NA PISTA
CERTA
N
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aqueles tempos, exercícios físicos não eram problema. Nas
árvores da chácara ou das beiras dos rios. Nas escaladas dos barrancos e nas
braçadas nas águas dos lagos. Correndo no pega-pega das tardes de verão ou
atrás das boiadas que cruzavam a Vila. Balançando na corda amarrada no galho do
eucalipto e descendo pelo cabo de aço que terminava na linha do trem.
Emparedando tijolos nas olarias do Joaquim Mendes de Moraes e peneirando areia
para a construção da casa de um amigo. Remando rio acima no barco do Leia e
buscando lenha pra vó Zefa, no calipal atrás do frigorífico do seu Güido.
Correndo,
para pegar o trem que apitava na parada Santa Rita e subindo o morro com a
sacola de compra na cabeça. Tirando água do poço, no balde puxado pela corda e
capinando o mato que teimava em crescer a cada chuva que vinha. Jogando malha e
chutando a bola de “capotão” em um campinho qualquer. Regando a horta logo de
manhã para espantar a geada e, de novo, à tarde, para espantar a secura da
terra. Nas carreiras para empinar a pipa nos dias sem vento e para pegar o
balão que, enfraquecido, deitava pelos lados da mata. No andar apressado para
fugir do medo, depois de assistir ao Zé do Caixão na casa da Dona Luci, lá no
alto do morro. Na correria para a busca do melhor lugar no “poleiro” do circo
de passagem pela cidade, para ver a menina sardenta que imitava Rita Pavone.
Exercitando
a mente na leitura dos gibis, nos jogos de palitinho e na imaginação que corria
solta com os seriados e novelas transmitidos pelo rádio de válvulas. Na atenção
que precisava para entender as histórias contadas à luz do lampião de querosene
e nas fantasias que embelezavam o dia a dia da infância.
Não
havia tempo para o tempo perdido. Um tiquinho sequer de minuto era demais para
ser desperdiçado. A vida era, toda ela, um exercício.
E
eu, num exercício penoso e involuntário, deixo minhas recordações. Dou de cara
com o que sobrou. Com a cidade como pano de fundo, cruzo com algumas pessoas.
Pulando para desviar de buracos. Saindo da estrada para evitar os carros em
velocidade. Ora no asfalto, ora nos pedriscos do acostamento. Verdadeiros
malabaristas. No retrovisor, o pequeno grupo fica para trás.
Volto
a atenção para a frente e me aproximo do estádio municipal. Em reforma, dizia
uma placa. E aí me veio uma esperança. A de que os dias de vacas magras de
nossos atletas do asfalto estejam contados. Um pouquinho de paciência, só mais
um pouquinho. Com certeza, no projeto de reforma daquela praça de esportes está
previsto o óbvio: uma pista de atletismo. Um espaço para uso dos cidadãos
itapevienses. Não mais correrão riscos nas curvas da estrada da cidade. Com
certeza.
Aquela
placa me deixou tranquilo. Como disse, nada mais óbvio numa cidade que não
dispõe de um parque para a prática do footing – gostei dessa palavra – do que
uma pista de atletismo.
Percebi
que minha preocupação era totalmente descabida. Onde já se viu uma praça
municipal de esportes sem um espaço para que os cidadãos possam praticar, em
segurança, seus exercícios físicos? Não existe. Ainda mais em se tratando de um
projeto de reforma recente. Só na minha cabeça, mesmo!
Texto
publicado em 8/7/2006
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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