quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019




UM PASSEIO PELO MEU BAIRRO
Ayrton Corrêa

Confortavelmente sentado no banco da Praça Carlos de Castro, à sombra das árvores de folhas largas – que eu não sei a que espécie pertencem – fecho os olhos e vejo um grupo de garotos, de idades mais ou menos iguais à minha, entre 8 e 11 anos, no máximo, pescando no rio do outro lado da rua em que estou (Rua Joaquim Nunes).
Resolvo pegar o caminho de casa. Atravesso a rua de terra batida, passo pela banca de jornal, apressado, com receio de ser notado pelos engraxates que, distraídos com o jogo de bafo, nem percebem minha presença. Ufa! Ainda bem.
Cruzo a ponte de madeira, com suas guardas altas e em formato quase de meia lua, passo pela porteira sempre aberta, atravesso a linha férrea na passagem de nível em frente à bilheteria, entro à esquerda, na rua paralela à cerca do mangueirão de bois – um cercado de madeira que serve para acomodar o gado vindo de trem, até que seja conduzido para o frigorífico do seu Güido. Ao fundo, o barrancão, arquibancada para a criançada assistir ao descarregamento da boiada.
Contorno a primeira curva à direita. Do outro lado da rua, a casa do chefe da estação, vizinha do brejo onde mora a sucuri gigante que engole criança. História das mães, tentando evitar que seus filhos brinquem em lugares perigosos. Mas qual o quê! Você já viu moleque ter medo de sucuri?
Inicio a subida pela mesma estrada que os boiadeiros utilizam para conduzir a boiada (Rua João Pires de Oliveira); a mesma estrada que serve de caminho para a entrada e saída de moradores e visitantes da Vila; a mesma estrada que serve de “parque de diversões” para a criançada, tamanha a variedade de opções para a criatividade – barrancos, árvores, brejo, ladeiras, frutos e animais silvestres. A mesma estrada sempre, porque a única estrada sempre.
Deixo para trás mais uma porteira, há tanto tempo aberta que até se confunde com o barranco em que está encostada. Lá em cima, passo pela casa do Elói (94) e chego ao topo da subida, na entrada do meu bairro, na entrada principal do Jardim Portela.
Começa a suave descida para o centro da Vila. À esquerda, o barracão da Neide (Entre os números 66 e 170, da Rua São Paulo); de madeira e escondido no meio das árvores. Na primeira curva (Esquina da Rua São Paulo com a Rua São João da Boa Vista), a casa do seu Cesário (115). Em frente, do outro lado da rua (300), um matagal com um enorme formigueiro ao centro; nascedouro dos içás que sobrevoam a Vila em determinada época do ano. Divisando com esse mato, a casa do seu Francisco (Rua São João da Boa Vista, 120).
Dizem que o matagal abriga uma brava e misteriosa porca com seus leitõezinhos. Que, assim como aparece de repente, também de repente se evapora no ar. Possivelmente, mais uma história das mães. Mas diga lá, se moleque não tem medo de sucuri, vai se intimidar com uma porca, ainda que brava e misteriosa?
Ao lado da casa do seu Cesário, o Bar do seu João Nicolau – João do Bote – (270) e, ao lado direito do bar, o campo de malha, que acompanha a rua e termina em frente ao Bar da Escadaria (112).
Do alto do barranco ao lado do bar, avisto as construções que se distribuem ao longo da rua. À direita, o sobrado com suas casas geminadas (113) e a casa da dona Lola (116); à esquerda, a casa do seu José Vaz (12).
Procuro uma localização melhor para avistar as casas que ladeiam a Rua São Roque (Rua Francisco Reis). Ao lado direito, as casas da Dona Iria (120), do seu Manoel Pinto (126), do Ditinho Pintor (129), do seu Sebastião (131), do Zico (155) e, ao lado esquerdo, a casa do seu Orestes (85).
Vou para um ponto de onde consigo ver a Rua Bandeirante (Rua Arlindo Venturi), até onde ela se emenda com a “estrada da boiada” (Rua Bagre). Ali estão a casa do seu Luiz Bueno (11), as casas geminadas em que moram os empregados da olaria (76), a casa do Zezinho Branco (39), a outra olaria do Joaquim Mendes de Moraes (Em frente ao número 23) e a chácara da dona Tiqüe (Entrada na divisa do Portela com o São Carlos, altura do número 6 da Rua Bagre).
Ao lado esquerdo, em toda a extensão dessa rua, apenas brejo, mato e lagoas formadas pelas águas das inundações que enchem as valas resultantes da retirada do barro para as olarias.
Consigo ver também a “rua da ponte” (Rua Rafael Barranco), que vem desde lá de cima, da casa do Luiz Chapéu (128), passando pela casa do Odair (130), pela casa do Cidinho (155), e termina depois do rio, quando se encontra com a “rua do frigorífico” (Rua Lêda Pantalena).
Desço por ela. Paro um pouco na ponte de madeira e fico admirando a garotada que se diverte, à sombra das árvores, na água transparente do rio que segue para os lados do pontilhão da estrada de ferro.
Olho para o lado, e lá está o campo de futebol, entre a linha de trem e o rio. No quarteirão limitado pela “rua da ponte”, onde fica um dos gols, “rua do frigorífico”, em uma das laterais, e na outra, “rua do Deiz” (Rua Francisco Pires de Oliveira), com as casas do Deiz e do Dr. Juarez.
Resolvo voltar para o centro da Vila. Poderia subir a Rua Piracicaba, passar pela casa do James (162), cruzar a “rua da ponte”, bem lá em cima, passar pela casa do seu Décio (39) e chegar ao Bar da Escadaria.
Mas escolho outro caminho. Retorno pela “rua da ponte”, entro na Rua São Roque e, em seguida, na Rua Campinas (Rua Benedito Corrêa), passo pela casa do Carlinhos do Sargento (12), pela olaria do Joaquim Mendes de Moraes (À direita do número 117), pelas casas do Sargento Sant’anna (8) e do João Torto (10), e paro pra descansar no gramado em frente ao portão da Chácara dos Italianos (105).
De onde estou, tenho uma boa visão de uma parte da Rua Rio Branco (Rua José Luiz Braga Filho) e de suas casas: a do tio Dito (21), do Caipira (20), a minha (19), do Zé Boiadeiro (22), da dona Tereza (24), do Dito Foga (498), da avó Zefa (17), do seu Rafael (28) e a do seu Joaquim (30). Lá em cima do morro, a casa do seu Lino (34) e, lá perto da linha de trem, a caixa d’água, as casas geminadas (35 e 38) e a fábrica de vinho, propriedades da chácara.
Descansado, reinicio minha caminhada. Caminho pelo meio do mato, até contornar uma curva e avistar a outra parte da rua, com suas casas apenas de um dos lados: a do Chiquinho (85), do seu Ernesto Boiadeiro (86), da dona Dina (9), do seu Dante (92) e a do seu Darci (93), esta última, bem em frente à biquinha.
Atravesso a rua para matar a sede. Uma calha de bambu faz a vez de bica, por onde escorre a água que escapa pelo ladrão de uma caixa que abastece a estação ferroviária. Verdadeiro oásis. Sombra e água fresca. Para lavar roupa, matar a sede e se refrescar nos dias mais quentes.
Mais alguns passos e estou na Plaquinha (Fim da Rua Rio Branco, em frente ao número 56), de onde se avista a maior parte da cidade, com destaque para a estação, praça, cinema, igreja e cruzeiro. Ponto de encontro do pessoal da Vila, com suas duas caixas d’água – uma sempre cheia, que abastece a biquinha – e a outra sempre vazia.
Minha viagem está chegando ao fim. Sigo para a Rua São Paulo, para a frente da casa do seu Juventino (70), à sombra dos dois eucaliptos, nossos amigos de infância. Vista privilegiada. De um lado, quase toda a cidade e, do outro, todo o Bairro. Fico por um tempo admirando a saudade dessa paisagem.
Volto para a praça. Abro os olhos lentamente e os garotos não estão mais pescando do outro lado do rio. Sem engraxates, sem mangueirão, sem porteiras, sem casa do chefe da estação. Sem brejo, sem sucuri, sem porca misteriosa. Não mais olarias, não mais Plaquinha e não mais biquinha, com sua sombra e água fresca.


Respiro fundo... e me vem uma vontade enorme de fechar os olhos novamente.

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