quinta-feira, 10 de outubro de 2019


CONTANDO HISTÓRIA NA ESCOLA ESTADUAL "LUIZ DA CÂMARA CASCUDO", JANDIRA



E
ra uma vez um tempo em que as crianças ouviam histórias contadas pelos adultos. Um tempo em que não havia luz elétrica, nem asfalto e nem fogão a gás. Naquele tempo, quando o sol se apagava, era hora de dormir. Na escuridão da noite, no matagal que cercava as casas, o lobisomem, a mula sem cabeça e o boitatá aproveitavam a luz da lua cheia para dar um giro pela redondeza. Era o tempo em que o lampião a querosene, pendurado no prego do batente, espalhava sua luz, de uma vela, pela casa inteira. Tempo do lanche de pão com mortadela, comprado no bar da Vila; dos gibis do Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira e do Zorro, trocados no intervalo das matinês.
Era uma vez um tempo em que as crianças ouviam as histórias que contavam de seus familiares. Conheciam, de ouvir contar, as fazendas e cidades onde eles viveram e trabalharam. Sabiam, também de ouvir contar, de suas aventuras e feitos que tiveram significado importante na formação de suas famílias.
Era uma vez um contador de histórias que viveu aqueles tempos. Que ouviu o que contavam de sua família, de seu bairro e de seus amigos. Que leu e trocou muitos gibis e conheceu – ainda que só por ouvir dizer – as assombrações que passeavam pelo matagal à volta de sua casa. E, de tanto ouvir histórias, achou que um dia conseguiria contá-las. Achou e arriscou. Saiu, por esse mundo afora, contanto um pouco do que sabia.
Um dia, foi convidado a contar histórias para contadores de histórias. Disseram-lhe que havia, em algum lugar, não uma, mas um grupo de pessoas interessadas em ouvir seus causos. Pessoas preocupadas em conhecer e contar a história de seu povo. Jovens estudantes que, mais do que contar, estavam construindo a história de sua comunidade.
E ele, então, foi até lá. Mal chegou e se apresentou, pôs-se a falar. Falou até pelos cotovelos. Não deu chance a ninguém. Afinal, não podia perder aquela oportunidade. Encontrou, finalmente, quem se dispusesse a ouvi-lo. E falou, não sabe bem por quanto tempo. E muito mais falaria, tamanha a alegria de estar ali com seus novos colegas. Alegria, porque sentiu que eles estão falando sério. Porque acreditam no projeto em que estão trabalhando. Porque transmitem o otimismo próprio dos vencedores.
E o tempo passou voando. Que pena. Hora de ir embora. Aquela foi uma tarde-noite especial para o contador de causos. Em Jandira, na Escola Estadual “Luiz da Câmara Cascudo”, conheceu pessoas que contarão e farão histórias. Uma galera que põe a mão na massa, em busca de seus objetivos. Conheceu um futuro baterista, uma futura médica, futuros advogados, engenheiros, professores, escritores... futuros brilhantes.
Ganhou amigos: Rosely, Diretora - Maria Aparecida, Vice-Diretora – Ângela, Professora - José Wilson, Professor – Meire, Professora – Miriam, Professora – Selma, Professora -  Aline, 2o A – Grazianne, 7a A – Jackson, 8a B – Janaina, 1o A - Lidiane, 1o A – Maxwell, 3o A – Neila, 2o A  e Renata, do 2o A.
Ganhou também um presente, uma recordação. Decorada pelos alunos, uma bonita garrafa. À primeira vista, pensou que estivesse vazia. Em casa, com mais vagar, viu que ela está cheia.
Contém uma mistura bem dosada de força de vontade, fé, companheirismo, criatividade, inteligência, amor, alegria, união e responsabilidade. O contador de histórias a exibe com orgulho e relembra, já com uma pontinha de saudade, o encontro com seus colegas do Cascudo.
Texto publicado em 13/5/2006, com o título "Contando história no Cascudo"

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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