sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019





HERANÇA DE LEMBRANÇAS
Vitória Paixão Corrêa

Certamente, eu não poderei narrar, aos meus descendentes, experiências como as que o meu pai me contou, de suas reinações no rio absterso que transpassava Itapevi, as incontáveis vezes que se deliciou nos pés de frutas dos moradores dessa cidade, e também as suas travessuras na fábrica de vinho; como as que meu tio me descreveu, dos óleos de cozinha passados nos cabelos para irem aos bailinhos, as rodas de violão no bar da esquina, e a noiva cadáver que passeava pelas ruas noturnas.
A minha avó, então, que hoje me faz uma falta inenarrável, adorava me contar dos bois passando em frente à sua casa, inclusive quando destruíram o seu portão, e como se agradava ao ver seus filhos divertindo-se com o pé no chão, sendo que o único perigo eram o curupira e a mula sem cabeça.
Com minha pouca idade, nasci em uma cidade que apesar de ser a mesma, já é outra. Não tem o mesmo rio límpido, e as árvores já são bem poucas. Entretanto, há uma ampla hospedagem de empresas e de comércios, uma vez que, devido ao seu grande desenvolvimento, deixou de ser uma povoação na qual os moradores vinham para descansar e se divertir aos finais de semana e passou a ser um município em que todos têm a oportunidade não apenas de morar, mas também de trabalhar, de estudar e usufruir do seu lazer.
Ainda que minhas memórias sejam de uma cidade atual, eu tenho grande apreço pelos acontecimentos dos tempos longínquos, possuindo uma preciosidade em minha mente, que eu tive o prazer de vivenciar. Apesar de ter sido há pouco tempo, a minha alegria foi de ver um costume antigo se repetindo com o mesmo entusiasmo, fazendo com que a alegria da infância novamente tomasse forma. 
No sol quente de um sábado qualquer, eu estava sentada com a minha amada avó, em sua sacada, chupando balas de hortelã e conversando aleatoriamente, quando ouvi uma agitação na rua; uma criança tão curiosa quanto todas são, eu saí pelo portãozinho branco para ver o que acontecia.
Fiquei maravilhada quando vi meu pai, meu tio e seus amigos, todos, então, com fios brancos nos cabelos e nas barbas, mas igualmente com o pé no chão, brincando de malha. Não hesitei em ir até eles, para ver de perto cada gargalhada em conjunto que eu só conhecia das histórias que me contavam. O chão riscado de giz, marcando os territórios, era de asfalto, mas eu sabia que na mente daqueles adultos, que no momento estavam envoltos na magia, o cheiro de terra era vívido, assim como a sua textura quando eles tocavam o solo embaixo de si. Mesmo que o jogo fosse uma competição, entre aqueles amigos o intuito era apenas de se divertir e, para nós, seus filhos, sobrinhos e netos, era de vê-los felizes.
Em cada mente daqueles que ali estavam presentes, o cenário ressurgiu. As árvores renasceram, as frutas despontaram, o barulho do rio correndo ao longe trouxe paz, os quatro, seis ou oito participantes, não me recordo bem, no entanto, sei que ficavam intercalando a vez para que todos participassem, corriam animadamente, e o corpo, que poderia ser pela idade um empecilho, moldava-se no desejo infantil de ser feliz, entrando em contraste com todo o ambiente, que embora dessa vez fosse apenas nossa imaginação, já era um velho conhecido daqueles que viveram na época e de nós, mais novos, que ouvíamos cada história com muito desejo de vivê-las também.
Sentada na guia, eu os contemplava errando o alvo pela vista já não tão boa, o que era mais um motivo de risada, assim como assistia ao deleitamento da minha avó, com a sua dificuldade de andar, subindo lentamente cada degrau da escada, para ver os seus pequenos gargalhar. O prêmio eram os pés sujos, as rugas ainda mais enrugadas com as risadas deliciosas, os braços doloridos dos arremessos, e para nós a satisfação de sermos, por um instante, integrantes de uma época tão boa.
Sou moradora de Itapevi, usufrutuária de moradia, serviço e entretenimento na mesma, mas acima de tudo, sou orgulhosa de ser filha e sobrinha dos filhos de Itapevi, sim, filhos, visto que foram eles quem desfrutou cada detalhe dessa cidade em sua origem, foram eles quem desvendou seus atributos e os seus mistérios.

Vitória Paixão Corrêa Moradora de Itapevi desde o seu nascimento, há 20 anos, porta como sua riqueza uma vasta herança musical, literária, histórias narradas por seus familiares e amigos, e principalmente o amor pela leitura e pela escrita, o que resultou no estudo atual de Licenciatura em Língua Portuguesa e Inglesa. Participou quando criança do livro: “Eu Escrevo, Tu Escreves, Nós Mudamos”, em sua cidade, e atualmente, presta seus serviços como funcionária pública da mesma. 
 Do livro "Pedras preciosas - Histórias de Itapevi - Editora clubedeautores.com.br - 2018

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