SAUDADES DO MEU TEMPO DE
CRIANÇA
Maria Martha Vaz Matos
Hoje, dia 13/12/2016, fui
desafiada a escrever algumas páginas para o livro pedras preciosas, ao ler uma
mensagem que dizia: “Selma, ela está selecionando algumas de suas muitas
preciosidades e fazendo suspense”. Aí me despertou.
O que poderia escrever? Histórias, versos, poesias? Nunca gostei de
escrever, fazer narração; sempre fui muito mal na escola, e aí vem alguém
esperando que eu escreva algo! Tenho muitas lembranças boas, maravilhosas e
tristes também, com muitas perdas, mas agradeço a Deus pelos anos que tenho e
por ser desse tempo, das pedras preciosas.
No Portela, havia poucas casas, entre elas a minha, da dona Eliza e Sr.
Agostinho, que foram meus segundo pais, pois minha mãe trabalhava. Desde o
tempo de fraldas, eles cuidaram de mim; depois, no fim da vida deles, eu retribuí
seus cuidados.
Minha mãe trabalhava em São Paulo, era lavadeira e sempre tinha alguém
para ajudá-la a cuidar de mim. A Geni, mãe da Marlene e da Neide, tinha quatro
filhos, mas sempre me recebia como filha também. Tia Nica, a qual amo muito.
Tia Iria, que era minha Madrinha, e assim por diante.
Meu pai e minha mãe tinham só eu de filha e o Rubens Vaz, que era
quatorze anos mais velho do que eu. Tinham também um cachorrinho, um cavalo
chamado Negão, e uma charrete. Meu pai fazia carreto para transportar as compras que
vinham da Sorocabana, e muitas vezes eu, mirradinha, perninha seca e cabelos
cacheados, ia junto entregar.
Naquele tempo, não tinha luz. A água era de poço, banheiro no fundo do
quintal, casa pequena e baixa. Meu pai, muito bonito, pele lisa (meu herói),
muito alto, quase encostava a careca dele no forro da casa.
Como minha mãe trabalhava em São Paulo, meu pai me levava pra escola.
Enchia a charrete de crianças; até a professora ia junto. Era muito divertido!
A estrada era de terra e, quando chovia, as rodas da charrete se atolavam.
À noite, brincávamos na rua. As meninas e meninos se reuniam e se
animavam com a noite de luar, pois não tinha luz elétrica, e olhávamos para o
céu, procurando Deus por traz das nuvens. Saudade eterna! Quando estava frio,
passávamos frio; saia curta e os meninos de calças curtas e pezinhos no chão.
Aliás, tinha um desses meninos que me mandava cartinhas com desenhos de
coraçõezinhos pintadinhos de vermelho e eu ficava toda feliz. Tem muitos amigos e amigas de quem não me
lembro mais do nome.
Cirilo, Vander, Irineu, Irene e Valter, éramos que nem irmãos. Íamos
juntos para circos e parques, na companhia da dona Maria Bueno. Vínhamos tarde
por aquela estrada escura; a gente vinha a pé, cantando sempre.
Na minha casa tinha uma laranjeira que se enchia de sabiás fazendo
festa, pulando e cantando. Eu queria imitar bem-te-vi; enfim, criança feliz.
Como já disse, eu ficava sempre na casa do Leque e Geni. Ele chegava do
serviço e eu estava lá. As crianças corriam tirar os sapatos dele. Seria
impossível eu escrever algo e deixar de fora essa parte da minha vida. E ele
logo pegava a sanfona e tocava até as tantas e nós, juntamente com o Odair Vaz,
meu primo, cantávamos e dançávamos. Momentos inesquecíveis com meus primos!
Íamos para bailinhos e o Leque sempre tomando conta de nós.
O Leque trabalhava com um caminhão. Fazia diversos tipos de transportes,
inclusive enterros e romarias. Nos enterros, o caixão era colocado no meio da
carroceria e o povo se posicionava à sua volta.
Quando minha prima Nair se casou, foi, naquela noite, para Aparecida do
Norte e nós todos fomos juntos; toda a família. Foram colocados lona e bancos
no caminhão. A viagem foi tão cansativa. Eu era pequena, mas me lembro até
hoje; viajamos a noite inteira para ir e o dia inteiro pra voltar. Foi uma
aventura!
Deus nos protegia de todo o jeito. Eu ia pra escola e muitas vezes
atravessava a linha do trem (quantas pessoas morreram naquela estação!). Eu
passava, com algumas amiguinhas, por debaixo do trem cargueiro, depois de olhar
se não tinha máquinas e, assim, a gente cortava caminho.
A caminho da escola, passava por um trilho de trem que sempre tinha
muito mato, que cheirava gostoso. Havia também pés de goiaba, amora do mato,
maria pretinha e comidinha de grilo – uns grãozinhos cor-de-rosa e bem
gostosos. Eu e meu primo Odair sempre procurando o que tinha para comer.
Eu usava Alpargatas com solado de corda que, com o tempo, estragava.
Daí, pegava uma tesoura velha e cortava. Parecia barba de bode!
Lembro-me que da minha casa se escutava, às 6 horas, o cantar da Ave
Maria. Eu
frequentava a igreja de São Judas Tadeu, onde fazia parte da cruzada. Usava
vestido branco, faixa amarela e ia para missas, procissões e quermesses.
Tudo isso serviu para minha educação, sempre respeitando meus pais e
amigos. E serviu para respeitar minha família e meu esposo Nelson, em nossos 45
anos de casados.
Agradecimento
Quero agradecer a Deus por essa União; aos meus filhos Andrea, Eliana,
Evandro e Eliza; aos meus genros e nora e aos meus Netos, por quem tenho a
maior afeição.
Fico feliz, Ayrton Corrêa, fomos criados juntos e nunca pensei que
pudéssemos estar escrevendo uma parte da minha vida.
Tem uma música que gosto de cantar:
“Cada um de nós tem uma história pra contar e de repente aqui estamos
nós, cada um por um caminho veio, e hoje estamos todos juntos, guiados por
Deus.”
Maria Martha Vaz Matos – Tem 65 anos, foi moradora e nasceu em
Itapevi, Jardim Portela, Rua São Roque nº 12 – rua principal vindo da estação
de trem. Filha de José Vaz e Maria Vaz, tratada como Maria Portuguesa.
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