MINHA
AVÓ CLARA
Maria Clara Piazza Bergamini
Eu poderia contar várias histórias que vivi em
Itapevi, afinal nasci e cresci nessa cidade. Frequentei escolas, fiz parte dos
primeiros alunos que estudaram no novo Grupo Escolar Marechal Cândido Rondon,
porque primeiro ele era na atual Praça 18 de Fevereiro. Depois, estudei no
Grupo Escolar Dr. Raul Briquet, na Rua Luiz Manfrinato e também do Colégio
Estadual, hoje José Neide Cesar Lessa.
Ia,
aos domingos, à Roselândia, onde também trabalhei nas suas famosas "Festa
da Rosa"; trabalhei no Frigorífico Itapevi; fugi, junto com amigas,
de bois que escapavam das boiadas, pois íamos a pé, não tinha ônibus em Itapevi.
Contar
que levava marmita para o meu pai, que era chefe de trem e, muitas vezes, eu e
meus irmãos, além de outros filhos de ferroviários que também trabalhavam na Barra
Funda ou Júlio Prestes, a colocávamos, com ajuda de alguém pois não
alcançávamos o lugar para colocar as malas, pacotes etc., que os trens tinham,
e as marmitas chegavam aos seus donos sem que ninguém as tocasse.
Contar
das festas juninas da capela de Santo Antonio que meu pai, Lino Piazza, ajudou
a construir, trabalhando mesmo de pedreiro, e deixou anotações, fotos e programas
das festas guardados, que hoje estão comigo; contar dos bailes que tinha na
quermesse onde meu tio Carlos Piazza e o marido da minha prima Geni, Benedito
Rosa, conhecido como Leque, tocavam suas sanfonas maravilhosas.
Seriam
muitas histórias, então resolvi falar um pouco de alguém que foi muito
importante não só para mim, não só para sua família, mas para Itapevi; ela que
foi homenageada com o título de "Mãe do Ano" pelo jornal O Imparcial,
no ano de 1972. Com certeza ela foi uma preciosidade, uma grande e bela mulher:
a minha avó Clara.
Quando
você passa numa rua pela primeira vez ou mesmo todos os dias, numa cidade em
que você nasceu, cresceu, acabou de se mudar e você lê na placa – quando elas
existem e são conservadas – o nome da rua, normalmente o nome de uma pessoa,
você pensa, às vezes, quem era ela, o que fez pela cidade, para ter seu nome
numa rua, porque muitas vezes você não a conheceu e provavelmente somente
algumas pessoas poderão lhe dizer quem era, o que fez.
Vou
lhes contar a estória de uma pessoa que se tornou nome de rua em Itapevi e
agora faz parte da história da cidade.
Muitos
itapevienses passam por essa rua todos os dias, alguns nem sabem seu nome. Ela
fica bem no centro, ela não é muito extensa, aliás, bem curta. Na minha
infância, era só mato, mas hoje ela é asfaltada e faz uma ligação importante:
liga a Avenida Cesário de Abreu à Avenida Luiz Gonzaga de Abreu (Corredor
Oeste).
A
rua que descrevi acima chama-se Clara Coluzzo Piazza, sim, uma italiana, uma
imigrante. Nasceu em Veneza, no ano de 1887 e chegou ao Brasil ainda criança,
depois de uma longa e sofrida viagem de navio, junto com sua mãe e sua irmã
ainda bebê. Seu pai infelizmente morreu no navio, só não foi jogado ao mar
porque já estavam aportados em Santos, esperando o desembarque. Foi sepultado
em Santos.
A
família que saiu de seu país, para fugir da pobreza, ficou ainda mais pobre,
sem o chefe da família. A mãe e suas filhas foram trabalhar nas fazendas de
café do interior de São Paulo, região de Piracicaba. Logo, a maior que tinha,
então, 7 ou 8 anos, foi separada da mãe e da irmã; foi trabalhar em outra
fazenda, cuidar das crianças dos patrões, de quem até apanhava por não entender
o que eles falavam. Assim ela me contava, quando eu era criança. Casou-se muito
jovem com imigrante italiano também.
Veio
residir em Itapevi, em 1936, quando então Itapevi pertencia ao Município de
Cotia.
Não
sei onde nem como, nem com quem, tornou-se parteira e foi, juntamente com a
senhora Lucia Soldé, as primeiras parteiras de Itapevi, onde auxiliava os
partos das mulheres pobres, cuidando também das crianças.
Como
já perceberam, essa mulher teve e tem uma importância muito grande na minha vida,
principalmente porque carrego o seu nome. Ela é a minha avó, com quem cresci,
recebendo carinho, atenção, amor, aprendendo a ver as pessoas sempre com bons
olhos, ajudando sempre a todos que a procuravam.
Na
minha infância, lembro-me dela lavando roupa para fora, como se dizia na época.
Saía de Itapevi, de trem, ia até São Paulo buscar as roupas sujas de seus
clientes, lavava, passava, consertava, pregando botões, costurando, arrumava
novamente as sacolas com cuidado e levava de volta; eu muitas vezes a
acompanhava.
Todos
em Itapevi conheciam a dona Clara, que benzia crianças, de quebranto e outros
males que tinham. Quando choravam muito, quando vomitavam, quando não dormiam.
Ela gostava de benzer as crianças antes do meio-dia, mas nunca se recusava quando
alguém chegava com uma criança no colo no meio da tarde, pedindo para ela benzer;
além de benzer ela dava as ervas com que as mães deveriam fazer os chás que as
crianças precisavam, ervas que ela tinha todas num lindo e perfumado canteiro.
Também
benzia os maus jeitos, as torções, as dores nas costas, ensinava as pessoas a
fazerem um emplasto para continuar o tratamento. Muitos senhores hoje, que foram
moleques, que jogaram bola no campo da antiga Rua D. Pedro, muitas vezes foram
tratar seus pés com a dona Clara, que morava em frente ao campinho, na Rua Ana
Araújo de Castro, no 26.
Escrever,
agora, me encheu os olhos de lágrimas; como sinto saudades dela, ainda ouço sua
voz, ainda sinto o gosto de sua comida, sua sopa minestrone, sua polenta, da
fatia de goiabada depois da janta.
Como
me lembro dela amassando o feijão num pano para fazer a sopa – não tinha
liquidificador – abria a lata de doce com uma faca – também não tinha abridor
de latas – aliás, ela teve dificuldade para usá-lo, mas aprendeu. Lembro-me
dela costurando em sua máquina de mão, da qual ela tinha muito ciúme e um
cuidado enorme. Aliás, hoje ela é um tesouro na minha sala; tem quase duzentos
anos e ainda funciona.
A
casa dela era nosso lugar encantado. Tinha a horta, os pés de café, de cana, o
galinheiro que meu tio Carlos fez de tijolos, com designer lindo, todo vazado,
que era enorme, até que cresci e percebi que ele era bem pequeno.
Toda
tarde, antes das seis horas, ela fechava todas as janelas e portas, ouvíamos no
rádio a Ave Maria, e quando acabava bebíamos a água. Meu Deus quanta fé, quanta
religiosidade! Não
faltava às missas aos domingos, gostava de conversar com o Padre Romeo, com
freiras, com as italianas como dona Emília e dona Guiné. Afinal, todos se
conheciam.
Deus
foi bondoso comigo, pois levou minha querida avó em 1980, quando eu já estava
casada. Ela deixou uma grande família, seis filhos, hoje todos falecidos, 32 netos,
82 bisnetos e 22 tataranetos.
Sua
vida foi sempre de muito trabalho, muita luta e sofrimento, mas ela nunca
fraquejou.
Minha
avó deixou, além de uma grande família, grandes ensinamentos, como ser humilde,
ser prestativa, amar seu próximo, ter fé acima de tudo.
Vou
encerrar minha volta ao passado com duas frases do Dr. Leandro Telles, autor do
livro "Antes Que Eu Me Esqueça".
"A
memória é a cola do tempo."
"Nossas
recordações são o nosso principal patrimônio. Feliz daquele que passou a vida
se abastecendo de boas lembranças, pois esse processo custa caro."
Maria Clara Piazza Bergamini – Nascida em Itapevi, em 3/8/1953, na antiga Rua
D. Pedro. Filha de Lino Piazza e Eva Vaz Piazza. Seu pai foi vereador por três
legislaturas. Casou-se em 1974, com José Milton Bergamini. Morou também no
Jardim Portela. Mudou-se para São Paulo, em 1986 e hoje reside em Londrina, Paraná.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br
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