quinta-feira, 2 de maio de 2019


MATRIZ E FILIAL
Filastor Brega

Jandira era a filial e, Itapevi, a matriz. Na saudosa década de 70, Jandira não tinha praticamente nada de serviços ao cidadão e o pequeno comércio não supria todas as vontades de compras de quem lá vivia. Era tudo muito precário. E Itapevi estava bem à frente! Boa parte de sua população procurava a cidade vizinha para satisfazer suas necessidades de bens, lazer e saúde. Tinha até cinema em Itapevi.
Frequentei muito a cidade das Pedras Preciosas nos anos 70.
O meu primeiro emprego foi na Empla; meu chefe direto era de Itapevi. O Toninho, bigodudo, rapaz sério e dedicado ao trabalho. Trabalhávamos no setor de agrimensura. Eu o ajudava a medir e marcar terrenos que iam ser loteados. Foi pouco tempo. Dias desses soube que ele faleceu ainda jovem. Caiu de um trem.
No começo dos anos 80, também quase morri em uma manhã, bem cedinho, na cidade de Itapevi. Estava voltando de Bernardino de Campos, minha cidade Natal, no Trem Expresso da Fepasa, que só ia parar na Júlio Prestes. Teria que pegar um trem de volta para a cidade de Jandira.
O trem deu uma diminuída e eu achei que conseguiria pular na plataforma. Conforme me encaminhava para a porta, ele foi ficando rápido novamente. Já estava ali próximo da saída, calculei rapidamente a velocidade x tempo x distância... Apesar de conhecer bem o elemento trem, nunca fui muito bom em física... me estatelei no chão da plataforma dessa cidade. Ainda bem que existem anjos da guarda. E o meu, com certeza, é muito bom. E agradeço sempre.
Quase me fui, mas na realidade foi só um rasgo na mão e na perna. Um corte muito feio, que sangrava bastante (Até olhei para a minha mão, para ver se havia sobrado um pedaço daquela cicatriz. Não! Mais nada no físico. Mas na mente, mesmo decorrido todo esse tempo, a cena se faz presente, como se tivesse sido ontem).
Três pessoas me socorreram. Entre elas um bêbado famoso da região, que pediu um copo de pinga no bar e despejou sobre a ferida da mão, que era a mais grave. E ainda falou: “Não vai ficar nem marca. É um santo remédio”. 
Voltei para Itapevi, depois de um longo tempo, para o lançamento do livro de um amigo. Me perdi... A cidade está tão diferente... tão diferente... Gostava muito mais como era antes.

Filastor Brega - Nasceu em Bernardino de Campos em 1960. Morou por mais de 30 anos na cidade de Jandira. Frequentou muito Itapevi. Trabalhou e se aposentou na Fepasa. Paralelamente dedicou-se a leitura e escritura de algumas palavras. Hoje trabalha no audiovisual, com atuação, direção, roteiros e também com livros que tratam e cuidam de resgatar memórias que ficariam perdidas para sempre, para nunca mais serem contadas.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...