PUXANDO
PELA MEMÓRIA
Luci Barranco Centalvi
Fui convidada pelo amigo Ayrton Corrêa, autor
do livro Puxando pela memória, para participar de uma coletânea de nossas
histórias de infância. São tantas, que fica difícil escolher uma só.
Eu
me lembro tanto de nossa infância, de como vivíamos cada momento, no Jardim
Portela, onde fomos criados e fomos tão felizes. Às vezes, nos encontramos
casualmente, batemos um papo e cada um segue com sua vida. Agora já somos avós
(Puxa, como o tempo passa rápido!), mas a nossa infância sempre volta à nossa memória.
Eu
nasci no Portela e me lembro de cada detalhe de tudo; naquele tempo não existia
menino ou menina e todos eram crianças. Jogávamos bolinha de gude, taco, amarelinha,
esconde-esconde e gostávamos especialmente de brincar na chácara, onde meu avô Emílio
era caseiro.
Lembro-me
de onde estava cada pé de fruta que a gente comia; cada delícia, direto no pé.
Era muita variedade, todas docinhas, e a gente comia à vontade, goiaba,
laranja, mexerica, caqui, amora, morango, cana, pera, etc. A recordação da
chácara é tão grande que às vezes me vejo lá dentro, embora há anos eu não
entre lá. O tempo passou, meu avô morreu e vieram outros caseiros, acabando com
nosso acesso à chácara, que ganhou muros altos e cachorros bravos.
Mas,
na chácara, o que mais nos atraía era a fábrica de vinho. Lembro-me que tinha
as casas dos caseiros e, em frente, a vinagreira, que, pelo nome, imagino,
fabricava vinagre. Lá embaixo, a fascinante fábrica de vinho, onde nós
adorávamos brincar. E, na inocência de toda criança, a gente explorava tudo.
Quando
descíamos as escadas brancas para chegar à fábrica, nos sentíamos os
exploradores do futuro. Parecia tudo tão grande – ou nós que éramos pequenos –
e passávamos pelo vitrô sem vidros do laboratório da fábrica. Lá dentro,
descobrimos um paraíso, brincamos de cientistas e ficamos fascinados pelas
misturas de coisas que não sabíamos o que era, só que, misturados, saía fumaça,
mudava de cor e nos divertíamos muito.
Uma
vez, eu não me lembro quem, descobriu sabe o quê? Um tonel cheio de vinho, e aí
colocamos uma mangueirinha e experimentamos. E, para nossa surpresa, era um
vinho branco, docinho e delicioso, e todo dia a gente ia lá e tomava um pouco,
até que um dia eu tomei demais e fiquei pra lá de Bagdá. Minha
avó pediu-me pra varrer o quintal pra ela antes que chovesse e, pasmem, eu não
aguentava o cabo da vassoura. Aí foi tudo descoberto e a brincadeira acabou.
Meu avô se desfez do vinho que só deixou saudade.
Mas
agora vou parar, senão tomarei muito espaço e preciso deixar meus amigos
contarem suas recordações, pois as lembranças que tenho da minha infância
dariam para escrever vários livros. Uma infância que foi bem vivida e feliz e,
por isso, deixou tantas recordações.
Hoje,
moro longe do Portela, mas meu coração ainda está lá. Hoje somos terceira idade
e vivemos cada momento alegres e felizes, mas não esquecemos a infância feliz e
ingênua que tivemos. Sabemos
que a vida é feita de etapas e devemos curtir cada fase dela como se fosse a
primeira. Muitos amigos se foram e novos vieram. Amamos, tivemos altos e
baixos, mas nunca nos esqueceremos da nossa infância.
Luci
Barranco Centalvi
– Nasceu no Portela e hoje mora em Itanhaém, onde
é vice-presidente da Associação Terceira Idade Viver Bem
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br.
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