sexta-feira, 3 de maio de 2019



FAMÍLIA TRINDADE EM ITAPEVI
Maria Aparecida Trindade

Em 1957, com a promoção, na Estrada de Ferro Sorocabana, para Chefe de Estação Classe Especial, meu pai, Celso Trindade, nos levou para Itapevi. Minha mãe estava com mais uma criança chegando, na época, éramos nove filhos.
Chegamos à casa do Chefe, para nós, crianças, era uma alegria vasculhar os novos aposentos, descobrir tudo que havia naquele quintal “enorme” para nós, tudo novo, tudo diferente. Para os mais velhos, nem tanto assim, mas mais velhos, 18, 17, 15, 13, 11, 9, 7, 5, 2 e, como disse, mais uma a caminho, nasceu logo que chegamos, depois, veio mais um, filho de Itapevi.
Mas, vamos aos fatos...
Itapevi era um lugar calmo, pequeno, onde ouvíamos, todas as manhãs e todas as tardes, a música Ave Maria, tocada na Igreja e todo dia 28 a música de São Judas Tadeu vibrava no ar da cidade. Os finais de tarde eram melancólicos, a noite caía lentamente e o som que vinha da Igreja São Judas nos atingia o peito, fazendo-nos recordar sei lá o quê, mas nos deixava tranquilos.
Nesses momentos, muitos animais noturnos se movimentavam para suas tocas, as corujas piavam e as estórias – que o povo conta – de Boitatá, Mula Sem Cabeça, Saci Pererê, que, segundo diziam, apareciam na cidade, principalmente, nas noites de Lua Cheia. 
Nós, crianças, nem púnhamos o nariz para fora de casa, de medo de ver um desses seres místicos.
Morávamos perto da linha, à beira da estrada que subia para o frigorífico de Itapevi e nos divertíamos a cada vez que os trens de carga traziam o gado comprado pelo Frigorifico, porque não tinha uma vez que esses gados não estourassem o portão e invadissem nosso quintal. Aliás, tínhamos um papagaio que morria de medo dos bois e ficava chamando a mamãe: – Izabel, fecha o portão, a boiada vem vindo. O medo dele era tanto que, um dia, uma vaca subiu a escada da varanda e ele desmaiou; daí, toca fazer o bichinho voltar a si.
A vida, para as crianças, se resumia ao quintal. Era muito legal correr, apanhar amoras, mesmo que tivessem tábuas empilhadas embaixo da amoreira, que facilitavam nossas aventuras, até que, uma desavisada – Eu! – pisei num prego enferrujado que entrou com tudo em meu calcanhar. Fiquei presa à tábua (lembrança dolorida essa), que meu irmão, Tuco, retirou, puxando-a, entortando o prego e fomos à farmácia do Seu Mário, para ver o que fazer.
E nas epidemias de catapora, sarampo e outras coqueluches infantis, meia dúzia de crianças doentes em casa.
Minhas irmãs mais velhas trabalhavam. A Irene trabalhou na CMTC, em São Paulo e ia de trem todos os dias; a Billi, no Frigorifico e na Fábrica de Bebidas; a Inês, na Roselândia.
Os trens parando e nós observando os passageiros, esperando, e sempre acontecia, algum parente nosso descer de um deles. Era uma verdadeira festa (para nós, né!? Trabalho para os mais velhos).
Minha irmã, Irene, a mais velha, foi quem cantou o Hino de Emancipação de Itapevi, acompanhada ao violão pelo próprio autor, João Domingues. Ela também foi Princesa das Rosas, no ano de 1958. A Billi foi princesa na Festa Junina.
Papai, juntamente com Rubens Caramez, Carlos de Castro, Américo Christiani, Cezário de Abreu, Bonifácio de Abreu, Raul Leonardo, José dos Santos Novaes e tantos outros, lutaram pela Emancipação de Itapevi, em 1958.
Em casa a música sempre fez parte de nossas vidas. Papai, Celsinho, Irene, Billi e todos nós cantamos.
O Tuco, o Carlos, o Celsinho, a Gina e a Inês, estudaram na escola de madeira, Raul Briquet, antes de ser construída onde está hoje. Eles tinham que atravessar uma picada, até um trecho de linha férrea desativado, inclusive, um trecho de linha sobre o rio, para poder chegar à escola. Os lanches que levavam eram bifes feitos na chapa do fogão de lenha, com hortelã, colocados no pão caseiro (mamãe fazia pães deliciosos no forno de barro) e, já no caminho para a escola, devido ao cheiro delicioso, eles não resistiam e acabavam comendo o lanche antes de chegar para as aulas.
Naquele tempo, as carteiras tinham um tinteiro, porque eram usadas canetas de pena, além do mata-borrão... Essas lembranças eram boas, outras, nem tanto assim, como os castigos que eram aplicados aos alunos que, por algum motivo, tinham sido indisciplinados. Esses, ou iam de castigo na classe das meninas (se meninos) e vice-versa, ou colocados sentados de frente para a parede, com um chapéu de burro na cabeça, ou, ainda, ajoelhar no milho... Coisas que, se acontecessem hoje, teriam sérias consequências...
O que parecia cruel, hoje dá saudades, porque as pessoas precisavam de educação. Nenhuma dessas coisas traumatizou ninguém, apesar de ninguém merecer castigo, mas todos os que viveram naquele período se tornaram homens e mulheres de bem.
Papai era o goleiro de um time de futebol, que não sei o nome, eu era muito pequena ainda, mas, de vez em quando, íamos assisti-lo jogar.
O Cine São Manoel, do Sr. Pereira, era o ponto de diversão da cidade. Ele colocava uma música, que era ouvida nas redondezas, para avisar que o filme ia ter início e, no momento de iniciar, ele batia um sino, três vezes, daí começava a passar o filme, escolhido por ele. Muitas vezes a fita arrebentava, daí se ouviam os gritos da plateia: Pereira!!! Pereira!!!
Os rapazes adoravam fazer brincadeiras no cinema. De vez em quando, levavam despertadores, que colocavam atrás da tela, para despertarem um a um, em certo momento do filme, normalmente, nas horas mais tensas. O Sr. Pereira ficava sem saber o que fazer nesses momentos e a turma ria muito. 
As crianças compravam paçocas de pacotinhos e guaraná Antártica (Coca-Cola não existia ainda) de garrafinhas, que o dono do bar furava a tampa com um prego e elas, quando terminava o refrigerante, soltavam as garrafinhas que iam rolando até perto da tela.
O banheiro do cinema tinha um terraço aberto que dava para o rio Barueri, que passava atrás dele e de onde se via a Estação de Trem e a ponte de madeira.
Em 1960, o papai se aposentou e fomos para a Cidade Dutra (Interlagos), onde ficamos até o final de 1965, quando nos mudamos para Bernardino de Campos. Moramos um ano lá e fomos de volta a Itapevi, em dezembro de 1966. Nessa época eu já era adolescente (14 anos) e fui matriculada na Escola Raul Briquet, que ficava a três quadras de nossa casa, na Rua Ana Araújo de Castro. Essa casa pertencia ao Sr. Nicola. Tinha uma escadaria para chegar a ela, uma muralha de pedras, um grande pomar ao lado; de lá se via praticamente um lado todo de Itapevi, pois ficávamos quase nivelados com a Igreja São Judas, em perpendicular a ela. 
Lembro-me que a família Nishimura morava na rua lateral e vizinha à Igreja. Nas noites que, por algum motivo ficávamos sem energia elétrica na cidade, sentávamos à varanda de casa e começávamos a cantar; parece que todos gostavam disso, porque éramos aplaudidos bastante e gritavam pedindo mais, ou até, sugerindo outras músicas.
As pessoas, naquele tempo, buscavam ajudar a quem necessitava. Num desses atos de benemerência, um circo muito pobre, que se instalou na cidade, na Rua da Matriz, já tinha passado do período que deveria ficar, mas não tinha dinheiro para sair, devido à pouca audiência. O Tuco, juntamente com o Tilinho (Filho do Dr. Atílio), o José Roberto Manfrinato (Filho do Prefeito Romeu), e mais outros amigos, resolveram ajudar a levantar um dinheiro para o circo.
Então, conversaram com o dono e pediram para anunciar que eles cantariam em uma noite previamente estabelecida. As moças, ao saberem disso, rapidamente compraram entradas para o show e eles foram se apresentar, cantando: “Era um, garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Foi um sucesso total e o circo pode partir finalmente.
Tinha o Armazém do Sr. Jupira, um armazém onde o papai fazia as compras para casa; também tinha o Armazém do Lessa, Lessinha, amigo do Tuco também, no caminho que levava ao Vale do Sol.
O Carlos era chamado de Batalha, devido à sua força. Certa vez, ao lado da Escola Raul Briquet, ele foi cercado por cinco homens, armados com enxadas, pás, paus, sem ao menos saber “o porquê” e lutou com todos, sem se ferir, derrotando-os. 
E, como não podia deixar de ser, também nesse tempo, se dizia que havia um lobisomem na cidade e muitas pessoas temiam sair à noite por causa do tal bicho.
Papai recebeu, quando voltamos para Itapevi, o Título de Cidadão, que o deixou muito feliz, porque essa cidade lhe era muito querida. De todas as cidades que moramos, essa foi a que nos deixou muitas saudades. Temos muitas histórias ainda para contar!!!
Como tudo se acaba um dia, nos mudamos novamente de Itapevi e, como tinha horário para pegar o trem para São Paulo, saímos às cinco da manhã de casa. Ainda estava escuro, quando fechávamos a porta. Foi muita emoção. Os nossos vizinhos, que sempre nos aplaudiam quando cantávamos nas noites sem luz, começaram a cantar em uníssono, a
Valsa da Despedida: Adeus, Amor, eu vou partir...
Amamos Itapevi!!! 

Maria Aparecida Trindade – Secretária executiva, desempenhou diversos tipos de trabalhos, como: programação de atividades, eventos, festas, de concursos literários, Decoração de Festas, Contadora de histórias para crianças, Cantora, Poetisa, Escritora, Diagramação, elaboração de textos, arte-final. Participou de Concursos literários em Tatuí, recebendo os seguintes prêmios: 3o Lugar em Crônica, no 4o Concurso, com a crônica: "Tatuí, a Capital da Música e da Alegria". – Menção honrosa no 9o Concurso, com crônica, conto e poesia – 2o Lugar em crônica: no 10o Concurso, com a crônica: "Brasil, Meu Brasil brasileiro..." e 3o Lugar em poesia: no 10º. Concurso: com a poesia: "Nas esquinas da vida".
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...