terça-feira, 12 de março de 2019



PONTE OU REPRESA?

 
E
u morava num lugar alto, em relação às margens do rio. Na minha casa não chegava enchente. Quando muito, entrava no quintal a água que transbordava da valeta. Água barrenta, porque as ruas eram de terra. Sem calçamento. Entrava pelo portão da frente, por debaixo da cerca de arame farpado e saía por debaixo da cerca dos fundos do quintal.
      Ganhava volume com a água que caía da cumeeira da casa. Atravessava o galinheiro, o chiqueiro, a horta e seguia livre lá pelos lados da bananeira. Ganhava o rumo da chácara e chegava ao rio.
       Inofensiva. Não fazia mal a ninguém. Também pudera, não havia nada a lhe barrar o caminho, a não ser a criançada que vez ou outra brincava na enxurrada.
           Lá embaixo, na várzea, o rio despejava suas águas para fora do leito. Sem problemas. Naquele tempo ninguém morava tão perto de suas margens como hoje.
        Pois bem, dia desses eu me encontrava no Bairro, quando choveu. Aquela chuva de verão. De repente. Parecendo que vai acabar o mundo.
        Olhei para o quintal e não vi água nenhuma vindo da rua. Um muro lhe impedia a passagem. A que caía do telhado corria pelo chão de cimento. Água limpa, sem terra a lhe emprestar o colorido amarronzado de algum tempo atrás.  Não precisa passar pelo galinheiro, nem pelo chiqueiro ou pela horta e muito menos pela bananeira. Nada disso existe mais. Tem, isso sim, muita dificuldade para escapar pelas grades do portão do fundo do quintal. Passagem estreita.
        Um outro muro impede que ela entre na chácara e ganhe o caminho do rio. Tem que dar muitas voltas. Enfrentar uma verdadeira corrida de obstáculos.
     Não vi criança brincando na enxurrada. Não consegui saber por quê. Talvez não gostem. Talvez tenham coisas mais divertidas para fazer em dias de chuva. Não sei.
      Fiquei ouvindo o barulho de seus pingos no telhado e imaginando como todo aquele aguaceiro sairia da Vila. Como chegaria ao seu destino e, mais ainda, como seguiria seu caminho sem provocar danos. Afinal, agora tem muita gente morando bem perto das margens dos rios.
        De repente a chuva parou. O céu ficou claro novamente. De rodo nas mãos, as pessoas puxam a água que se acumulou na área ou calçada de suas casas.
       À noite, assistindo ao jornal na televisão, vi o estrago que aquela chuva causara. Casas inundadas. Pessoas tentando se salvar; salvar seus pertences. Helicópteros de reportagens. Entrevistas. Um verdadeiro caos.
        Em meio a toda aquela confusão, um detalhe me chamou a atenção: a dupla função das pontes mostradas do alto pelas câmaras de TV. Observei que, além de ligar as margens dos rios, servem também para atrapalhar a viagem das águas da chuva. E, sem entender de construção, achei estranho que estejam tão perto do nível normal dos rios. Os entulhos trazidos pelas enxurradas ficam presos em suas estruturas, formando verdadeiras represas.
           E agora? O que fazer? Aumentar a altura das pontes ou rebaixar a calha dos rios?
        Preocupa-me que nossos técnicos digam que a culpa é das vítimas das enchentes. Que elas devem se mudar para lugares mais altos. Afinal, ninguém mandou comprar terreno na várzea, alguém já lhes dissera.
         Fico realmente muito preocupado. Pois, quem somos nós para discutir um parecer técnico?
12/04/2003
Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - Editora clubedeautores.com.br - 2018

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