MEMÓRIAS DE ITAPEVI
Ana Rosa Corrêa
Falar
de momentos vividos na cidade de Itapevi, no meu caso especificamente é um
parto a fórceps, devido a minha memória RAM e não HD, como seria o ideal.
Brincadeiras
à parte, vamos ao que interessa.
Partindo
da premissa de que eu era um bebê na época em que Itapevi também o era, minhas
lembranças são remotas ou quase nenhuma. Como
criança, os momentos vividos nesta cidade foram, em sua maioria, no interior da
minha casa, no meu quintal e na minha rua, se bem me lembro.
No
interior da minha casa, a brincadeira favorita e única, de acordo com a minha
memória, era, sentada em um pano, ser puxada, não me lembro por quem, para dar
brilho no assoalho de madeira encerado pela minha mãe. Era pura diversão!
Já no
quintal, onde tínhamos praticamente um pomar, brinquei muito de casinha com um
grande companheiro de infância, Rafael (Nenê). Quando não estava com ele, lá
estava eu no pé de manga ou no de ameixa, deliciando-me
com as frutas que adoçavam a vida de qualquer criança.
Claro
que o quintal, com o tempo, foi ficando pequeno pra tanta energia e só me
restava, então, a rua em que, na época, só existia terra para sujar nossos pés.
Ali o espaço era vasto para a imaginação de todos.
Polícia-ladrão,
agarrou-beijou, mão na mula, brincadeira de roda, passa-anel, esconde-esconde,
rodar pião, jogar bolinha de gude. Entre tantas outras brincadeiras, fica
difícil dizer qual aquela que mais me atraía.
Com o
passar dos anos, as brincadeiras foram se transformando em outras que o meu
físico de criança, também se transformando, já suportava. Pular corda e
queimada exigiam energia e força; isso eu já tinha. Agora, descer a nossa rua,
já asfaltada, de carrinho de rolimã e despencar na porta da chácara, existente
até hoje na antiga Rua Campinas, atual Benedito Corrêa, era pura adrenalina!
Quando
me transformei em uma adolescente rebelde, resolvi explorar, com certa timidez,
a cidade que começava a crescer comigo.
Vamos
chamar de pontos turísticos os lugares de que me lembro bem e em que passei
momentos memoráveis.
O dia
era reservado ao Vale do Sol, que ficava no Jardim da Rainha, onde grande parte
da população, se não toda, deliciava-se com suas piscinas, seus quiosques e
suas quadras. Enfim, ali se passava um bom fim de semana com amigos ou até
mesmo sozinho.
Eu,
particularmente, sempre estava acompanhada de minha prima Bela. Costumávamos
nos encontrar com amigos pra beber umas cervejas e conversar amenidades, até
porque amenidades eram próprias da nossa idade.
Passávamos
o dia nesse ritmo e íamos embora levemente embriagadas e, para fugir do acerto
de contas com nossa
família, tomava-se um banho gelado e tudo voltava ao normal.
Foi
nesse mesmo lugar em que dei – dei não, roubaram de mim meu primeiro beijo – e
posso dizer com propriedade que o primeiro beijo a gente nunca esquece, mesmo
quando roubado.
A
noite já era reservada para os bailinhos em alguma casa do bairro; bailinhos
esses que eram regados de boa música e da deliciosa dança de rosto colado. As
músicas que eram tocadas não me vêm à memória com precisão. Lembro-me apenas
que, na sua maioria, eram pra ser dançadas bem juntinhos.
Também
frequentava o baile do antigo salão dos funcionários, onde o flerte era
inevitável, resultando algumas vezes num simples beijo na boca, no final do
baile ou durante uma dança.
Quando
não estava no baile, partia para o cinema do Pereira, onde eu adorava subir até
a sala de projeção para ver, do alto, a imensa tela exibir os filmes tops da
época.
Tinha
também a saudosa CJC (Comunidade de Jovens Cristãos), que ficava ao lado da
igreja de São Judas Tadeu. Ali nos encontrávamos para viver aventuras idealizadas
por nossas mentes curiosas.
Primeiro
um bom bate-papo com os amigos e depois, na garupa de uma moto, lá íamos nós
rumo à cidade de São João Novo, apenas para nos divertirmos na estrada sinuosa
e perigosa que nos levava até lá.
Lembro-me
bem de um episódio vivido na CJC que eu não poderia deixar de comentar, pois se
trata de um momento tragicômico com o organizador deste livro e coincidentemente
meu irmão, isso mesmo, Ayrton Corrêa.
Eu
estava conversando com meu amigo Abatiá e já faltava muito pouco para as dez
horas, horário estipulado por meu irmão para eu chegar em casa, quando ele
chega a “mil por hora”, no seu fusca, para ao meu lado e pergunta se eu sabia
que horas eram. Quando respondi que sabia, sem ao menos sair de onde eu estava,
ele deu um belo cavalinho de pau e foi embora, deixando-me ali, matutando sobre
o que eu ia fazer da mina vida. Esse momento, não só foi memorável como também
foi único e hoje muito divertido e até mesmo compreensível.
E,
finalmente, o recanto das flores, a famosa Roselândia, que ficava na estrada
velha de Cotia, onde ia para tirar
fotos e passear entre as rosas que lá havia. Deu até rima!
Itapevi,
como você, caro leitor, pode ver, tinha seus atrativos. Claro que não tão
atraentes como eram na época de meus irmãos, com seus rios cristalinos e uma grande área verde, com árvores frutíferas e que
eu adoraria ter vivenciado.
Mas
vamos voltar ao assunto em questão, isto é, às minhas remotas e poucas
lembranças. Como tudo que é bom dura pouco, as transformações inevitavelmente
aconteceram devido ao progresso e hoje os atrativos são outros, para pessoas
com outros objetivos. São poucas as lembranças, mas como disse logo no início
de meu relato, foram decididamente memoráveis.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br.
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