BANDEIRA BRANCA, AMOR... NÃO POSSO MAIS...
Salão da Prefeitura ou Sede da Prefeitura. Assim é conhecido um dos mais agradáveis lugares para se brincar o carnaval na cidade. À beira de um pequeno rio e protegido pelas sombras de muitas árvores, o casarão se abre para festas das mais variadas. Pró-formaturas, formaturas, casamentos... Mas é no carnaval que ele se supera.
Existem outros salões na cidade onde o carnaval acontece, mas parece que o da Prefeitura foi construído especialmente para as folias de momo. As janelas que tomam quase toda sua fachada contribuem para o conforto ao folião e permitem que suas festas sejam apreciadas de perto por aqueles que apenas querem assistir.
Sem muros ou qualquer outro obstáculo, o quintal da construção se confunde com a rua que passa quase à sua porta. A rua que dá acesso à pedreira.
Lá dentro os músicos tomam seus lugares. Pierrô Apaixonado, Mamãe Eu Quero, Jardineira, O Abre Alas, Cabeleira do Zezé, Me Dá um Dinheiro Aí...
Aos primeiros acordes as pessoas se dirigem para o centro do salão. Em cordões ou abraçadas umas às outras, pulam e cantam em meio à grande quantidade de confete e serpentina espalhada pelo chão. Rostos corados, suados, coloridos... felizes.
À distância é possível ouvir o som dos passos no assoalho de tábuas largas que formam o piso do salão. A música, com seus metais em destaque, espalha-se pelo ar e convida os que estão a caminho a se apressarem. Não há tempo a perder.
“Bandeira branca, amor. Não posso mais. Pela saudade que me invade, eu peço paz”...
É a marcha-rancho que vem em boa hora para dar um fôlego aos foliões. Ela anuncia uma trégua. Um breve intervalo.
Depois de pular freneticamente ao som das marchinhas tocadas sem parar, todos recebem com alívio o ritmo mais lento.
A música pára. As pessoas procuram a proximidade das janelas, onde a temperatura é mais amena. Vão para o bar em busca de algo para matar a sede. Encostados nas paredes, alguns descansam enquanto se abanam com leques improvisados. Enxugam o suor.
No palco, os músicos aproveitam a pausa para um descanso merecido, afinal são três dias e três noites de folia. O Salão da Prefeitura fica quase em silêncio por alguns minutos. Apenas vozes se misturando.
Aos poucos a orquestra vai retomando seu lugar. Os foliões também se preparam. A música novamente toma o espaço e contagia a todos. Impossível ficar parado. Aliás, ninguém quer ficar parado.
O baile vai até os últimos minutos da terça-feira. Os músicos param de tocar e guardam seus instrumentos. Lentamente as pessoas vão se preparando para deixar o salão. Meia-noite é o limite. Rigorosamente observado e cumprido. No dia seguinte começa a quaresma...
Último dia de carnaval. Último baile de carnaval. Último dia do Salão da Prefeitura... da Sede da Prefeitura.
Suas portas se fecham. Suas janelas tão acostumadas com a presença das pessoas não mais abrirão seus braços. Tudo é silêncio.
Resignado, o casarão de tantas alegrias aguarda os homens que, com suas máquinas, cuidarão da demolição.
No ar, uma marcha-rancho.
“Acabou o nosso carnaval. Ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando feliz. E nos corações, saudades e cinzas foi o que ficou...”
Desta vez anunciando uma pausa indesejada. Um intervalo sem fim. Um adeus...
Crônicas de uma cidade (Itapevi)
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