ITAPEVI, AMOR ANTIGO
Janete Aparecida de Oliveira
Carregosa
Minha avó materna nasceu em
1912. Como ela sempre dizia: Nasci quando afundou um navio famoso (Titanic).
Seu pai, consequentemente, é bem antiguinho. E foi esse senhor que, após uma
forte tempestade, viu que uma árvore havia caído nos trilhos da antiga
Sorocabana. E estava quase na hora do trem passar, vindo de São Paulo em um dia
de carnaval. Talvez por desespero, colocou-se à frente do trem, com o objetivo
de fazer com que o maquinista percebesse que havia um problema. Não deu tempo.
Ele morreu. Percebendo sua humildade, as pessoas que foram salvas depositaram,
em seu chapéu, algum dinheiro para ajudar a família.
Minha avó cresceu e casou-se com um senhor, maquinista da Sorocabana.
Morreu em um acidente entre trens e a deixou com um filhinho que, quando
adulto, trabalhou na estrada de ferro.
Vovó casou-se novamente. Com alguém extremamente especial. Meu avô. Ele
parava a carroça, descia para terminar de quebrar um galho de árvore, para ela
parar de sofrer. Dizia que devíamos ajudar os ruins, porque os bons por si se
servem. Amava roda gigante e ia a São Paulo se divertir em parques; juntava os
filhos, pegava o “rápido” e os levava à praia (Santos). De roupa mesmo, as
crianças entravam na água e voltavam assim. Na volta, ficavam na janela para ver Amador Bueno, onde moravam.
Quanta felicidade!
Fez amizade com uma família de italianos do centro de Itapevi e, lá, foi
apresentado à pizza. Comprou mortadela e refrigerantes (um luxo), chegou para
minha vó e explicou sobre “aquele pão magro” com umas coisas em cima. Ela fez
e, enquanto isso, foi dar um jeito de refrescar os refrigerantes, já que não
tinham geladeira. Muito
criativo, amarrou as garrafas em uma cordinha e as mergulhou no poço.
Pizza pronta, crianças alvoroçadas, foi buscar seu tesouro. A corda
havia se partido e ele, com os filhos, simplesmente ficaram acenando para o
fundo do poço. Teve a ideia do aceno para que as crianças não chorassem, pois refrigerante
de novo, só no Natal.
Voltando um pouco no tempo, minha bisavó, após a morte do marido
tentando salvar o trem, assumiu seu trabalho na estrada de ferro Sorocabana,
como chaveira. Puxava uma alavanca no trilho. E presenciou, em 1932, vagões
cheios de soldados. Com medo da revolução, deixava os filhos em casa e,
bravamente, ia trabalhar.
Itapevi é feita de pequenas histórias, carregadas de sentimentos.
Pessoas de verdade, passíveis de erros como qualquer ser humano, mas cheias de
esperança e amor. Histórias dentro da história do Estado de São Paulo, do
Brasil ou do mundo, histórias leves e engraçadas ou densas e fortes. Uma
verdadeira história de amor. Amor eterno.
Janete
Aparecida de Oliveira Carregosa – Nasceu
em Itapevi, São Paulo, Brasil onde continua morando. É
solteira, professora aposentada. Adora os animais,
ler, escrever e passear. Ama sua família,
seus amigos e também sua cidade, Itapevi.
Texto do livro “Pedras preciosas -
Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de
Autores, www.clubedeautores.com.br.
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