ITAPEVI,
CIDADE DORMITÓRIO!
Pedro Virgílio Corrêa Filho
Desde
criança, ouvia falar que Itapevi era cidade dormitório e não entendia. Será
porque as pessoas quando passam por aqui são acometidas de muito sono? Nunca tive a resposta, quando criança.
Também, não era minha prioridade. O que importavam realmente eram as
possibilidades de brincadeiras que ela oferecia com seus lagos, rios, matas, e
a relação com as poucas pessoas que aqui viviam na época.
Hoje, comparo minha infância na cidade com o personagem
do escritor Maurício de Souza, Chico Bento (Tinha até a Rosinha, filha do seu
Henrique, Irmã do Nelson, “Buguela”)!
Quem já leu o gibi sabe como era minha vida na
cidade. Vivi e cresci num ambiente com total liberdade, sem medos, sem
“stress”, sem preocupação nenhuma. E isso aguçava nossa (minha e de meus
amigos) criatividade para inventar brincadeiras e/ou brinquedos.
Brincadeiras, como a de canto (que não era cantar,
mas sim correr de um canto a outro num forno vazio de uma olaria), amassar
moitas (jogar-se de costas ou de barriga em uma moita qualquer para amassá-la.
Que perigo!), fazer guerra de mamonas com estilingue... doía!... Jogar
pedrinhas (às vezes usávamos minitravesseiros com areia), rodar um aro qualquer
com uma vareta de arame, caçar tesouro através de mapas, e muitas outras. Brinquedos,
como carrinho feito com latas de leite e de óleo, perna de pau (lata) feita com
latas de leite em pó, e por aí vai.
Depois, a adolescência com os namoricos e os
bailinhos. Preocupação, agora, com o visual. Calça de tergal, boca de sino, um
chaveiro pendurado para enfeitar e estava pronto para curtir. Nesse período de
descobrimentos, era chegada a hora de frequentar locais onde houvesse “gatinhas”.
Estação de trem, cinema do Pereira, parquinhos e circos que sempre vinham
aportar em Itapevi, procissões etc.
Cantatas no bar da escadaria aconteciam até durante
os dias de semana. Horário para terminar? De madrugada! Luizinho, Walter, eu,
Ayrton, Valdemar; aí aprendi a tocar violão, com o violão do Valdemar e do
Ananias. Interessante, não tenho lembrança de meninas participando das
cantatas!
Trabalho, numa das poucas empresas, Fábrica de
Cimento Santa Rita, Frigorífico Itapevi S/A, e mais algumas que não me recordo
do nome. Eu trabalhei três ou quatro dias no restaurante do Constantino, onde
havia o único telefone da cidade, eu creio. Ficava dentro de uma cabine preta.
Trabalhei também no armazém do Ângelo, como
balconista. A grande parte dos moradores da cidade trabalhava em São Paulo.
Retornavam para casa ao término da jornada de trabalho, já à noite (aí está a
explicação do porquê ser chamada de cidade dormitório!).
Trabalhei junto aos amigos que compartilhavam o dia
a dia comigo, no Frigorífico Itapevi S/A (ou será Ltda.?). Horário “puxado”!
Terça, domingo e quinta, das sete horas da manhã até as vinte e quatro horas.
Às vezes, chegávamos a passar dois dias sem voltar pra casa! Mas era divertido,
também. Tino, Cidinho, Jorge, João, Alivete, Vavá, Manoel, Bruno,
Nishimura, entre outros. Tempo de fartura! Tínhamos direito a três quilos de
carne (fraldinha), três vezes por semana.
Com o trabalho vieram algumas conquistas: meu
primeiro carro, um fusca azul 1968, posteriormente trocado por
uma motocicleta Suzuki 100 cc, também azul, uma TV Mitsubishi 24 polegadas
colorida, um gravador cassete e outras aquisições.
No armazém da Sorocabana, da qual meu pai era
funcionário, levávamos todos os meses a “caderneta” para fazer o pedido da
compra do mês. Sardinha, linguiça, carne seca (jabá), salsicha em lata, patê,
bolacha, bacalhau (imagine!), queijo, leite em pó, leite condensado, e os
produtos básicos como feijão, arroz, açúcar, café, óleo. Depois de tudo pronto,
era só alugar uma charrete na praça e levar as mercadorias para casa.
No final de cada mês, no dia do pagamento, o trem
pagador aportava na estação de Itapevi, onde os funcionários o aguardavam para,
através da janelinha do vagão, receber seus holerites, junto com o dinheiro!
Saíam todos conferindo seus pagamentos, em plena rua, sem nem pensarem em
assalto! Medo? Só de fantasmas! De gente viva não!
E assim fui crescendo e, já adulto, tomei meu rumo.
Casei, mudei de bairro e iniciei um novo ciclo, agora compartilhando com minha
companheira as dificuldades, as alegrias, as conquistas. Duas filhas, que se
juntaram a nós pra sermos uma família, considerada por mim perfeita. Continuo
em Itapevi. Acho que, como dizem os antigos, só saio daqui no caixão.
Feliz? Muito! A cidade dormitório me concedeu as
alegrias de criança, de adolescente, de adulto, e agora, na melhor idade.
Considero-me privilegiado por ter vivido todas essas fases aqui.
Que meus amigos da época saibam que o fato de cada
um de nós seguir caminhos diferentes não faz com que eu esqueça os momentos que
passamos juntos em nossa cidade. As lembranças, em momentos de reflexão, surgem
trazendo saudades.
Itapevi, pra mim, sinônimo de aprendizado e
felicidade!
Pedro Virgílio Corrêa Filho –
Sessenta e cinco anos – Nascido em Itapevi – Trabalhou no Frigorífico Itapevi
S/A, de 1969 a l982 – Aposentado pela FEPASA, Ferrovia Paulista S/A, em
2005 – Hoje, morador do Bairro Jardim Nova Itapevi.
Texto do livro “Pedras preciosas -
Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de
Autores, www.clubedeautores.com.br.
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