sábado, 16 de março de 2019


MEMÓRIAS DE ITAPEVI
Ana Rosa Corrêa

Falar de momentos vividos na cidade de Itapevi, no meu caso especificamente é um parto a fórceps, devido a minha memória RAM e não HD, como seria o ideal.
Brincadeiras à parte, vamos ao que interessa.
Partindo da premissa de que eu era um bebê na época em que Itapevi também o era, minhas lembranças são remotas ou quase nenhuma. Como criança, os momentos vividos nesta cidade foram, em sua maioria, no interior da minha casa, no meu quintal e na minha rua, se bem me lembro.
No interior da minha casa, a brincadeira favorita e única, de acordo com a minha memória, era, sentada em um pano, ser puxada, não me lembro por quem, para dar brilho no assoalho de madeira encerado pela minha mãe. Era pura diversão!
Já no quintal, onde tínhamos praticamente um pomar, brinquei muito de casinha com um grande companheiro de infância, Rafael (Nenê). Quando não estava com ele, lá estava eu no pé de manga ou no de ameixa, deliciando-me com as frutas que adoçavam a vida de qualquer criança.
Claro que o quintal, com o tempo, foi ficando pequeno pra tanta energia e só me restava, então, a rua em que, na época, só existia terra para sujar nossos pés. Ali o espaço era vasto para a imaginação de todos.
Polícia-ladrão, agarrou-beijou, mão na mula, brincadeira de roda, passa-anel, esconde-esconde, rodar pião, jogar bolinha de gude. Entre tantas outras brincadeiras, fica difícil dizer qual aquela que mais me atraía.
Com o passar dos anos, as brincadeiras foram se transformando em outras que o meu físico de criança, também se transformando, já suportava. Pular corda e queimada exigiam energia e força; isso eu já tinha. Agora, descer a nossa rua, já asfaltada, de carrinho de rolimã e despencar na porta da chácara, existente até hoje na antiga Rua Campinas, atual Benedito Corrêa, era pura adrenalina!
Quando me transformei em uma adolescente rebelde, resolvi explorar, com certa timidez, a cidade que começava a crescer comigo.
Vamos chamar de pontos turísticos os lugares de que me lembro bem e em que passei momentos memoráveis.
O dia era reservado ao Vale do Sol, que ficava no Jardim da Rainha, onde grande parte da população, se não toda, deliciava-se com suas piscinas, seus quiosques e suas quadras. Enfim, ali se passava um bom fim de semana com amigos ou até mesmo sozinho.
Eu, particularmente, sempre estava acompanhada de minha prima Bela. Costumávamos nos encontrar com amigos pra beber umas cervejas e conversar amenidades, até porque amenidades eram próprias da nossa idade.
Passávamos o dia nesse ritmo e íamos embora levemente embriagadas e, para fugir do acerto de contas com nossa família, tomava-se um banho gelado e tudo voltava ao normal.
Foi nesse mesmo lugar em que dei – dei não, roubaram de mim meu primeiro beijo – e posso dizer com propriedade que o primeiro beijo a gente nunca esquece, mesmo quando roubado.
A noite já era reservada para os bailinhos em alguma casa do bairro; bailinhos esses que eram regados de boa música e da deliciosa dança de rosto colado. As músicas que eram tocadas não me vêm à memória com precisão. Lembro-me apenas que, na sua maioria, eram pra ser dançadas bem juntinhos.
Também frequentava o baile do antigo salão dos funcionários, onde o flerte era inevitável, resultando algumas vezes num simples beijo na boca, no final do baile ou durante uma dança.
Quando não estava no baile, partia para o cinema do Pereira, onde eu adorava subir até a sala de projeção para ver, do alto, a imensa tela exibir os filmes tops da época.
Tinha também a saudosa CJC (Comunidade de Jovens Cristãos), que ficava ao lado da igreja de São Judas Tadeu. Ali nos encontrávamos para viver aventuras idealizadas por nossas mentes curiosas.
Primeiro um bom bate-papo com os amigos e depois, na garupa de uma moto, lá íamos nós rumo à cidade de São João Novo, apenas para nos divertirmos na estrada sinuosa e perigosa que nos levava até lá.
Lembro-me bem de um episódio vivido na CJC que eu não poderia deixar de comentar, pois se trata de um momento tragicômico com o organizador deste livro e coincidentemente meu irmão, isso mesmo, Ayrton Corrêa.
Eu estava conversando com meu amigo Abatiá e já faltava muito pouco para as dez horas, horário estipulado por meu irmão para eu chegar em casa, quando ele chega a “mil por hora”, no seu fusca, para ao meu lado e pergunta se eu sabia que horas eram. Quando respondi que sabia, sem ao menos sair de onde eu estava, ele deu um belo cavalinho de pau e foi embora, deixando-me ali, matutando sobre o que eu ia fazer da mina vida. Esse momento, não só foi memorável como também foi único e hoje muito divertido e até mesmo compreensível.
E, finalmente, o recanto das flores, a famosa Roselândia, que ficava na estrada velha de Cotia, onde ia para tirar fotos e passear entre as rosas que lá havia. Deu até rima!
Itapevi, como você, caro leitor, pode ver, tinha seus atrativos. Claro que não tão atraentes como eram na época de meus irmãos, com seus rios cristalinos e uma grande área verde, com árvores frutíferas e que eu adoraria ter vivenciado.
Mas vamos voltar ao assunto em questão, isto é, às minhas remotas e poucas lembranças. Como tudo que é bom dura pouco, as transformações inevitavelmente aconteceram devido ao progresso e hoje os atrativos são outros, para pessoas com outros objetivos. São poucas as lembranças, mas como disse logo no início de meu relato, foram decididamente memoráveis.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br.

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