Ayrton Corrêa
Confortavelmente sentado no
banco da Praça Carlos de Castro, à sombra das árvores de folhas largas – que eu
não sei a que espécie pertencem – fecho os olhos e vejo um grupo de garotos, de
idades mais ou menos iguais à minha, entre 8 e 11 anos, no máximo, pescando no
rio do outro lado da rua em que estou (Rua
Joaquim Nunes).
Resolvo pegar o caminho de casa. Atravesso a rua de terra batida, passo
pela banca de jornal, apressado, com receio de ser notado pelos engraxates que,
distraídos com o jogo
de bafo, nem percebem minha presença. Ufa! Ainda bem.
Cruzo a ponte de madeira, com suas guardas altas e em formato quase de
meia lua, passo pela porteira sempre aberta, atravesso a linha férrea na
passagem de nível em frente à bilheteria, entro à esquerda, na rua paralela à
cerca do mangueirão de bois – um cercado de madeira que serve para acomodar o
gado vindo de trem, até que seja conduzido para o frigorífico do seu Güido. Ao fundo, o
barrancão, arquibancada para a criançada assistir ao descarregamento da boiada.
Contorno a primeira curva à direita. Do outro lado da rua, a casa do chefe
da estação, vizinha do brejo onde mora a sucuri gigante que engole criança.
História das mães, tentando evitar que seus filhos brinquem em lugares perigosos. Mas qual o quê!
Você já viu moleque ter medo de sucuri?
Inicio a subida pela mesma estrada que os boiadeiros utilizam para
conduzir a boiada (Rua João
Pires de Oliveira); a mesma estrada que serve de caminho para a entrada e saída de
moradores e visitantes da Vila; a mesma estrada que serve de “parque de
diversões” para a criançada, tamanha a variedade de opções para a criatividade
– barrancos, árvores, brejo, ladeiras, frutos e animais silvestres. A mesma
estrada sempre, porque a única estrada sempre.
Deixo para trás mais uma porteira, há tanto tempo aberta que até se
confunde com o barranco em que está encostada. Lá em cima, passo pela casa do
Elói (94) e chego ao topo da subida, na entrada do meu
bairro, na entrada principal do Jardim Portela.
Começa a suave descida para o centro da Vila. À esquerda, o barracão da
Neide (Entre os números 66 e 170, da
Rua São Paulo);
de madeira e escondido no meio das árvores. Na primeira curva (Esquina da Rua São Paulo com a Rua São João da
Boa Vista),
a casa do seu Cesário (115). Em frente, do outro lado
da rua (300), um matagal com um enorme
formigueiro ao centro; nascedouro dos içás que sobrevoam a Vila em determinada
época do ano. Divisando com esse mato, a casa do seu Francisco (Rua São João da Boa Vista, 120).
Dizem que o matagal abriga uma brava e misteriosa porca com seus
leitõezinhos. Que, assim como aparece de repente, também de repente se evapora
no ar. Possivelmente, mais uma história das mães. Mas diga lá, se moleque não
tem medo de sucuri, vai se intimidar com uma porca, ainda que brava e
misteriosa?
Ao lado da casa do seu Cesário, o Bar do seu João Nicolau – João do Bote
– (270) e, ao lado direito do bar,
o campo de malha, que acompanha a rua e termina em frente ao Bar da Escadaria (112).
Do alto do barranco ao lado do bar, avisto as construções que se
distribuem ao longo da rua. À direita, o sobrado com suas casas geminadas (113) e a casa da dona Lola (116); à esquerda, a casa do seu
José Vaz (12).
Procuro uma localização melhor para avistar as casas que ladeiam a Rua
São Roque (Rua Francisco Reis). Ao lado direito, as casas
da Dona Iria (120), do seu Manoel Pinto (126), do Ditinho Pintor (129), do seu Sebastião (131), do Zico (155) e, ao lado esquerdo, a casa
do seu Orestes (85).
Vou para um ponto de onde consigo ver a Rua Bandeirante (Rua Arlindo Venturi), até onde ela se emenda com
a “estrada da boiada” (Rua Bagre). Ali estão a casa do seu
Luiz Bueno (11), as casas geminadas em que
moram os empregados da olaria (76), a casa do Zezinho Branco (39), a outra olaria do Joaquim Mendes de Moraes (Em frente ao número 23) e a chácara da dona Tiqüe (Entrada na divisa do Portela com o São Carlos,
altura do número 6 da Rua Bagre).
Ao lado esquerdo, em toda a extensão dessa rua, apenas brejo, mato e
lagoas formadas pelas águas das inundações que enchem as valas resultantes da
retirada do barro para as olarias.
Consigo ver também a “rua da ponte” (Rua
Rafael Barranco), que vem desde lá de cima, da casa do Luiz Chapéu (128), passando pela casa do Odair (130), pela casa do Cidinho (155), e termina depois do rio,
quando se encontra com a “rua do frigorífico” (Rua
Lêda Pantalena).
Desço por ela. Paro um pouco na ponte de madeira e fico admirando a
garotada que se diverte, à sombra das árvores, na água transparente do rio que
segue para os lados do pontilhão da estrada de ferro.
Olho para o lado, e lá está o campo de futebol, entre a linha de trem e
o rio. No quarteirão limitado pela “rua da ponte”, onde fica um dos gols, “rua
do frigorífico”, em uma das laterais, e na outra, “rua do Deiz” (Rua Francisco Pires de Oliveira), com as casas do Deiz e do
Dr. Juarez.
Resolvo voltar para o centro da Vila. Poderia subir a Rua Piracicaba,
passar pela casa do James (162), cruzar a “rua da ponte”,
bem lá em cima, passar pela casa do seu Décio (39) e chegar ao Bar da
Escadaria.
Mas escolho outro caminho. Retorno pela “rua da ponte”, entro na Rua São
Roque e, em seguida, na Rua Campinas (Rua
Benedito Corrêa), passo pela casa do Carlinhos do Sargento (12), pela olaria do Joaquim
Mendes de Moraes (À direita do
número 117),
pelas casas do Sargento Sant’anna (8) e do João Torto (10), e paro pra descansar no gramado em frente ao portão da
Chácara dos Italianos (105).
De onde estou, tenho uma boa visão de uma parte da Rua Rio Branco (Rua José Luiz Braga Filho) e de suas casas: a do tio
Dito (21), do Caipira (20), a minha (19), do Zé Boiadeiro (22), da dona Tereza (24), do Dito Foga (498), da avó Zefa (17), do seu Rafael (28) e a do seu Joaquim (30). Lá em cima do morro, a casa do seu Lino (34) e, lá perto da linha de trem, a caixa d’água, as casas
geminadas (35 e 38) e a fábrica de vinho,
propriedades da chácara.
Descansado, reinicio minha caminhada. Caminho pelo meio do mato, até
contornar uma curva e avistar a outra parte da rua, com suas casas apenas de um
dos lados: a do Chiquinho (85), do seu Ernesto Boiadeiro (86), da dona Dina (9), do seu Dante (92) e a do seu Darci (93), esta última, bem em frente
à biquinha.
Atravesso a rua para matar a sede. Uma calha de bambu faz a vez de bica,
por onde escorre a água que escapa pelo ladrão de uma caixa que abastece a
estação ferroviária. Verdadeiro oásis. Sombra e água fresca. Para lavar roupa,
matar a sede e se refrescar nos dias mais quentes.
Mais alguns passos e estou na Plaquinha (Fim
da Rua Rio Branco, em frente ao número 56), de onde se avista a maior parte da cidade,
com destaque para a estação, praça, cinema, igreja e cruzeiro. Ponto de
encontro do pessoal da Vila, com suas duas caixas d’água – uma sempre cheia,
que abastece a biquinha – e a outra sempre vazia.
Minha viagem está chegando ao fim. Sigo para a Rua São Paulo, para a
frente da casa do seu Juventino (70), à sombra dos dois
eucaliptos, nossos amigos de infância. Vista privilegiada. De um lado, quase toda a
cidade e, do outro, todo o Bairro. Fico por um tempo admirando a saudade dessa
paisagem.
Volto para a praça. Abro os olhos lentamente e os garotos não estão mais
pescando do outro lado do rio. Sem engraxates, sem mangueirão, sem porteiras,
sem casa do chefe da estação. Sem brejo, sem sucuri, sem porca misteriosa. Não
mais olarias, não mais Plaquinha e não mais biquinha, com sua sombra e água
fresca.
Respiro fundo... e me vem uma vontade enorme de fechar os olhos
novamente.

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