segunda-feira, 21 de outubro de 2019


NA PISTA CERTA


N
aqueles tempos, exercícios físicos não eram problema. Nas árvores da chácara ou das beiras dos rios. Nas escaladas dos barrancos e nas braçadas nas águas dos lagos. Correndo no pega-pega das tardes de verão ou atrás das boiadas que cruzavam a Vila. Balançando na corda amarrada no galho do eucalipto e descendo pelo cabo de aço que terminava na linha do trem. Emparedando tijolos nas olarias do Joaquim Mendes de Moraes e peneirando areia para a construção da casa de um amigo. Remando rio acima no barco do Leia e buscando lenha pra vó Zefa, no calipal atrás do frigorífico do seu Güido. 
         Correndo, para pegar o trem que apitava na parada Santa Rita e subindo o morro com a sacola de compra na cabeça. Tirando água do poço, no balde puxado pela corda e capinando o mato que teimava em crescer a cada chuva que vinha. Jogando malha e chutando a bola de “capotão” em um campinho qualquer. Regando a horta logo de manhã para espantar a geada e, de novo, à tarde, para espantar a secura da terra. Nas carreiras para empinar a pipa nos dias sem vento e para pegar o balão que, enfraquecido, deitava pelos lados da mata. No andar apressado para fugir do medo, depois de assistir ao Zé do Caixão na casa da Dona Luci, lá no alto do morro. Na correria para a busca do melhor lugar no “poleiro” do circo de passagem pela cidade, para ver a menina sardenta que imitava Rita Pavone.
         Exercitando a mente na leitura dos gibis, nos jogos de palitinho e na imaginação que corria solta com os seriados e novelas transmitidos pelo rádio de válvulas. Na atenção que precisava para entender as histórias contadas à luz do lampião de querosene e nas fantasias que embelezavam o dia a dia da infância. 
         Não havia tempo para o tempo perdido. Um tiquinho sequer de minuto era demais para ser desperdiçado. A vida era, toda ela, um exercício.
          E eu, num exercício penoso e involuntário, deixo minhas recordações. Dou de cara com o que sobrou. Com a cidade como pano de fundo, cruzo com algumas pessoas. Pulando para desviar de buracos. Saindo da estrada para evitar os carros em velocidade. Ora no asfalto, ora nos pedriscos do acostamento. Verdadeiros malabaristas. No retrovisor, o pequeno grupo fica para trás.  
         Volto a atenção para a frente e me aproximo do estádio municipal. Em reforma, dizia uma placa. E aí me veio uma esperança. A de que os dias de vacas magras de nossos atletas do asfalto estejam contados. Um pouquinho de paciência, só mais um pouquinho. Com certeza, no projeto de reforma daquela praça de esportes está previsto o óbvio: uma pista de atletismo. Um espaço para uso dos cidadãos itapevienses. Não mais correrão riscos nas curvas da estrada da cidade. Com certeza.
        Aquela placa me deixou tranquilo. Como disse, nada mais óbvio numa cidade que não dispõe de um parque para a prática do footing – gostei dessa palavra – do que uma pista de atletismo.
         Percebi que minha preocupação era totalmente descabida. Onde já se viu uma praça municipal de esportes sem um espaço para que os cidadãos possam praticar, em segurança, seus exercícios físicos? Não existe. Ainda mais em se tratando de um projeto de reforma recente. Só na minha cabeça, mesmo!
Texto publicado em 8/7/2006

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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