sexta-feira, 1 de março de 2019



CAMINHANDO CONTRA O VENTO PELAS RUAS DA CIDADE
Célia Regina Corrêa

Aquela cidade era bem pequena, prosaica, bucólica.
Aos meus olhos, era uma cidade de passagem. Sempre senti saudades do futuro, da vida além da última estação do trem, do desconhecido, de novos caminhos.
Os meus sonhos eram maiores que a cidade. Então, um dia, quando me senti moça suficiente, entrei naquele trem, desci na última estação e por lá fiquei!
Muito bem. Eu precisava muito desse prólogo!
Não tenho saudades do lugar onde nasci. Tenho lembranças boas e outras nem tanto.
Tenho fotografias na minha memória!
Subo a rua da igreja de São Judas Tadeu e passo pela padaria mais legal da cidade, pela Prefeitura, pela Igreja Batista da minha melhor amiga. Lá em cima, quase chegando ao meu destino, me encanto com a casa grande e bonita com um jardim kitsch, enfeitado com a branca de neve e os sete anões. Ficava imaginando como seria lá dentro.
Ir à igreja não queria dizer necessariamente, rezar. O pátio era o nosso ponto de encontro. Lá a gente encontrava os amigos, os paqueras e se divertia. E, de vez em quando... entrava pra rezar.
Ah, e naquela rua também descia a procissão. Com andores, filhas de Maria, anjinhos e o padre lá na frente puxando a reza. Para mim, era o máximo chegar até o final sem deixar a velinha apagar.
Então, ela se transformava numa rua cantante.
A rua da igreja sempre foi meio mágica, porque lá estavam as coisas que me encantavam.
E se aquela rua fosse minha, claro que eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante!
Numa outra rua, ficava o cine São Manoel. Era a versão tupiniquim do Cinema Paradiso e sei que me tornei uma rata de cinema, graças às escapulidas da bilheteria para entrar na sala do projecionista, que era nosso amigo, claro! Então, assistia aos filmes pela janelinha quadradinha lá em cima. De graça!
Aquilo, sim, foi uma verdadeira iniciação às artes.
Nas matinés, tinha cadeiras de madeira, cortinas de veludo, lanchonete embaixo da tela, o intervalo, namorinhos e muitos aplausos quando o filme acabava. Era pura alegria!
Eu, como uma adolescente romantiquinha do interior, adorava assistir “Dio, come ti amo”.
O meu lado sonhadora gostava de ver filmes com magias e “efeitos especiais”. Não tinha pra ninguém, nem para o Spielberg!
Os filmes do Mazzaropi despertavam a minha alma interiorana. E eu me acabava de tanto rir com aquele maluco.
Então, essa rua se transformava numa rua de Hollywood!
Era uma rua larga e comprida, aquela do meu colégio. À noite, ela era tomada por uma multidão de meninas e meninos de branco, apressados, rumo às aulas.
A rua larga e comprida, aquela do meu colégio, era de paralelepípedos e serpenteava sinuosamente, levando sonhos, cansaços, esperanças, fé e porque não dizer, muita diversão também. Tudo branquinho de fazer gosto.
Em junho, nessa mesma rua, liderada pelo professor de francês, (oui monsieur, pardon monsieur) a quadrilha de festa junina se requebrava ao som de uma sanfona e seguia até a praça central, onde o Arraial do Toco Oco já estava fervendo.
Então, essa rua se transformava numa rua dançante!
Eu, literalmente, adorava a estação de trem. Ela era tão bonita! Passar pela bilheteria, pela “borboleta”, caminhar por ela procurando rostos conhecidos e depois embarcar... e desembarcar. Pra mim, era o guarda roupa das Crônicas de Nárnia. Um portal para um outro mundo.
E de volta ao quarto da turminha de Nárnia, eu tinha que encarar uma estrada de terra, escura, até a minha casa. Ia correndo malucamente, morrendo de medo de assombrações.  Só de assombrações (bons tempos aqueles).
Então, essa estrada se transformava numa rua de aventuras.
Passando na rua da minha casa, lá estava a cerquinha de taquara, a varanda encerada, pés de frutas e crianças no quintal. Então, ela se transformava numa rua de infância.
Esses são os retratos da minha memória, entre outros tantos.
Mas, jamais me esquecerei da sopa da minha avó, da novela de rádio Juvêncio, o justiceiro do sertão, da sacola de bananas maduras atrás da porta, da velhinha parecida com a Madame Min, da trouxa de roupas na cabeça da Madame, dos tanques com duas mulheres, da enteada esquisita, do avô malucão... e de botas, da fogueira grande no quintal, da batata doce ardendo nas brasas, das bombinhas e busca-pés, do mastro com bandeirinhas, do pé de manga e do abacateiro. Não me esquecerei também do balanço de corda e assento de madeira num dos galhos do abacateiro. Lá, eu me balançava bem alto querendo tocar o céu que nos protege.
E no interior daquela casa com as crianças no quintal, uma menininha sentada do ladinho do fogão de lenha, abraçava as perninhas dobradas, apoiava o queixo nos joelhos e olhava fixamente o fogo que crepitava. Ao seu lado, uma mulher meio rechonchuda e ainda jovem, com movimentos tranquilos, coreografava um balé que falava de amor e proteção, enquanto preparava a comida para todos nós.
Essa cena seria digna de uma obra de Renoir.
Então essa casa se transformava numa casa dos contos de fadas.

Célia Regina Corrêa  Sou uma criança nascida faz tempo (Teatro Mágico).
Trago comigo a minha estória, as minhas rugas e a certeza de tantas incertezas.
Andei por tantos caminhos evitando os atalhos e meus ais se esvaíram por aí
Tudo o que tenho é a minha alma
Que agora, mais calma, contempla o tamanho do céu, a maciez da terra e a dança dos ventos. 
Hoje, não sou mais imortal.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br.

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