E VIVA O
CONSTRANGIMENTO!
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E
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u, sem dúvida nenhuma, prefiro contar histórias antigas.
Acontece, no entanto, que às vezes fica difícil ignorar a história que acontece
à nossa volta. E o que me chamou a atenção, dessa vez, foi uma palavra. Vocês
já notaram que de vez em quando uma palavra aparece para dominar o vocabulário
do dia a dia? Papo firme, paquera, bacana, ficar, balada, xaveco, xarope e vai
por aí afora. Chegam, cumprem sua tarefa e vão embora. São palavras da moda.
Palavras que são criadas ou adaptadas para representar uma época, um momento.
Como
disse, minha atenção foi despertada, dia desses, por uma palavra:
constrangimento. Que o Aurélio define como sendo aperto, compressão; situação
ou estado de quem foi constrangido, violentado; violência, coação;
insatisfação, desagrado, descontentamento; acanhamento, timidez, embaraço.
Só
conhecendo a abrangência do seu significado é que me dei conta da força que
essa palavra representa. Do porquê, por exemplo, estar entre as preferidas dos
advogados, em seus discursos na defesa de seus clientes.
Nos
jornais e noticiários de rádio e TV, constrangimento virou estrela. É a toda
poderosa que chegou para livrar alguém de situações desconfortáveis. – “Meu
cliente não pode ser fotografado, filmado, identificado, mostrado, interrogado,
fichado e muito menos incomodado, porque poderá se sentir constrangido”.
Evidente,
penso com meus botões, que não tão constrangido como as vítimas de sua arma, de
suas ameaças ou de suas falcatruas. Mas agora ele está protegido pelo direito
ao não constrangimento. E essa proteção vale para o político corrupto, para o
filho que mata os pais, para o “de menor” delinquente, para o praticante de
crimes hediondos e para o que praticou crimes comuns. Até mesmo nas CPIs as
perguntas devem ser cuidadosamente elaboradas. Os “convidados” não podem se
sentir constrangidos.
Eta
palavrinha danada! Perguntar não ofende, mas constrange. Então não pergunte.
Não exponha. Vamos preservar a integridade moral, ainda que de réus confessos.
Vamos deixá-los em paz, enquanto cumprem prisão domiciliar. Vamos preservá-los,
para não constrangê-los.
Mas espera aí! Não vamos ficar apenas com os
aspectos negativos da força dessa palavra. Pensando bem, ela é mágica e pode
resolver quase todos, se não todos os nossos problemas. Basta que a situação se
enquadre na condição de constrangimento. Logo, se é proibido constranger, as
situações que constrangem também são proibidas. Elementar, meu caro Watson!
Vejamos.
Existe algo mais constrangedor do que alguém ter que pedir um pedaço de pão
para seus filhos? Do que crianças nos semáforos, mendigando uma ajuda aos
vidros fechados? Não se sente constrangido o cidadão que madruga numa fila da
previdência ou de um posto de saúde? Nem aquele que segue abarrotado no
desconforto de uma condução? E o que dizer do pai de família que recebe uma
ordem de despejo ou cobranças porque não consegue emprego? Será que ele não se
sente constrangido? Há constrangimento para os moradores de rua? E para o menor
abandonado? E para o idoso?
E
o cidadão que é filmado na maioria dos lugares que frequenta, não se sente
constrangido? E quando ele tem que deixar seus pertences, inclusive o celular,
do lado de fora, para entrar numa agência bancária?
Aí
não há constrangimento?
E...
Muitas outras situações poderiam ser relacionadas, mas respeitemos o espaço.
Não quero que o Editor se sinta constrangido por ter que cortar parte do meu
texto.
Texto
publicado em 11/6/2006
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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