BIMBA DA SÔNIA
Urubatan Rosa do Prado (Bimba)
Cheguei a Itapevi com dois anos de idade, vindo
de Presidente Bernardes, São Paulo. Vim acompanhado de meu padrasto e de minha
irmã. Fomos
morar onde hoje é o banco Santander e que, na época, era a casa do seu Antonio,
dentista.
Algum
tempo depois, fomos morar no sítio do Roberto, na pedreira, lá pelos lados da
Quatro Encruzilhadas, de onde nos mudamos para o bairro do Jardim Portela.
Nessa época eu devia ter mais ou menos 6 ou 7 anos de idade. O Portela era um
lugar muito legal, aliás, acho até que era o melhor lugar da cidade para se
morar.
Da
infância, guardo algumas recordações no mínimo interessantes.
Quando
minha mãe e meu pai trabalhavam, em determinada ocasião foi morar lá em casa um
casal para tomar conta da gente. Lembro-me de que a mulher fazia uma comida tão
salgada que dava desespero! Cortava a língua de tanto sal! Parecia comida de
cavalo! Mas, como minha mãe trabalhava fora, eu não podia reclamar. Fazer o
quê?...
Lembro-me
de ir lenhar no mato, para abastecer o fogão a lenha lá de casa; de puxar água
do poço, com ajuda do sarilho, ainda que já tivéssemos luz elétrica; da vitrola
valvulada que minha tia comprou e da televisão em preto e branco que ela
adquiriu quando começou a trabalhar na Leonam, fábrica de máquina de
costura.
Mais
uma vez nos mudamos, ainda no bairro, no sobrado onde minha irmã mora hoje.
Fomos ser vizinhos da dona Sílvia, cujo marido teve um dedo estourado acidentalmente
com as bombas que ele próprio fazia. Um dos filhos do casal fazia chaves,
consertava e inventava coisas. Norberto... Zé Norberto... esse era o nome dele!
Mais
uma mudança. Dessa vez, para fora do bairro. Fomos morar no Jardim Silveira. Na
ocasião, eu devia ter mais ou menos 11 anos e, por volta dos meus 12 anos de
idade, retornamos para o sobrado do Portela.
Diversão,
naquela época, não faltava. Desde brincadeiras de rua, mergulhos em rios e
lagoas, jogo de malha e futebol lá no campinho atrás da chácara do japonês,
onde chegávamos às oito da manhã, formávamos muitos times e saíamos já no fim
da tarde.
Paradas,
apenas para tomar água da mina que ficava ao lado do campo. Esse campinho era
“de caída”. Quando atacávamos para baixo, era uma beleza, mas quando virava,
era um terror!
Nadar
no rio e nas lagoas era outra de nossas diversões. Lembro-me de que o Chico das
Éguas chegava ao rio quando a gente estava saindo; pegava a gente e jogava
dentro do rio novamente. A gente chorava pra caramba! Ele era meio louco!!!
Jogava barro na gente, judiava. Ele, na verdade, não judiava pra bater. É que
ele era grandão e mais velho,
então a gente que sofria. Lembro-me do irmão dele, o Osvaldinho.
E
aí chega a época dos bailinhos. Frequentava os do bar da escadaria, onde, no
fundo morava o Siriri, filho da dona Joana, sogra do Tino e do Alivete. Às
vezes, eu fazia bailes em minha casa. Era uma festa boa! Chacoalhava o soalho!
Havia também os bailes no porão da casa do Luizinho. As músicas da época eram
do repertório dos Vips e do Renato e seus Blue Caps, por exemplo.
A
gente ia à Comunidade de Jovens Cristãos (CJC), onde, aliás, só tinha playboys!
Reinaldo dentista, Luiz Alberto, Paulinho, todos eles de moto e nós,
pés-rapados... A caminho de bailes em São Paulo – que eu já estava acostumado a
frequentar – dava uma passada pela CJC e, quando a gente chegava, os “boiysinhos”
falavam: – Põe logo a música desses caras pra eles irem embora logo! Eles eram
a elite e hoje são todos meus amigos.
Às
vezes, esses bailinhos davam alguma confusão ou criava situações interessantes.
Uma
vez, em um bailinho na casa do Décio, irmão do Dirceu, o Carlinhos, filho do
Sargentão, foi tirar a Ângela para dançar e ela não quis. Logo em seguida, ela
veio me chamar para dançar. Aí a confusão; o Carlinhos ficou brabo e falou um
monte pra ela!
O
Luizinho era o mais bem de vida – tinha um carro Corcel laranja – e costumava
achar que, quando alguma menina olhava para um grupo onde ele estivesse, estava
olhando pra ele, e dizia – Tá vendo, ela tá olhando pra mim!
Uma
vez estávamos no Silveira e, quando uma garota olhou, ele já disse: – Tá
olhando pra mim! E eu disse. – Vá lá, eu tenho que ir embora. Aí ele foi,
voltou e me disse: Vamos embora! Não estava olhando pra mim.
Eu
era meio enjoado para me vestir. Eu mandava fazer de sapatos a camisa. Os
sapatos eu mandava fazer na Criações Europa, na Rua dos Andradas. As roupas eu
comprava na Peter, que era uma loja chique no centro da cidade. Na época, eu e
o Siriri trabalhávamos no prédio do Palácio Mauá, no Viaduto Dona Paulina.
Minhas
calças eram feitas pela dona Guiomar, ainda que tivéssemos também a opção de
fazê-las em alfaiates. Hoje está difícil! Eu tinha um amigo, chamado Carioca,
que era pintor de casas e, na época, fazia calças muito bem.
Meu
gosto era bem variado. Eu tive calças nas cores vermelha, verde, vinho, xadrez
e até listrada, com um lilás
no meio. E as pessoas me enchiam o saco, quando eu a usava!
Eu
não costumava frequentar a casa de amigos ou bares. Nunca aprendi a jogar
sinuca ou futebol. Às vezes, ia até a casa da Nice, filha da dona Lola, que era
minha vizinha. Quando eu chegava de São Paulo, vinha com o Té, o Ayrton e o
Carlinhos. A gente parava um pouco no bar da escadaria, batia um papinho e ia
embora pra casa.
Aí
as pessoas começaram a tomar seu rumo e cada um foi pro seu lado. Um belo dia
eu estava sentado na escada de casa e a Sônia passou. Em outra oportunidade, eu
a encontrei no salão do Grêmio e fui falar com ela.
Dançamos
e... pronto. E no dia em que fui convidado a escolher entre ficar em casa ou
ficar com a Sônia... eu escolhi a Sônia.
Urubatan Rosa do Prado
– Nascido em São Paulo, bairro Santana, em 6 de maio de 1955, casado com Sonia
Aparecida Silva do Prado. Filhos, Janaina Silva do Prado e Alexandre Eduardo
Ribeiro da Silva. Aposentado pela JB Assessoria – Empresa de Comércio Exterior.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br.
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