PEDRAS PRECIOSAS
Márcio da Ponte Branquinho
Éh
papo d Homem, Baby!
- Eu sou muito bem enraizado, o que me
impulsiona crescer – dizia em tom assertivo, com a educação e nobreza que lhe
são peculiares. E com a firmeza de quem denota propriedade naquilo que diz.
Em outras palavras:
- O fato de valorizar o passado, lembrar
histórias e contar causos não me deixam estagnado no tempo e no espaço, aliás,
pelo contrário! Penso até que tenho uma boa visão de futuro.
Caraca!!! Isso éh a minha mal elaborada
dicotomia Memória e Identidade.
- Ô, Professor! Agora não tem pra ninguém. Nós
vamos atropelar! O Cara manja, acertou o time. E outra, o Fenômeno vai deitar e
rolar! Joga com o nome. Jogamos com a camisa! – interrompe a prosa em mesura e
já deixa a sua marca. – O senhor, como vai? Tudo bem? A família? E aí, João,
truco?
- Seis, Ladrão!
Ah! Esse moleque! Éh um dichote!
- Esse moleque é danado! Quer ver só: Ô, João,
o que eu sou?
- Claudio Puta!
E dá-lhe risos do novo integrante da manada.
Macho éh macho mesmo! E papo d Homem éh
futebol, guaraná e só alegria. Aê não se faz mistéryo.
- Me deem licença, vou ali na padaria. A
patroa acordou e pediu pão.
Saiu estiloso, num desfile. Um bailado. Chapéu
de presença, óculos escuros, barba ajeitada e o gingado peculiar.
O Bar da Escadaria foi parada obrigatória. De
lá, um grita:
- Amanhã tem jogo do Portela! Taça Brahma! Vai
lotar...
- Éh nóiz!
E surgem assim o Todo Poderoso, A Fúria.
-Sabia que originalmente, lá em 1974, o time
levava a cor amarela? Como ficou verde? É o que eu te dizia: não sou contra mudanças,
mas há que se preservar a tradição.
Homem éh assim mesmo! Com essa lua, uma Taça
dessa vai bem.
Então, Homem moderno éh assim mesmo. Enquanto
a digníssima cuida d casa, ele ajuda c as crionças:
Saímos pela rua à cima. O velho conduz o novo
e a experiência carrega pela mão a inocência pueril:
- Hey, John! O que táh escrito ali? – aponto
para a placa com o nome d rua, na parede d antiga casa d esquina.
- J O
S É L U I Z
B R A G A F I L
H O. – fala com a alegria d quem táh a dominar as letras, alfabetizado, e para
a minha alegria, o Alpha.
- Parabéns! Você já éh um Homenzinho!
- Mas, pai, quem é José Luiz Braga Filho?
- ...
Pô! Isso não tava combinado! Como assim? O
menino truca mesmo! Tem q perquirir?
- Éh! Éh! Oi, Zoca!
- Oi, filho!
- E aê, Zé Luiz?
- Tudo bom garoto!?
Pai éh pai mesmo!
- Vamos ali perguntar p a Luci, olha ela ali
na sacada.
- José Luiz Braga Filho foi pai do Walter
Braga Filho e avô do Wagner, amigo da sua mãe, da turminha. – direciona o
ensinamento para o curioso em questão.
- Ah! Sei! – digo expressando vergonhoso
espanto.
- Aqui no bairro as ruas homenageiam antigos
moradores. A rua debaixo é Benedito Corrêa, seu avô. Lá na ponta, Rafael
Barranco, meu pai. E muitas outras são assim.
Que legal! E continuamos a exploração das
redondezas, pisando em chão antigo. Marcando território.
Muito bonito éh pai que éh exemplo p o filho.
Outrora:
- Nós vamos passear. D trem! Vamos ao Museu da
Língua Portuguesa. Fica na Estação da Luz! Mas cês éh quem terão q ler o mapa e
indicar o nosso caminho.
E bora lá! Família dominguiana reunida e o
macho mostrando como éh que se faz.
- Saímos daqui, João. Então vamos até a Barra
Funda, está vendo? – aparece Gabi, já maior.
- E depois?
- Vamos não d Metrô, mas d trem velho.
Chegaremos à Luz pela linha antiga e descobriremos as belezas d construção.
Mas antiguidade dialoga com modernidade e, uma
das atrações d Museu, apronta dessas: idealizada por um sujeito (um tal d
Marcelo Taz, um tipo, um figura q embora experiente se aspecta sempre garotão),
uma mesa tem sobre si projetadas raízes etimológicas. Saem palavras d cima para
baixo, numa dança moderna e contemporânea, cibernética.
- Tele + Visão?... Televisão. Visão a
distância.
A interação consiste em selecionar os morfemas
e com os braços e mãos carrega-los até a fecundação. Daí chega-se ao
significado.
- CLITÓRIS.
Todos q em volta d mesa brincavam, empurrando
com as mão as palavras em projeção, ficam estáticos! Afinal, algumas tradições
devem ser mantidas!
- CLITÓRIS = PEDRA PRECIOSA
Ufa! Alívio geral! Homem éh Homem... mesmo...
Pois éh!
Muitas outras vezes navegamos pelas Itas que o
Mestre das Artes Susumo Harada ensina e fascina.
E se a cabeça pensa o que os pés pisam, o coração
ama a terra em que se vive.
Bom. Não conheci Benedito Corrêa, nem seu
irmão Pedro Virgílio. Nem Rafael Barranco, nem José Luiz Braga Filho. Nem...
Mas conheci a dona Raquel, a tia Glória, a
dona Conceição. E a Doninha, a Guiomar...
Pedras tão preciosas!
E com preciosidade Leandra vai guiando
Gabriela e João Pedro como se o presente imitasse o passado.
E que brilhe o futuro.
Nota
da organização: Texto
sem revisão/correções, por preferência de seu autor.
"Sou Márcio da
Ponte Branquinho. Nasci no Gol Do Pé-de-anjo Basílio sob o signo de São
Jorge, guerreiro. Sou a cara do meu pai tão distante das Terras de Além Mar,
cuspido e escarrado. Sou meus filhos, esculpidos em carrara. Sou dali, de
Jandira, do ventrebraços de minha mãe. Sou dAqui, do Portela, onde cresci. Sou
de cá e de lá! De Fá... E Sol e mi... Alpha, Beta e Gama. Professor, aprendi
gente!"
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br.

Nenhum comentário:
Postar um comentário