PEDRINHAS PRECIOSAS: NINGUÉM SEGURA ESSA
MENINA
Mônica Mastrantonio
Maria andava cabisbaixa de volta para casa. Já
passava do meio dia e caminhava faminta pensando no que iria escrever. A folha
em branco dentro da mochila da escola ardia mais do que o sol a pino. No
cabeçalho da folha estava escrito: "A história de Itapevi".
Maria
não sabia nada sobre aquela cidade. Havia acabado de chegar de "mala e
cuia" com sua mãe e irmãos, tinham encontrado ali um lugar para morar e um
emprego. Sua mãe, empregada doméstica, fazia o trajeto de ida e volta a São
Paulo todo dia e colocava a comida em casa. Só voltava quando já era tarde da
noite e eles já estavam prestes a dormir. Maria sempre deixava tudo organizado:
comida, lição de casa, banho tomado, louça lavada e guardada. Cansada, dava um
beijo de boa-noite na mãe e caía no sono.
As
duas acordavam antes de o sol nascer; uma saía para trabalhar e a outra
trabalhava em casa. Ambas sem vida fácil. Maria, com seus 14 anos recém-completos,
estava começando a se sentir dona do próprio nariz. Tinha jurado a si mesma que
não iria seguir nada e nem ninguém; não iria se apaixonar, nem embarrigar, nem
"armar o barraco", muito menos ouvir "de dedo" de ninguém.
Ela ia ter uma carreira. Isso mesmo: uma carreira! A palavra soava linda aos
seus ouvidos: c-a-r-r-e-i-r-a.
Quando
sua mãe anunciou que teriam que mudar de Paraguaçu Paulista para Itapevi, Maria
sentiu que era o primeiro passo em direção ao seu sonho: o de ter uma carreira
jornalística. Maria queria ser repórter, escrever notícias em um Jornal.
Entretanto, quando a professora de Português anunciou naquela manhã que
deveriam trazer, até o final da semana, uma redação sobre a cidade, Maria viu
seu sonho desmoronar. Não sabia o que escrever; nem sequer sabia se sabia
escrever. Qualquer repórter que se preze deve, no mínimo, saber escrever uma
redação. Ela não sabia.
Chegando
em casa, teria que ver se seus irmãos estavam prontos, se tinham comido o que
ela havia deixado pronto em cima do fogão, se tinham escovado os dentes, se
estavam de uniforme e se a cama estava arrumada. Então, saíam correndo para a
escola.
Lá
estavam eles: Jonathan e Martina. "Vamos, está na hora! Pegaram o
material? Tá tudo em ordem?" Era sempre um alvoroço, eles queriam apostar
corrida até a escola, tocavam campainhas no meio do caminho, assobiavam,
chutavam pedrinhas na rua. Maria caminhava gritando pouco mais atrás:
"Espera, cuidado, olha a rua, isso não".
Eles
fingiam não escutar. Ela gritava mais alto: "Se vocês não me obedecerem,
soco pimenta na língua de vocês, faço omelete de ovo cru, já sei, passo pasta
de dente nos olhos, merda de periquito na lição de casa". Eles riam muito.
Ela jamais faria algo contra eles.
Quando
se davam conta, já estavam na escola. Ao entrarem, Maria respirava aliviada: "Ufa". Voltava para casa devagar,
olhando seus passos, sem se importar com as pessoas à sua volta. Era a única
hora do dia que ela não tinha pressa; era quando descansava. Nesse dia, Maria
não conseguiu; sabia que na mesa da cozinha, o papel da redação a esperava:
"Itapevi: escreva a história da cidade".
Quando
entrou em casa, a primeira coisa que fez foi pegar a folha de papel na mão e
revirá-la, fitando se estava limpa e pronta para receber a pressão do lápis
sobre ela. Ela que não sabia quase nada sobre a cidade, teria que encontrar
algo. Talvez fosse melhor dar uma volta, quem sabe ir até a Biblioteca ou
Prefeitura. Tinha apenas dois dias para devolver o papel para a professora e o
dia seguinte já era quarta-feira.
Maria
conferiu se tinha fechado tudo e, com a chave na mão, deu um click no cadeado,
partindo viela abaixo. Era seu primeiro desafio, não tinha outra opção. Foi
para a Biblioteca e pediu informações sobre a cidade; leu textos, fez anotações
em pequenos pedaços de papel, juntou tudo e guardou no bolso do shorts. Era seu
começo, meio amassado, assim mesmo: um começo.
Itapevi
significava "pedra chata". Os primeiros habitantes tinham sido os
índios e depois, muito tempo depois, chegaram os Portugueses. A cidade, que era
considerada um bairro de Cotia, demorou a se emancipar. Foi somente em 1958,
com 972 itapevienses dizendo "sim", que conseguiram autonomia como
município. Maria não tinha todo esse tempo, precisava agir rápido. "Também
não queria ser pedra chata, queria é ser pedra preciosa e brilhar".
Apertou
os passos em direção à Prefeitura. Lá viu pela primeira vez o brasão da cidade
e a bandeira de Itapevi. Maria não cansava de admirar aquele símbolo nas cores
vermelho e verde. Custou para acreditar que aquilo não pertencia a nenhum rei
ou rainha. Itapevi, estação de trem da Baronesa, contornando o Rio Barueri
Mirim, cheiro de água, chuva e pó; com certeza era mais do que contavam.
Descobriu
até uma música feita especialmente para a cidade, o Hino da Emancipação que foi
instituído em oito de março de 2004 e dizia assim: "A juventude que hoje
canta, jamais se esquece de ti, enaltecendo os pioneiros, desta terra de
Itapevi".
A
terra que tinha salvado a "pele" de sua família: com abrigo, escola e
comida. Maria olhou para o relógio, não tinha mais tempo, voltou correndo para
casa. Já sabia como terminar a história, só não sabia como começar. Voltou
ofegante, carregando os minúsculos pedaços de papel dentro do bolso e sonhando
alto.
Chegando
lá, abriu a porta, tirou os pedacinhos de papel e espalhou-os pela mesa. Um
quebra-cabeça. Teria que criar uma história com começo, meio e fim. Maria pegou
o lápis e começou a escrever: "Sonhos nascem com pedrinhas pequeninas. Os
meus nasceram em Itapevi entre pedacinhos de papel, um fogão velho e uma mesa
de três pernas". Parou por ali, depois continuaria, era hora de pegar os
irmãos na escola. Lá foi ela pela rua afora, saltitando com seu chinelo
arrebentado e a cabeça "a mil por hora".
"Ninguém
segura essa menina", diziam as pedrinhas que ela encontrava pelo caminho.
"Nem
essa cidade", respondi eu!
Mônica
Mastrantonio – É Profa. Doutora em Psicologia Social pela
PUC/SP, autora dos livros "Me separei e agora?" pela Chiado Editora,
"Justo eu Psicóloga que não acreditava em nada disso" pela Kindle – Amazon Store e diversos contos e poesias.
Mônica adora viajar, correr e ler, sempre em busca de inspiração para suas
próximas histórias.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
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