domingo, 28 de abril de 2019


PEDRINHAS PRECIOSAS: NINGUÉM SEGURA ESSA MENINA
Mônica Mastrantonio

Maria andava cabisbaixa de volta para casa. Já passava do meio dia e caminhava faminta pensando no que iria escrever. A folha em branco dentro da mochila da escola ardia mais do que o sol a pino. No cabeçalho da folha estava escrito: "A história de Itapevi".
Maria não sabia nada sobre aquela cidade. Havia acabado de chegar de "mala e cuia" com sua mãe e irmãos, tinham encontrado ali um lugar para morar e um emprego. Sua mãe, empregada doméstica, fazia o trajeto de ida e volta a São Paulo todo dia e colocava a comida em casa. Só voltava quando já era tarde da noite e eles já estavam prestes a dormir. Maria sempre deixava tudo organizado: comida, lição de casa, banho tomado, louça lavada e guardada. Cansada, dava um beijo de boa-noite na mãe e caía no sono.
As duas acordavam antes de o sol nascer; uma saía para trabalhar e a outra trabalhava em casa. Ambas sem vida fácil. Maria, com seus 14 anos recém-completos, estava começando a se sentir dona do próprio nariz. Tinha jurado a si mesma que não iria seguir nada e nem ninguém; não iria se apaixonar, nem embarrigar, nem "armar o barraco", muito menos ouvir "de dedo" de ninguém. Ela ia ter uma carreira. Isso mesmo: uma carreira! A palavra soava linda aos seus ouvidos: c-a-r-r-e-i-r-a.
Quando sua mãe anunciou que teriam que mudar de Paraguaçu Paulista para Itapevi, Maria sentiu que era o primeiro passo em direção ao seu sonho: o de ter uma carreira jornalística. Maria queria ser repórter, escrever notícias em um Jornal. Entretanto, quando a professora de Português anunciou naquela manhã que deveriam trazer, até o final da semana, uma redação sobre a cidade, Maria viu seu sonho desmoronar. Não sabia o que escrever; nem sequer sabia se sabia escrever. Qualquer repórter que se preze deve, no mínimo, saber escrever uma redação. Ela não sabia.
Chegando em casa, teria que ver se seus irmãos estavam prontos, se tinham comido o que ela havia deixado pronto em cima do fogão, se tinham escovado os dentes, se estavam de uniforme e se a cama estava arrumada. Então, saíam correndo para a escola.
Lá estavam eles: Jonathan e Martina. "Vamos, está na hora! Pegaram o material? Tá tudo em ordem?" Era sempre um alvoroço, eles queriam apostar corrida até a escola, tocavam campainhas no meio do caminho, assobiavam, chutavam pedrinhas na rua. Maria caminhava gritando pouco mais atrás: "Espera, cuidado, olha a rua, isso não".
Eles fingiam não escutar. Ela gritava mais alto: "Se vocês não me obedecerem, soco pimenta na língua de vocês, faço omelete de ovo cru, já sei, passo pasta de dente nos olhos, merda de periquito na lição de casa". Eles riam muito. Ela jamais faria algo contra eles.
Quando se davam conta, já estavam na escola. Ao entrarem, Maria respirava aliviada: "Ufa". Voltava para casa devagar, olhando seus passos, sem se importar com as pessoas à sua volta. Era a única hora do dia que ela não tinha pressa; era quando descansava. Nesse dia, Maria não conseguiu; sabia que na mesa da cozinha, o papel da redação a esperava: "Itapevi: escreva a história da cidade".
Quando entrou em casa, a primeira coisa que fez foi pegar a folha de papel na mão e revirá-la, fitando se estava limpa e pronta para receber a pressão do lápis sobre ela. Ela que não sabia quase nada sobre a cidade, teria que encontrar algo. Talvez fosse melhor dar uma volta, quem sabe ir até a Biblioteca ou Prefeitura. Tinha apenas dois dias para devolver o papel para a professora e o dia seguinte já era quarta-feira.  
Maria conferiu se tinha fechado tudo e, com a chave na mão, deu um click no cadeado, partindo viela abaixo. Era seu primeiro desafio, não tinha outra opção. Foi para a Biblioteca e pediu informações sobre a cidade; leu textos, fez anotações em pequenos pedaços de papel, juntou tudo e guardou no bolso do shorts. Era seu começo, meio amassado, assim mesmo: um começo.
Itapevi significava "pedra chata". Os primeiros habitantes tinham sido os índios e depois, muito tempo depois, chegaram os Portugueses. A cidade, que era considerada um bairro de Cotia, demorou a se emancipar. Foi somente em 1958, com 972 itapevienses dizendo "sim", que conseguiram autonomia como município. Maria não tinha todo esse tempo, precisava agir rápido. "Também não queria ser pedra chata, queria é ser pedra preciosa e brilhar".
Apertou os passos em direção à Prefeitura. Lá viu pela primeira vez o brasão da cidade e a bandeira de Itapevi. Maria não cansava de admirar aquele símbolo nas cores vermelho e verde. Custou para acreditar que aquilo não pertencia a nenhum rei ou rainha. Itapevi, estação de trem da Baronesa, contornando o Rio Barueri Mirim, cheiro de água, chuva e pó; com certeza era mais do que contavam.
Descobriu até uma música feita especialmente para a cidade, o Hino da Emancipação que foi instituído em oito de março de 2004 e dizia assim: "A juventude que hoje canta, jamais se esquece de ti, enaltecendo os pioneiros, desta terra de Itapevi".
A terra que tinha salvado a "pele" de sua família: com abrigo, escola e comida. Maria olhou para o relógio, não tinha mais tempo, voltou correndo para casa. Já sabia como terminar a história, só não sabia como começar. Voltou ofegante, carregando os minúsculos pedaços de papel dentro do bolso e sonhando alto.
Chegando lá, abriu a porta, tirou os pedacinhos de papel e espalhou-os pela mesa. Um quebra-cabeça. Teria que criar uma história com começo, meio e fim. Maria pegou o lápis e começou a escrever: "Sonhos nascem com pedrinhas pequeninas. Os meus nasceram em Itapevi entre pedacinhos de papel, um fogão velho e uma mesa de três pernas". Parou por ali, depois continuaria, era hora de pegar os irmãos na escola. Lá foi ela pela rua afora, saltitando com seu chinelo arrebentado e a cabeça "a mil por hora".
"Ninguém segura essa menina", diziam as pedrinhas que ela encontrava pelo caminho.
"Nem essa cidade", respondi eu!

 Mônica Mastrantonio É Profa. Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP, autora dos livros "Me separei e agora?" pela Chiado Editora, "Justo eu Psicóloga que não acreditava em nada disso" pela Kindle Amazon Store e diversos contos e poesias. Mônica adora viajar, correr e ler, sempre em busca de inspiração para suas próximas histórias.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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