terça-feira, 12 de março de 2019



SAUDADES DO MEU TEMPO DE CRIANÇA
Maria Martha Vaz Matos

Hoje, dia 13/12/2016, fui desafiada a escrever algumas páginas para o livro pedras preciosas, ao ler uma mensagem que dizia: “Selma, ela está selecionando algumas de suas muitas preciosidades e fazendo suspense”. Aí me despertou.
O que poderia escrever? Histórias, versos, poesias? Nunca gostei de escrever, fazer narração; sempre fui muito mal na escola, e aí vem alguém esperando que eu escreva algo! Tenho muitas lembranças boas, maravilhosas e tristes também, com muitas perdas, mas agradeço a Deus pelos anos que tenho e por ser desse tempo, das pedras preciosas.
No Portela, havia poucas casas, entre elas a minha, da dona Eliza e Sr. Agostinho, que foram meus segundo pais, pois minha mãe trabalhava. Desde o tempo de fraldas, eles cuidaram de mim; depois, no fim da vida deles, eu retribuí seus cuidados.
Minha mãe trabalhava em São Paulo, era lavadeira e sempre tinha alguém para ajudá-la a cuidar de mim. A Geni, mãe da Marlene e da Neide, tinha quatro filhos, mas sempre me recebia como filha também. Tia Nica, a qual amo muito. Tia Iria, que era minha Madrinha, e assim por diante.
Meu pai e minha mãe tinham só eu de filha e o Rubens Vaz, que era quatorze anos mais velho do que eu. Tinham também um cachorrinho, um cavalo chamado Negão, e uma charrete. Meu pai fazia carreto para transportar as compras que vinham da Sorocabana, e muitas vezes eu, mirradinha, perninha seca e cabelos cacheados, ia junto entregar.
Naquele tempo, não tinha luz. A água era de poço, banheiro no fundo do quintal, casa pequena e baixa. Meu pai, muito bonito, pele lisa (meu herói), muito alto, quase encostava a careca dele no forro da casa.
Como minha mãe trabalhava em São Paulo, meu pai me levava pra escola. Enchia a charrete de crianças; até a professora ia junto. Era muito divertido! A estrada era de terra e, quando chovia, as rodas da charrete se atolavam.
À noite, brincávamos na rua. As meninas e meninos se reuniam e se animavam com a noite de luar, pois não tinha luz elétrica, e olhávamos para o céu, procurando Deus por traz das nuvens. Saudade eterna! Quando estava frio, passávamos frio; saia curta e os meninos de calças curtas e pezinhos no chão. Aliás, tinha um desses meninos que me mandava cartinhas com desenhos de coraçõezinhos pintadinhos de vermelho e eu ficava toda feliz.  Tem muitos amigos e amigas de quem não me lembro mais do nome.
Cirilo, Vander, Irineu, Irene e Valter, éramos que nem irmãos. Íamos juntos para circos e parques, na companhia da dona Maria Bueno. Vínhamos tarde por aquela estrada escura; a gente vinha a pé, cantando sempre.
Na minha casa tinha uma laranjeira que se enchia de sabiás fazendo festa, pulando e cantando. Eu queria imitar bem-te-vi; enfim, criança feliz.
Como já disse, eu ficava sempre na casa do Leque e Geni. Ele chegava do serviço e eu estava lá. As crianças corriam tirar os sapatos dele. Seria impossível eu escrever algo e deixar de fora essa parte da minha vida. E ele logo pegava a sanfona e tocava até as tantas e nós, juntamente com o Odair Vaz, meu primo, cantávamos e dançávamos. Momentos inesquecíveis com meus primos! Íamos para bailinhos e o Leque sempre tomando conta de nós.
O Leque trabalhava com um caminhão. Fazia diversos tipos de transportes, inclusive enterros e romarias. Nos enterros, o caixão era colocado no meio da carroceria e o povo se posicionava à sua volta.
Quando minha prima Nair se casou, foi, naquela noite, para Aparecida do Norte e nós todos fomos juntos; toda a família. Foram colocados lona e bancos no caminhão. A viagem foi tão cansativa. Eu era pequena, mas me lembro até hoje; viajamos a noite inteira para ir e o dia inteiro pra voltar. Foi uma aventura!
Deus nos protegia de todo o jeito. Eu ia pra escola e muitas vezes atravessava a linha do trem (quantas pessoas morreram naquela estação!). Eu passava, com algumas amiguinhas, por debaixo do trem cargueiro, depois de olhar se não tinha máquinas e, assim, a gente cortava caminho.
A caminho da escola, passava por um trilho de trem que sempre tinha muito mato, que cheirava gostoso. Havia também pés de goiaba, amora do mato, maria pretinha e comidinha de grilo – uns grãozinhos cor-de-rosa e bem gostosos. Eu e meu primo Odair sempre procurando o que tinha para comer.
Eu usava Alpargatas com solado de corda que, com o tempo, estragava. Daí, pegava uma tesoura velha e cortava. Parecia barba de bode!
Lembro-me que da minha casa se escutava, às 6 horas, o cantar da Ave Maria. Eu frequentava a igreja de São Judas Tadeu, onde fazia parte da cruzada. Usava vestido branco, faixa amarela e ia para missas, procissões e quermesses.
Tudo isso serviu para minha educação, sempre respeitando meus pais e amigos. E serviu para respeitar minha família e meu esposo Nelson, em nossos 45 anos de casados.
Agradecimento
Quero agradecer a Deus por essa União; aos meus filhos Andrea, Eliana, Evandro e Eliza; aos meus genros e nora e aos meus Netos, por quem tenho a maior afeição.
Fico feliz, Ayrton Corrêa, fomos criados juntos e nunca pensei que pudéssemos estar escrevendo uma parte da minha vida.
Tem uma música que gosto de cantar:
“Cada um de nós tem uma história pra contar e de repente aqui estamos nós, cada um por um caminho veio, e hoje estamos todos juntos, guiados por Deus.”

Maria Martha Vaz Matos – Tem 65 anos, foi moradora e nasceu em Itapevi, Jardim Portela, Rua São Roque nº 12 – rua principal vindo da estação de trem. Filha de José Vaz e Maria Vaz, tratada como Maria Portuguesa.

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