VIVENDO PELA FÉ
Roseli Ribeiro da Silva
Era uma vez um lindo jovem negro, de olhos verdes e cabelos cacheados,
com 18 anos de idade, que se apaixonou por uma jovem mulata, com 14 anos de
idade e que estava grávida de uma menina, quando se casaram.
Alguns meses depois, a jovem foi para a maternidade e, passados 28 dias
no isolamento, a criança ainda não havia nascido. Foi quando descobriram que tinham
feito macumba pra que ela e a criança morressem durante o parto.
Mas, graças a Deus, acabou dando tudo certo. Ainda que em um parto a
fórceps, com o nenê tirado a ferro, eu vim ao mundo e tudo terminou bem.
Um dia, meus pais se separaram e eu passei a ser criada apenas pela
minha mãe. Fui crescendo e vendo a grande mãe que Deus tinha me dado. Ela se
levantava bem cedo e ia para o trabalho. Nunca me deixou faltar nada que
estivesse ao alcance das condições e origem de uma família pobre e humilde.
Sempre tive os meus brinquedos. Um dos que eu mais gostava era uma
peteca que ganhei da minha mãe, junto com uma boneca da Emília.
Ganhei do meu pai, quando fui visitá-lo no presídio do Carandiru, uma
gaita que era a minha diversão; era a minha companhia inseparável. Quando eu
ficava triste e com saudade do meu pai, a primeira coisa que eu fazia era tocar
aquela bela gaita, pois eu me sentia mais perto dele, ao escutar aquele som
suave.
O meu pai não tinha juízo. Só fazia o que não devia, mas ele me amava e
me chamava de Princesa e me dava muitos conselhos, pra que eu nunca fizesse as
coisas que ele fazia; que não eram certas e sim muito feias.
E ele fez até uma tatuagem no braço esquerdo. Um coração com uma flecha
atravessada e com a frase “Princesa Roseli, te amo.” Esse foi um pequeno gesto
de amor do meu pai por mim.
Mas, enfim, ele morreu no dia 2 de agosto de 1988, depois de ter ficado
muito doente, contaminado pelo vírus HIV, consequência de ele ser muito
namorador. Na época eu tinha só 9 anos de idade e fiquei sabendo da sua morte
20 dias depois, porque ele morava em Carapicuíba e eu, aqui em Itapevi. Aí,
minha mãe acabou de me criar.
De menina, virei uma jovem moça com lembranças doces da minha infância.
Sempre gostei de dançar lambada, samba e pagode. Colocava a minha roupa de
lambada na mochila e ia pra escola; vestia e brincava de concurso de dança no
pátio, no intervalo, na escola Valentin Christianini, no Jardim Santa Rita.
Mas quando a gente cresce, tudo muda e, na maioria das vezes, a gente
sente o gosto amargo do sofrimento nessa vida. Na adolescência, comecei a
trabalhar. Quando fique desempregada, tive a ideia de trabalhar com vendas e
saí vendendo panos de prato e outros utensílios de cozinha nas casas. Depois,
abri um brechó que não deu certo. Enfim, trabalhei até como palhacinha nas ruas
da cidade pra ganhar dinheiro honesto, até que resolvi seguir o meu destino e
fui embora de casa.
Morei nas ruas de São Paulo, como mendiga; tomei banho no chafariz da
Praça da Sé; vendia sucata pra sobreviver. Já fui ameaçada por não querer usar
drogas; passei fome e frio, mas venci e cada dia que passava era uma vitória a
mais e sempre agradecia a Deus.
Hoje não estou mais nas ruas. Moro na área verde, num barracão de
madeira. Sou mãe de dois meninos, sendo que o mais velho, o Vítor, tem 9 anos e
o mais novo, Leonardo, tem 3 anos. São a razão da minha vida e a única família que eu tenho,
pois faz três anos que minha mãe morreu.
Minha mãe, minha eterna Heroína e Rainha, eu sempre vou te amar e, com
certeza, você se encontrou com seu primeiro e único amor, o meu pai. Minha mãe
faleceu no dia 23 de abril de 2014. Quando ela se foi, eu estava de dieta do
meu filho mais novo que estava com 23 dias de nascido.
Meu filho mais novo nasceu no dia 25 de fevereiro de 2014 e o meu filho
mais velho nasceu no dia 16 de julho de 2007, ambos em Itapevi.
Tenho muita fé em Deus e em Nossa Senhora Aparecida que tudo vai mudar,
pois quem tem fé e esperança a vitória sempre alcança. É por isso que não paro
de orar, sem cessar.
E assim, termino a minha história e que Deus sempre olhe por todos nós,
amém.
Roseli Ribeiro da Silva – Trinta e oito anos, filha de Natanael Almeida
da Silva e de Marli Ribeiro da Silva. Filhos: Vitor Hugo da Silva Ritton e
Leonardo Yuri da Silva Ritton. Dona de casa, nascida em 29 de junho de 1979, em
Itapevi, onde mora até hoje.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018,
publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores,
www.clubedeautores.com.br.

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