terça-feira, 9 de abril de 2019


A MINHA HISTÓRIA
Dirce Belomi da Silva

Vim, da cidade de Lins para Itapevi, com 1 ano e 6 meses de idade. Como se tivesse nascido aqui. Viemos, eu, meu pai, Hermentino Belomi, minha mãe, Maria de Lurdes de Souza, e o Claudio, meu irmão mais velho.
Meu pai foi convidado para administrar o sítio Jardim Dona Elvira. Veio já com uma carta de apresentação da dona Elvira. O sítio ao lado era do marido dela, Dr. Cardoso. Meu pai ficou tomando conta do sítio até a morte dela. Eu brincava muito com os filhos dos outros trabalhadores. Brincadeiras comuns, como pega-pega, esconde-esconde, boneca, etc.
Com 7 anos, entrei na escola Grupo Escolar Dr. Raul Briquet; na época ficava onde hoje é a rotatória da Cohab. Uma escola de madeira, onde o Dr. Amin, dentista, vinha periodicamente extrair dentes dos alunos. Antes, distribuía miniaturas de escova e pasta de dente e passava um filme mostrando como acontecia a cárie. Que medo do dentista! Estudei até o quarto ano e depois não consegui ir pra frente porque só existia o curso de Admissão em Osasco, e eu não tinha dinheiro para pagar.
Depois de ter recebido o diploma da festa de formatura e tudo, meu pai me chamou e disse: – olha, pra estudar, terei que pagar, mas o pai não tem dinheiro. Eu morava, na época, onde era a antiga delegacia de polícia de Itapevi e, depois, o armazém do Baltazar. Posteriormente foi vendido ao Senhor Dárcio Coelho e depois para o seu Basílio da dona Vitinha, um russo. Eu morava com meus pais no fundo desse armazém, em dois cômodos. Eu mais meus outros irmãos. Oito pessoas em dois cômodos!
Com 9 anos de idade, fui trabalhar com minha professora dona Olga, olhando as crianças dela. Com 13 anos fui trabalhar no Braz. Vinha pra casa de quinze 15 em 15 dias. Meu pai dizia assim: – Vocês têm que trabalhar pra ajudar o pai pra gente comprar uma casa. Morávamos de favor lá nos dois cômodos atrás do armazém. O dono era muito bom! Foi então que minha prima ficou sabendo, pela patroa dela, que tinha uma cunhada precisando de alguém de confiança para trabalhar na casa dela; e lá fui eu.
Minha prima Amélia, a cada 15 dias ia me buscar. Eu ficava sábado e domingo em casa e na segunda-feira voltava ao Braz. Fiquei dois anos trabalhando no Braz e, com 15 anos, saí e fui trabalhar na Barra Funda, na casa da dona Eloisa. Como eu era uma morena bonitona, jeitosa e o marido dela era boêmio, tocava na noite, comecei a me sentir meio incomodada e resolvi sair.
Para me divertir não havia muita coisa não. Era nos parquinhos que sempre aportavam aqui em Itapevi, nas festas da Igreja São Judas Tadeu, procissão, dava umas voltas na praça, fazia parte do coral da igreja com a dona Mércia. Namorar... namorei pouco.
Aí lá fui eu trabalhar em outra casa, da dona Fany. Na dona Fany foi bom porque eu vinha e voltava todos os dias de trem. Só saí de lá pra me casar.
Meu pai tinha comprado um terreno aqui na Nova Itapevi, por 50 contos. A primeira moradora aqui na vila fui eu. Havia só mato e trilhas. Onde hoje é a Rua Dimarães Antonio Sandei, aconteciam corridas de cavalos. Algumas pessoas dizem que as corridas de cavalos aconteciam na Presidente Vargas, mas não. Elas eram aqui na Dimarães. Quando meu pai comprou o terreno, ele já tinha guardado muito dinheiro, o que lhe possibilitou comprá-lo à vista.
Esqueci-me de dizer que meu pai trabalhava com carroça, entregando compra para o dono do armazém onde a gente morava. Essa carroça e o burro meu pai recebeu de indenização quando saiu do sítio da dona Elvira. Então o seu Dárcio, dono do armazém, deixou que meu pai morasse nos fundos e ele fazia a entrega das mercadorias.
Aí meu pai saiu do seu Dárcio e foi trabalhar no frigorífico de Itapevi, enquanto que o Claudio, meu irmão, assumiu a carroça e o burro para dar continuidade ao trabalho do meu pai no armazém. Minha mãe e minha irmã Sonia iam levar almoço para meu pai no frigorífico e muitas vezes davam de cara com a boiada. Era um sufoco! Lembro até que minha vizinha, dona Josefa, foi atacada por um boi quando estava grávida.
Quando meu pai comprou o terreno, ele e seu Cósmo construíram uma casa, porém sem estrutura adequada. Com um temporal muito grande, meu pai vindo do frigorífico, lá do alto olhou aqui em baixo e viu a casa no chão. Foi uma tristeza! Meu pai, minha mãe, todo mundo chorando! Fizeram, então, um muxirão e levantaram uma casa “duas águas”, com quatro cômodos, uma cobertura para lavar roupas, poço e banheiro apegado à cozinha. Saímos dos dois cômodos lá nos fundos do armazém e viemos morar na nossa casa. Eu, Sônia, Claudio, Odair, Solange e meus pais.
Eu não tinha medo de sair todos os dias, ainda escuro, para trabalhar, apesar de ter muito mato. Pegava um “triozinho” que o pessoal costumava chamar de “coloninha” e saía lá em cima, na Av. Presidente Vargas, que na época chamava-se Av. Itaqui.
Para pegar o trem, eu usava o passe mensal, um cartão com os dias da semana que eram picotados pelo chefe de trem a cada viagem. Quem não tinha passe, tinha que comprar o bilhete. Quando recebia o pagamento, meu pai já comprava o passe de 30 dias.
Vim morar aqui, onde moramos hoje, eu, o Argeu e nossos quatro filhos, num cômodo só. Tive um barzinho aqui na Dimarães Antonio Sandei, onde conheci a Miriam, esposa do Pedrinho. Ela era amiga da Solange, minha irmã, e vinha comprar lanche.
Quando o marido da Isabel, Antonio, meu irmão Odair, o Bartolomeu e o Galego fundaram uma associação Amigos de Bairro, eu fui ajudar meu irmão nos eventos.
Depois que seu Antonio, marido da Isabel, saiu da Associação, para não extinguir por completo o trabalho, ele sugeriu que eu ficasse à frente do que ele chamou de Clube de Mães. Dei o nome de Clube de Mães Flor de Liz.
Nossa Associação não tinha registro nenhum, mas fazíamos um trabalho muito bem feito que acabou por chamar a atenção da Sonia Salvarani, na época a primeira dama. E ela disse pra mim: – Nossa, Dirce! É muito bonito o trabalho de vocês pra ficar assim escondido! Não pode ficar assim! Olha, eu conheço uma pessoa que vai ajudar muito vocês: a dona Olímpia. Deu-me o endereço e fui até lá, na Praça da Árvore, procurar por ela.
 Essa dona Olímpia cuidou de toda a parte de documentação, deixando oficializado o Clube de Mães Flor de Liz, que funcionava assim: as mães vinham a minha casa e nós as ensinávamos a fazer tricô, crochê, fraldas, casaquinhos de bebê, e montávamos uns quites que eram doados às mães gestantes. Tínhamos um caderno onde anotávamos o nome das mães, e as visitávamos quando elas ganhavam nenê, acompanhando e doando o enxoval.
Quando éramos avisadas que tinha alguém doente, nós também procurávamos dar todo o apoio, fazendo a visita. Fazíamos bingo para arrecadar dinheiro e atender àquelas que não tinham gás, precisavam de remédios, ou outras emergências.
As reuniões aqui em casa aconteciam duas vezes por semana e as mães adoravam! Uma trazia bolo; outra, chá; outra, café e eram muito prazerosas nossas reuniões. Todas aprendiam tudo. A renda para comprar os materiais vinha do dinheiro arrecadado, pela associação, com os bingos, quermesse etc. Os materiais eram comprados na Rua 25 de Março.
Quando o Roberto Mangetti era presidente da Comunidade Kolping, fui convidada, pelo Padre Giovani, para assumir esse cargo porque o Roberto não podia mais continuar na presidência. Aí, o grupo que fazia parte do Clube de Mães foi todo para lá. Acabei por ficar como vice-presidente, junto com o presidente, seu Antonio, e assim acabou o Clube de Mães.
Passei um apuro porque peguei um tempo em que teria que construir urgentemente em um terreno doado. Mas acionei a Kolping central, da Alemanha, que liberou a verba e construímos as quatro primeiras salas. Com os programas da Kolping, continuei a dar assistência às mães. Faço parte da diretoria da Comunidade até os dias de hoje.
Tive oportunidade de ir embora de Itapevi, mas não consigo. Criei raízes. Trabalhei muito! Tenho muitos amigos em Itapevi! Gosto daqui! Não saio mais!

Dirce Belomi da Silva – Nascida na cidade de Lins, em 18 de novembro de 1948, mora em Itapevi desde 1950. Filha de Hermentino Belomi e Maria de Lurdes de Souza Belomi. Casada com Argeu Rodrigues da Silva, tem quatro filhos: Ana Paula Rodrigues da Silva, Adalberto Rodrigues da Silva, Marcelo Rodrigues da Silva e Viviane Rodrigues Passos.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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