segunda-feira, 4 de março de 2019



ITAPEVI – DOCES RECORDAÇÕES
José Carlos Real (Carlinhos)

Cheguei a Itapevi vindo da Vila Jaguara, São Paulo, e encontrei uma cidade pequena, bem pequena, onde as ruas ainda eram de terra e as pontes de madeira. Tinha 7 anos e, para mim, tudo era novidade. Uma das coisas que me lembro era de andar de trem; só não gostava dos atrasos que eram constantes.
Um fato interessante de que me lembro, e que chamou minha atenção, era que, além da delegacia, com seus poucos policiais e uma porta de entrada estilo porta de “saloon” de faroeste, existiam algumas pessoas que considerávamos como inspetores de quarteirão, aquelas que não eram policiais, mas tomavam conta para manter a ordem. O Mazito, Constantino, Joaquim Mendes, Caramez, todos eram vistos como aqueles que resolviam problemas que por ventura aparecessem. Eram autoridades também, embora não oficial.
Como eu adorava o Vale do Sol! Fim de semana era pra lá que eu ia desfrutar da piscina! Era muito legal! Existia também o Clube de Campo, mas esse só era frequentado pelo pessoal de um poder aquisitivo mais elevado.
Aos domingos, matiné no Cine São Manoel, cinema do Pereira! Trocar gibis, ficar atento ao seriado do Zorro, filme Dólar Furado, etc.
Outro local que era frequentado muito pelos rapazes adolescentes era a Chácara das Flores, na estrada que ia para Cotia. Ali era perfeito para ir com a namorada. Os bailinhos semanais também são dignos de nota. Aconteciam nas casas dos amigos. Não precisávamos de um salão. Simples demais!
Nosso divertimento maior era a natação. Nadar no rio e nas lagoas era o máximo! Andar de bicicleta, só quando pegava escondido de meu irmão. Não era muito fácil comprar uma bicicleta.
Ver o desembarque da boiada de cima do morro do mangueirão também era um bom divertimento, principalmente quando algum boi escapava e subia na estação.
Jogar bola, mais uma diversão e tanto. Jogávamos no “campinho” que dava nos fundos da chácara do japonês. Ali, tínhamos uma mina de água que ficava ao lado do campinho, um pouco acima, onde se matava a sede, utilizando uma folha da planta chapéu de couro para fazer uma espécie de copo. Quando não se usava a folha, deitávamos de bruços no chão para beber, sem utilizar as mãos, tomando todo o cuidado para não fazer movimentos e sujar a água.
Às vezes, quando a bola ultrapassava a trave por causa de um chute mal dado, caía na chácara do japonês. Aí, então, se aproveitava o ensejo para pegar algumas cenouras e/ou pimentões para matar a fome, visto que parar de jogar para ir até em casa comer um lanche, nem pensar. A cenoura e o pimentão quebravam o galho.
Outro divertimento era o carrinho de rolimã. A gente se ralava todo. Era dificultoso conseguir os rolimãs! A bola de capotão era costurada inúmeras vezes pelo único sapateiro da cidade, seu Zé Sapateiro.
Também não dá pra deixar de falar da Escola. Estudei no Grupo Escolar Marechal Cândido Rondon. Vinha do Portela através do famoso cabo de aço, muitas das vezes com o pé no chão ou de chinelo e não havia problema nenhum. Íamos e vínhamos sozinhos, sem necessidade de que alguém nos levasse. O único perigo era morrer afogado no rio.
Por várias vezes cabulava aula, para ir até a pedreira, ver o estouro das bombas; era perigoso e tínhamos que ficar escondidos para não sermos atingidos com pedaços de pedra na cabeça. Outro motivo era para nadar no riozinho de águas claras que dava até pra beber. Quando as faltas chamavam a atenção, a professora enviava, através de um colega de classe, um bilhete para ser entregue aos pais do aluno faltoso, que deveria voltar assinado por estes. Para que não fôssemos castigados por nossos pais, intimidávamos o colega, fazendo com que ele assinasse o bilhete, como se fosse nosso pai, e o devolvíamos à professora.
No dia a dia, em casa, havia algumas dificuldades na cozinha, por exemplo.
Como não tínhamos fogão a gás, a alternativa era fogão a lenha, o que ocasionava a necessidade de se conseguir esse combustível para o fogão. Nosso local de lenhar era atrás do frigorifico, onde, de vez em quando, alguns bois se desgarravam da boiada e nos forçavam a subir em barrancos rapidamente para evitá-los.
À noite, como não havia luz elétrica, usava-se lamparina abastecida com querosene. Uma lata de leite em pó, furada a tampa e a película de alumínio por onde se inseria um pavio feito de pano, transformava-se em uma eficiente lamparina. O inconveniente era que de manhã cedo estávamos um pouco sujos por causa da fumaça, mas tudo bem. Funcionava, e era o que importava.
Para a higiene pessoal, era só um banho que acontecia à noite! Banho de bacia! Posteriormente um chuveiro feito de balde, com um mecanismo para controlar a saída d’água. Algumas vezes, a água era esquentada para “matar a frieza”. Durante o dia, os banhos se sucediam nos rios e lagoas. Às vezes a mãe perguntava: – Foi nadar? – Eu não mãe! Aí ela passava a unha sobre nosso braço e aparecia uma marca esbranquiçada, demonstrando que aquele braço esteve muito tempo sob a água.
De madrugada levantava para ir trabalhar, bater tijolos na olaria do Joaquim Mendes e também na olaria do Cassemiro, que inclusive era compadre de meu avô. Morávamos na casa reservada aos funcionários da olaria.
Trabalhei também na cerâmica que se situava onde hoje é o CEMIP. Depois, no Frigorífico Itapevi, onde a maioria de meus amigos também trabalhava.
E a relação com as famílias dos amigos? Entrava pela porta da casa do amigo, que estava sempre aberta, a qualquer hora. A mãe dele nos recebia com todo o carinho, nos oferecia lanche, almoço. Nos quintais, havia uma abertura na cerca de arame farpado, pra que pudéssemos atravessar de um lado a outro, cortando o caminho. A única preocupação era se houvesse um cachorro brabo. 
E, durante as festas juninas, com muita comida típica, víamos nossos pais se confraternizando com todos os vizinhos. Era como se fossemos uma família só!
Que bom que vivi tudo isso!

José Carlos Real (Carlinhos) Sessenta e dois anos - Trabalhou no Frigorífico Itapevi S/A - Aposentado pelo Frigorífico JBS. Veio para a cidade com 6 anos. Morou no Bairro Jardim Portela.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br.

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