UM RIO DE RECORDAÇÕES
Marlene Corrêa de Miranda
Viemos
de São Paulo, do bairro do Jabaquara. Chegamos a Itapevi no ano de 1952. Meu
pai, Américo Branco de Miranda, ex-combatente da II Guerra Mundial, foi
funcionário público estadual. Minha mãe, dona Maria Inês Corrêa de Miranda,
para ajudar na casa, lavava roupa pra fora, como diziam antigamente e,
posteriormente, trabalhou 23 anos no posto de puericultura, vacinando as
crianças neste município. Meu irmão, Luiz Carlos Branco de Miranda (Luizinho),
como era conhecido, gostava de futebol; chegou a ser capitão de time, pois onde
moramos existiam os campos do América e o do CIPE, próximo à linha do trem.
As
senhoras donas de casa lavavam as roupas nas águas limpas e transparentes do
rio que corta o município de Itapevi, pois quase não havia água de poço ou
encanada.
Enquanto
as mães, dona Maria Inês, dona Izidora Fragoso, dona Constância e outras
lavavam roupa, as crianças brincavam no rio; os meninos e as meninas, pois as
mães estavam sempre de olho.
No
entanto, em um dado momento, um menino que atendia pelo apelido de Tantã
mergulhou e, quando subiu, sua barriga estava cortada por uma folha de lata de
marmelada, pois os meninos brincavam de jogar as folhas das latas de doces,
como se fossem aviõezinhos.
As
vísceras do Tantã estavam toda pra fora. Gritamos para nossas mães; minha mãe
pediu para chamar uma ambulância, o que era difícil conseguir, pois só existia
uma.
Com
muita calma, minha mãe estendeu um lençol branco no chão e deitou o menino,
colocando todas as vísceras pra dentro. Um pouco nervosa, por causa do sangramento,
fechou e amarrou o lençol. Nisso chegou a ambulância, uma Rural Willys.
Colocaram o menino e o levaram para o Hospital das Clínicas, pois só existia
esse hospital. Chegando lá,
os médicos atenderam e verificaram que as vísceras estavam em seu devido lugar.
Costuraram a barriga do Tantã e o medicaram.
Ficou
um ou dois dias internado e, após esse tempo, voltou para casa, sem problema
algum; não teve febre; ficou bom e está vivo até hoje.
Se
fosse hoje, teria morrido, pois a água desse rio está contaminada.
Essa
história verdadeira ficou evidente em minha memória, como se fosse hoje!
Marlene
Corrêa de Miranda
– Moradora em Itapevi, desde 1952, filha do ex-combatente da II Guerra Mundial,
Américo Branco de Miranda e de Maria Inês Corrêa de Miranda. Irmã de Luiz Carlos Branco (Luizinho). Trabalhou na
prefeitura durante 12 anos e 16 anos na Câmara Municipal. Hoje está aposentada.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
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