sexta-feira, 4 de outubro de 2019


UMA CASA NA PRAIA
  

A
niversário da cidade, feriado e uma tarde tranquila para um bate-papo e um lanche com o delicioso, segundo ela própria, bolo caseiro feito pela Miriam. Pela porta da sala, uma colega cheirando a cachorro, segundo ela mesma disse, e trazendo no colo o Gabriel, uma espécie canina, entra cumprimentando a todos, indo parar na cozinha. Gente da casa, quase da família.
       Os assuntos pulam de um lado para outro. Música, filhos, amigos, animais de estimação e enchentes. Isso mesmo, enchentes. Em tudo quanto é lugar e, para não ser diferente, também em nossa cidade.
         A Lurdinha, essa nossa colega, a do cachorro no colo e que, portanto, cheirava a cachorro, como ela mesma disse, repito, teve de se mudar até que a situação melhore. Até que o rio entenda que não deve ficar jogando água pra tudo quanto é lado. Talvez ela, nossa colega, tenha que ficar fora por pouco tempo. Quem sabe, no próximo aniversário da cidade ela já esteja de volta.
        Não há que se ficar preocupados. Ela e a família estão muito bem e já se adaptaram ao novo lar. E aí, mais brincadeira. Dizem que a nova casa é tão pequena que eles têm que esperar do lado de fora, enquanto a visita não vai embora. Mas claro que é só brincadeira. Mais importante que o tamanho da casa é, sem dúvida, o tamanho do coração do dono.
     Agora nossa amiga é visita e aproveitamos a oportunidade do encontro para colocar a conversa em ordem e fazer alguns planos. Investimentos na área turística.
       Vamos construir uma praia. Exatamente às margens do rio que teima em transbordar e que foi o principal responsável pela mudança de nossa colega. Bem em frente à casa que ela teve que deixar fechada. Como diz o ditado, vamos fazer uma limonada do limão que nos deram. O investimento não é muito grande, não. Alguns caminhões de areia e umas barracas: “Churrasquinho do Gato”, outra de bolo caseiro, esteiras para alugar, algumas boias para a criançada e muita torcida para que o verão pegue pesado. Vai ser um empreendimento familiar, com todos pondo a mão na massa. A casa poderá ser utilizada como vestiários, quando não estiver inundada.
        Piadas e brincadeiras para descontrair, para esquecer um pouco os problemas. Na despedida, a certeza de que, no ano que vem, voltam para a casa, para junto de seus vizinhos amigos.
     Hoje, esse texto, junto com a cidade, comemora seu aniversário. Ele nasceu exatamente há um ano, quando Itapevi festejava 46 anos de sua emancipação. Por algum motivo que não me lembro, ficou incompleto e guardado. E por alguns motivos, que não me esqueço, continua atual.
     Vejam vocês: nossa amiga ainda não voltou, a casa continua fechada e o rio continua insistindo em deixar o leito para invadir as construções ribeirinhas.
       O projeto do nosso balneário teve que ser engavetado, pois ouvimos dizer que, exatamente no lugar da nossa praia, o rio seria canalizado. Correndo por debaixo da terra, o Barueri-Mirim não mais seria vítima de enchentes e nem teria suas margens à amostra para nossa areia. Sobre ele, teríamos ruas arborizadas e muitos jardins, com suas alamedas convidativas a passeios.  
      E um ano se passou. E nada disso aconteceu. Estou pensando seriamente em aproveitar o próximo lanche da tarde para retomar nosso projeto.
Texto publicado em 25/2/2006

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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