quarta-feira, 6 de março de 2019


UM GRANDE PERIGO


V
i em uma revista ou jornal da região, já não me recordo, uma foto antiga de Itapevi, onde a ponte que ligava a praça à estação aparece em destaque.
Trouxe-me à lembrança o tempo em que, para se chegar à praça central, as pessoas que moravam do outro lado da linha tinham que cruzá-la.
Era uma ponte bonita. Grande. De madeira. Enfeitava a entrada da cidade com suas “guardas” altas descendo como escorregadores em suas extremidades. De um lado a praça com sua banca de jornal. Eu acho que era a única. O bar do Jupira, a padaria do Mazito, o açougue do seu Pedro, a farmácia do seu Mário, o bar do Constatino...   Do outro, a estação ferroviária, o mangueirão para o gado que vinha em gaiolas, a delegacia de polícia e, mais distante, o frigorífico.
Nos horários de pico, de manhã e à tarde, o trânsito de pessoas na ponte era intenso. Era tanta gente andando de um para outro lado que dava gosto ficar apreciando o movimento.
Nós, do lado de cá, atravessávamos todos os dias essa ponte. O grupo escolar onde frequentávamos o curso primário e a igreja em que estudávamos o catecismo ficavam na cidade.
Aliás, tudo ficava na cidade. Pouca coisa havia do lado de cá.
Poderia ser, sem dúvida alguma, um itinerário agradável. Digo poderia porque, para nosso terror, moleques em idade escolar, havia em uma das cabeceiras dessa ponte, do lado da cidade, um grupo de engraxates.
Assim contado, depois de tantos anos, fica difícil acreditar que uma turma de moleques pudesse causar tantos aborrecimentos. Simplesmente não iam com nossa cara. Aliás, eu acho que não iam com a cara de ninguém.
Bastava que alguém olhasse para o lado deles e a confusão estava formada. Quantas vezes tivemos que correr. Algumas, completando a travessia, outras, voltando do meio do caminho. Não me lembro de seus nomes e nem de suas fisionomias. Agora não faz diferença, mas na época era muito importante reconhecê-los à distância. Não era muito bom cruzar o caminho deles.
Por outro lado, devo admitir que eles eram exemplos a serem seguidos.  Trabalhadores. Certamente ajudavam em casa com o pouco que ganhavam honestamente, engraxando sapatos. Tinham cara de bravos e pose de valentes.  Adoravam nos assustar. Na realidade, apenas faziam tipo. 

Hoje, diante de tantos medos, acho graça do “grande perigo” que aqueles moleques representavam. Tudo bem que nunca parei para saber se eles eram mesmo perigosos. Mas, pensando bem, nunca soube que tivessem feito mal sequer a uma mosca.
Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - Editora clubedeautores.com.br - 2018

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...