FAMÍLIA TRINDADE EM ITAPEVI
Maria Aparecida Trindade
Em 1957, com a promoção, na
Estrada de Ferro Sorocabana, para Chefe de Estação Classe Especial, meu pai,
Celso Trindade, nos levou para Itapevi. Minha mãe estava com mais uma criança
chegando, na época, éramos nove filhos.
Chegamos à casa do Chefe, para nós, crianças, era uma alegria vasculhar
os novos aposentos, descobrir tudo que havia naquele quintal “enorme” para nós,
tudo novo, tudo diferente. Para os mais velhos, nem tanto assim, mas mais
velhos, 18, 17, 15, 13, 11, 9, 7, 5, 2 e, como disse, mais uma a caminho,
nasceu logo que chegamos, depois, veio mais um, filho de Itapevi.
Mas, vamos aos fatos...
Itapevi era um lugar calmo, pequeno, onde ouvíamos, todas as manhãs e
todas as tardes, a música Ave Maria, tocada na Igreja e todo dia 28 a música de
São Judas Tadeu vibrava no ar da cidade. Os finais de tarde eram melancólicos,
a noite caía lentamente e o som que vinha da Igreja São Judas nos atingia o
peito, fazendo-nos recordar sei lá o quê, mas nos deixava tranquilos.
Nesses momentos, muitos animais noturnos se movimentavam para suas
tocas, as corujas piavam e as estórias – que o povo conta – de Boitatá, Mula
Sem Cabeça, Saci Pererê, que, segundo diziam, apareciam na cidade, principalmente,
nas noites de Lua Cheia.
Nós, crianças, nem púnhamos o nariz para fora de casa, de medo de ver um
desses seres místicos.
Morávamos perto da linha, à beira da estrada que subia para o
frigorífico de Itapevi e nos divertíamos a cada vez que os trens de carga
traziam o gado comprado pelo Frigorifico, porque não tinha uma vez que esses
gados não estourassem o portão e invadissem nosso quintal. Aliás, tínhamos um
papagaio que morria de medo dos bois e ficava chamando a mamãe: – Izabel, fecha
o portão, a boiada vem vindo. O medo dele era tanto que, um dia, uma vaca subiu
a escada da varanda e ele desmaiou; daí, toca fazer o bichinho voltar a si.
A vida, para as crianças, se resumia ao quintal. Era muito legal correr,
apanhar amoras, mesmo que tivessem tábuas empilhadas embaixo da amoreira, que
facilitavam nossas aventuras, até que, uma desavisada – Eu! – pisei num prego
enferrujado que entrou com tudo em meu calcanhar. Fiquei presa à tábua
(lembrança dolorida essa), que meu irmão, Tuco, retirou, puxando-a, entortando
o prego e fomos à farmácia do Seu Mário, para ver o que fazer.
E nas epidemias de catapora, sarampo e outras coqueluches infantis,
meia dúzia de crianças doentes em casa.
Minhas irmãs mais velhas trabalhavam. A Irene trabalhou na CMTC, em São
Paulo e ia de trem todos os dias; a Billi, no Frigorifico e na Fábrica de Bebidas; a
Inês, na Roselândia.
Os trens parando e nós observando os passageiros, esperando, e sempre
acontecia, algum parente nosso descer de um deles. Era uma verdadeira festa
(para nós, né!? Trabalho para os mais velhos).
Minha irmã, Irene, a mais velha, foi quem cantou o Hino de Emancipação
de Itapevi, acompanhada ao violão pelo próprio autor, João Domingues. Ela
também foi Princesa das Rosas, no ano de 1958. A Billi foi princesa na Festa Junina.
Papai, juntamente com Rubens Caramez, Carlos de Castro, Américo
Christiani, Cezário de Abreu, Bonifácio de Abreu, Raul Leonardo, José dos
Santos Novaes e tantos outros, lutaram pela Emancipação de Itapevi, em 1958.
Em casa a música sempre fez parte de nossas vidas. Papai, Celsinho,
Irene, Billi e todos nós cantamos.
O Tuco, o Carlos, o Celsinho, a Gina e a Inês, estudaram na escola de
madeira, Raul Briquet, antes de ser construída onde está hoje. Eles tinham que
atravessar uma picada, até um trecho de linha férrea desativado, inclusive, um
trecho de linha sobre o rio, para poder chegar à escola. Os lanches que levavam
eram bifes feitos na chapa do fogão de lenha, com hortelã, colocados no pão
caseiro (mamãe fazia pães deliciosos no forno de barro) e, já no caminho para a
escola, devido ao cheiro delicioso, eles não resistiam e acabavam comendo o
lanche antes de chegar para as aulas.
Naquele tempo, as carteiras tinham um tinteiro, porque eram usadas
canetas de pena, além do mata-borrão... Essas lembranças eram boas, outras, nem
tanto assim, como os castigos que eram aplicados aos alunos que, por algum
motivo, tinham sido indisciplinados. Esses, ou iam de castigo na classe das
meninas (se meninos) e vice-versa, ou colocados sentados de frente para a
parede, com um chapéu de burro na cabeça, ou, ainda, ajoelhar no milho...
Coisas que, se acontecessem hoje, teriam sérias consequências...
O que parecia cruel, hoje dá saudades, porque as pessoas precisavam de
educação. Nenhuma dessas coisas traumatizou ninguém, apesar de ninguém merecer
castigo, mas todos os que viveram naquele período se tornaram homens e mulheres
de bem.
Papai era o goleiro de um time de futebol, que não sei o nome, eu era
muito pequena ainda, mas, de vez em quando, íamos assisti-lo jogar.
O Cine São Manoel, do Sr. Pereira, era o ponto de diversão da cidade. Ele colocava uma música, que
era ouvida nas redondezas, para avisar que o filme ia ter início e, no momento
de iniciar, ele batia um sino, três vezes, daí começava a passar o filme,
escolhido por ele. Muitas vezes a fita arrebentava, daí se ouviam os gritos da
plateia: Pereira!!! Pereira!!!
Os rapazes adoravam fazer brincadeiras no cinema. De vez em quando,
levavam despertadores, que colocavam atrás da tela, para despertarem um a um,
em certo momento do filme, normalmente, nas horas mais tensas. O Sr. Pereira
ficava sem saber o que fazer nesses momentos e a turma ria muito.
As crianças compravam paçocas de pacotinhos e guaraná Antártica
(Coca-Cola não existia ainda) de garrafinhas, que o dono do bar furava a tampa
com um prego e elas, quando terminava o refrigerante, soltavam as garrafinhas
que iam rolando até perto da tela.
O banheiro do cinema tinha um terraço aberto que dava para o rio
Barueri, que passava atrás dele e de onde se via a Estação de Trem e a ponte de
madeira.
Em 1960, o papai se aposentou e fomos para a Cidade Dutra (Interlagos),
onde ficamos até o final de 1965, quando nos mudamos para Bernardino de Campos.
Moramos um ano lá e fomos de volta a Itapevi, em dezembro de 1966. Nessa época
eu já era adolescente (14 anos) e fui matriculada na Escola Raul Briquet, que
ficava a três quadras de nossa casa, na Rua Ana Araújo de Castro. Essa casa
pertencia ao Sr. Nicola. Tinha uma escadaria para chegar a ela, uma muralha de
pedras, um grande pomar ao lado; de lá se via praticamente um lado todo de
Itapevi, pois ficávamos quase nivelados com a Igreja São Judas, em
perpendicular a ela.
Lembro-me que a família Nishimura morava na rua lateral e vizinha à
Igreja. Nas noites que, por algum motivo ficávamos sem energia elétrica na
cidade, sentávamos à varanda de casa e começávamos a cantar; parece que todos
gostavam disso, porque éramos aplaudidos bastante e gritavam pedindo mais, ou
até, sugerindo outras músicas.
As pessoas, naquele tempo, buscavam ajudar a quem necessitava. Num
desses atos de benemerência, um circo muito pobre, que se instalou na cidade,
na Rua da Matriz, já tinha passado do período que deveria ficar, mas não tinha
dinheiro para sair, devido à pouca audiência. O Tuco, juntamente com o Tilinho
(Filho do Dr. Atílio), o José Roberto Manfrinato (Filho do Prefeito Romeu), e
mais outros amigos, resolveram ajudar a levantar um dinheiro para o circo.
Então, conversaram com o dono e pediram para anunciar que eles cantariam
em uma noite previamente estabelecida. As moças, ao saberem disso, rapidamente
compraram entradas para o show e eles foram se apresentar, cantando: “Era um, garoto que como eu,
amava os Beatles e os Rolling Stones”. Foi um sucesso total e o circo pode
partir finalmente.
Tinha o Armazém do Sr. Jupira, um armazém onde o papai fazia as compras
para casa; também tinha o Armazém do Lessa, Lessinha, amigo do Tuco também, no
caminho que levava ao Vale do Sol.
O Carlos era chamado de Batalha, devido à sua força. Certa vez, ao lado
da Escola Raul Briquet, ele foi cercado por cinco homens, armados com enxadas,
pás, paus, sem ao menos saber “o porquê” e lutou com todos, sem se ferir,
derrotando-os.
E, como não podia deixar de ser, também nesse tempo, se dizia que havia
um lobisomem na cidade e muitas pessoas temiam sair à noite por causa do tal
bicho.
Papai recebeu, quando voltamos para Itapevi, o Título de Cidadão, que o
deixou muito feliz, porque essa cidade lhe era muito querida. De todas as
cidades que moramos, essa foi a que nos deixou muitas saudades. Temos muitas
histórias ainda para contar!!!
Como tudo se acaba um dia, nos mudamos novamente de Itapevi e, como
tinha horário para pegar o trem para São Paulo, saímos às cinco da manhã de
casa. Ainda
estava escuro, quando fechávamos a porta. Foi muita emoção. Os nossos vizinhos,
que sempre nos aplaudiam quando cantávamos nas noites sem luz, começaram a
cantar em uníssono, a
Valsa da Despedida: Adeus, Amor, eu vou partir...
Amamos Itapevi!!!
Maria Aparecida Trindade – Secretária executiva, desempenhou
diversos tipos de trabalhos, como: programação de atividades,
eventos, festas, de concursos literários, Decoração de Festas, Contadora de
histórias para crianças, Cantora, Poetisa, Escritora, Diagramação, elaboração
de textos, arte-final. Participou de Concursos literários em Tatuí, recebendo
os seguintes prêmios: 3o
Lugar em Crônica, no 4o
Concurso, com a crônica: "Tatuí,
a Capital da Música e da Alegria". – Menção
honrosa no 9o Concurso, com crônica,
conto e poesia – 2o Lugar em crônica:
no 10o Concurso, com a crônica:
"Brasil, Meu Brasil brasileiro..." e 3o
Lugar em poesia: no 10º. Concurso: com a poesia:
"Nas esquinas da vida".
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário