José Carlos Branco (Zezinho)
Quero, através de algumas
linhas, contar minha história, da minha cidade, coisas que a maioria dos jovens
de hoje não sabem, porém achei importante saberem.
Vivi nos anos 1960 e, sobre o que vou contar, alguns podem até dizer que
eram tempos bons e outros dirão que é melhor agora. Sim! Muita coisa melhorou,
porém tiraram coisas que não voltam mais e que ficaram somente na memória dos
mais velhos. Lembro-me com saudades daquele tempo, embora pra muitas pessoas a
cidade esteja melhor nos dias de hoje, com a chegada do progresso.
Se eu disser que havia pessoas pescando lambari em pleno centro da
cidade de Itapevi, onde existia uma ponte de madeira, perto da estação
ferroviária e que podíamos ver o rio de águas limpas, árvores e peixes, muita
gente vai dizer: “isto é impossível”! Sim, nos dias de hoje, eu concordo. Resta
apenas a saudade do tempo em que podíamos nadar nas águas do rio Barueri Mirim,
atualmente escondidas porque ele foi quase todo canalizado.
Outro rio, que vem dos lados da Cohab, onde antigamente era uma
pedreira, e que se junta ao rio Barueri Mirim, também era muito vistoso, com
peixes e árvores. Tanto esse rio como o que rodeava o campo de um grande clube
que existia, o G.E. Municipal, para nossa tristeza também são só lembranças.
Nessa época, fazíamos nossas reuniões para encontrar os amigos, e o
assunto era onde seria o próximo jogo de futebol, nosso maior divertimento
naquele tempo. O E.C. Portela, time esse formado da fábrica de vinho Portela, nos anos 1950, à
época do meu pai, tinha seu campo próximo à linha do trem e da Avenida Lêda
Pantalena, que começa depois da ponte sobre o Rio Barueri Mirim, no bairro do
Jardim Portela.
Aí, vem minha geração, quando, então, montamos um campo de futebol perto
da chácara da dona Kique (em memória), mãe da tia Margarida, que se casou com meu
tio (em memória); hoje ela mora em Carapicuíba. Aqui, estou me referindo ao
E.C. Portela, anterior ao time registrado em 1974, e que tinha em uma de suas
escalações, por exemplo, os jogadores Cidinho, Irineu, Cirilo, Vander, Perogo,
Neguinho Sergio, João Nere, Dudu, Roberto, Elizeu meu irmão e eu. Dessa
geração, muitos ainda existem, outros não, mas é a pura lembrança de um passado
feliz. Não tem como negar; para nós era tudo perfeito.
A cidade era pequena, porém aconchegante, não se ouvia falar de
assaltos, muito menos de crimes; éramos felizes e não sabíamos, sabe?!
Digo isso porque me lembro dos meus pais, Manoel e Yraci Branco. Que
nesse tempo, pra ter uma ideia de como era tão simples, quantas vezes eu ficava
feliz quando meu pai preparava a carroça da fábrica de vinhos Portela, onde
trabalhou por quase 20 anos, e dizia: “Guinha (como chamava carinhosamente
minha mãe) vamos fazer compras”, e eu ficava muito feliz porque, nesse dia, eu
sabia que iria me alimentar com comidas diferentes.
Muita gente dos dias atuais pode dizer “caramba, será que era assim
mesmo”? Sim, ficávamos muito felizes porque era um dia especial. Naquela época
a gente nem dizia mercado, mas sim armazém ou venda. Porque era assim que meu Querido Pai me
falava: “Zezinho! Hoje vamos fazer compras! Na venda do Takeda ou do Dayo ou no
Jardim da Rainha.” Lugares de onde a gente voltava com a carroça cheia. Isso
era nos bons tempos.
Os bairros em formação; a maioria das ruas era de terra batida. Quando estava
sol, muito pó e quando chovia, muita lama. Mas o cheiro de terra molhada era
muito bom. Lembrando-me das muitas chácaras que existiam, lembrei-me de uma
peraltice de menino travesso. Não porque queria ser, mas porque o tempo fazia a
gente ser assim, aprontando às vezes coisas que não era para se fazer. Muitas
vezes eu levava almoço para o meu pai na fábrica de Vinho Portela, que ficava
dentro de uma chácara que existe até os dias de hoje.
Tinha um senhor, chamado Emílio Barranco, que tomava conta do casarão e
também de tudo que havia lá. Entre os muitos pés de frutas, tinha um pé de
pêssego com muitos frutos. Passei muitas vezes por baixo daquele pé de pêssego
e ali, em cima da minha cabeça, estava o maior pêssego do pé. Alguma coisa me
dizia “não pegue” e assim foi por muitos dias, até que pensei: ah, só um no
meio de tantos, ninguém vai me ver pegar (Naquela época era diferente a criação
dos filhos; meus pais sempre diziam para não pegar nada dos outros, nunca!).
Meu amigo, foi o pior susto e aprendizado da minha vida. Quando peguei o
pêssego, quem estava ali vendo tudo da janela do casarão e com uma espigada nas
mãos? Sim, o Sr. Emílio. Ele gritou, “Zezinho!” Vocês acham que eu esperei?
Nada, corri tanto pelo meio do mato cheio de espinhos de unha de gato. O Sr.
Emílio talvez quisesse me alertar de que não se deve mexer nas coisas alheias.
Rapaz, que decepção. Mais tarde meu pai chega do serviço e diz “Zezinho
vem cá.” Aí pensei, pronto agora estou frito, mas mesmo assim cheguei perto
dele, morrendo de medo. Ele abriu uma sacola cheia de frutas, não somente
pêssegos, diversas frutas, e me disse “sabe quem mandou essas frutas para
você?” Nem esperou eu responder. “Foi o Sr. Emílio; disse que é pra você comer
até enjoar e não mexer mais onde não te pertence”. Pra mim valeu, hahaha...
Nossa diversão de fins de semana, além do futebol, eram os bailinhos na
sede do clube, quando a vitrola tocava Roberto Carlos, Jerry Adriani, Martinha
e muitos outros. Ah, não posso me esquecer de quando juntávamos os amigos e
fazíamos nossa farra, fazendo vaquinha para comer frango assado no restaurante
em frente ao Cinema do Pereira - Cine São Manoel -, onde passavam filmes do
Mazzaropi. Lembro-me que a pessoa que fazia rodar a fita era o Sr. Rafael
Barranco. Tudo muito simples, mas era aconchegante. Hoje tudo mudou. Às vezes
me pego a perguntar, será que é melhor agora? Em parte sim!
Porque no tempo de adolescente, onde comecei a minha caminhada para a
vida, quando trabalhei na olaria, dos meus 11 aos 16 anos, depois trabalhei até
como ajudante de caminhão e estudei pouco porque tive de trabalhar, não foi
fácil para sobreviver. Precisei fazer cursos profissionalizantes, como de
eletrônica. Depois me tornei um pedreiro profissional e, por último,
empreiteiro de obras.
Não foi fácil, mas consegui meus objetivos. Muitos podem dizer que é
dureza. Eu digo que tudo valeu a pena e não tenho do que reclamar.
Tempo bom! Saudades!
José Carlos Branco – Nasceu em Itapevi – SP, no Jardim Portela, em
uma família considerada grande. Seus pais, Manuel Branco e Iracy Branco tiveram
mais oito filhos: Elizeu, Josué, Bilga, Rosidalva, Rosa Helena, Rosa Ilda,
Maria Amélia (em memória) e Miriam.
Agora tem sua
própria família. Casado com Lucia A. Branco, nascida em Minas Gerais, com quem
tem três filhos: Luiz Carlos, Alexsandra e Estefanio A. Branco. Estefanio
casou-se com a Meire e tiveram o Hugo. A Alexsandra casou-se com o Marcelo e
tiveram a Marcela, e o Luiz casou-se com a Maria e tiveram o Luiz Miguel. Meus netos
maravilhosos. Família Branco. Graças ao meu bom Deus, hoje tenho uma família
abençoada.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br.

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