979. De
vinte e três anos atrás, portanto. Lá estava. “Saúde: o eterno problema”.
Mostrando o quadro lamentável do serviço de saúde em Itapevi. Aí pensei: Puxa! Esse
problema já é bem velhinho!
Então
eu não tinha sido vítima do acaso! O serviço de atendimento à saúde pública
sempre foi assim. Ineficiente, para não dizer inexistente. E continua, até hoje, sem solução.
Pois
bem. Oportunamente, falei dessa minha desagradável experiência com um amigo.
Representante da classe melhor favorecida. Esclarecido. De família tradicional
e influente na cidade. Ele me ouviu atentamente.
Fiquei
aguardando seu comentário, na esperança de que me dissesse que a solução já
estaria a caminho. Olhou-me por algum tempo como se estivesse escolhendo as
palavras e deu seu ponto de vista.
Disse
que uma pequena parcela da sociedade local, assim como ele, tem condições de
pagar pelos melhores médicos, melhores laboratórios e melhores hospitais ou, na
pior das hipóteses, possui um bom plano privado de saúde. Que essas pessoas já
se sentem confortáveis e seguras. Em português bem claro, não estão nem um
pouco interessadas no assunto. E muito menos em contribuir para que as coisas
melhorem.
Ele
ia continuar suas explicações quando fomos interrompidos por visitas. Aproveitei para me despedir e fui embora.
Pensando no que acabara de ouvir e com algumas dúvidas.
Será
que essas pessoas confortavelmente seguras já pensaram no que fariam diante da
necessidade de um atendimento de emergência? Ali, no pronto socorro perto de
sua casa. Sabe, aquele atendimento essencial. Para ganhar um pouquinho de tempo
necessário, até que se consiga chegar a melhores recursos. Pensaram?
Pensaram
no que fariam caso encontrassem um pronto socorro sem profissionais preparados
e sem materiais e medicamentos adequados para o primeiro e decisivo
atendimento? Acho que não. Talvez acreditem que nunca precisarão.
Afinal, à menor indisposição, basta que recorram aos melhores e mais bem
equipados hospitais a que têm acesso, para que tudo se resolva prontamente...
se der tempo.
Publicado em 28/12/2002
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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