IDAS E VINDAS
Zaíra Dias de São Miguel
Vim
para Itapevi com 15 anos de idade, com meu pai, minha mãe e os demais irmãos.
Aqui já se encontravam Jandira, Gerson e Adércio, meus irmãos mais velhos;
somos dez irmãos. Viemos e ficamos morando no Cardoso, próximo ao supermercado
Mendonça, que, aliás, existe até hoje, perto da Estação de Amador Bueno.
Meu
pai pagava aluguel nessa casa e depois mudamos para o Jardim São Luiz, próximo
ao Supermercado San, do Cardoso, que naquele tempo ainda não existia. Fomos
todos morar lá, inclusive nossos outros irmãos. Ficamos todos juntos.
Com 15
anos, eu não fazia quase nada para me divertir. Vim do Paraná, onde trabalhava
na roça; aqui era muito diferente! Então eu tinha medo de sair de casa. Depois
de um tempo no Jardim São Luiz, meu pai comprou uma casa no Cardoso, na Rua
Quinze, número 15 e fomos todos morar lá. Minha irmã Jandira se casou e saiu.
Comecei
a trabalhar em casa de família, não como diarista e sim, mensalista. A casa que
eu trabalhava era na Imperatriz Leopoldina (Km11, da ferrovia) e eu ia de trem
todos os dias. Falando do trem, naquele tempo era muito ruim. Chovia dentro,
não tinha banco para sentar, era ruim demais. Voltava à tarde e lembro que as
estações eram de madeira. Acho até que os trens atrasavam menos do que hoje.
Andavam de qualquer jeito. Andavam com portas abertas, sem problemas.
Sentar, raramente. Os bancos eram feitos de
uma espécie de ripas, eu acho, mas faltavam bancos nos vagões. Eu tinha uma
amiga que era minha companhia diariamente. Eu pegava o trem no Cardoso e a
encontrava no Jardim Silveira. Chamava-se Nalva, essa minha amiga. Apesar da precariedade
do trem, era muito legal porque fazíamos muitos amigos. Não é como hoje. Na
volta do trabalho, a gente descia em Osasco para ir ao mercado comprar coisas;
comprar comida. Eu gostava de fazer isso. Tinha um amigo também, daquele tempo,
chamava-se Mauro e vínhamos juntos no trem. Hoje
ele trabalha numa lojinha de celular aqui em Itapevi.
No
final de semana, o local que eu frequentava era onde hoje é a caixa d’água. Era
um terreno enorme, vazio, sem cerca, só terra. E eu passava o dia de domingo
ali, com um monte de crianças, minhas irmãs, a Silvana e outras pessoas que não
lembro o nome agora. Ficávamos conversando um monte de coisas. Frequentávamos
também a feira aqui do centro de Itapevi, no Jardim da Rainha. Vínhamos a pé,
voltávamos a pé e acabava sendo um divertimento.
Depois que meu pai comprou a casa no Cardoso,
foi embora para o Belém do Pará e levou meu irmão mais novo, o Élcio. Foi um pouco triste, porque meu irmão não
queria ir e foi chorando. Meu pai não gostava muito de Itapevi.
Quando cheguei do Paraná, estranhei, porque no
Cardoso havia várias casas perto, e eu achei muito estranho. Estava acostumada
nos sítios, no Paraná, onde a casa mais próxima ficava bem distante e, ao
encontrar casas muito perto uma das outras, sentia-me sem privacidade. Saía ao
portão, dava de cara com pessoas! Esquisito! Estranhei também a comida. Era
muito diferente da que a gente comia na roça. O arroz, feijão, cozinhar com
óleo; era muito ruim o sabor! Depois me acostumei.
Também
não consegui dar sequência ao meu estudo porque tinha que trabalhar. Consegui
completar o fundamental através do E.J.A.
No
Paraná, meu pai pegava sítio para trabalhar como empreiteiro e, quando acabava
o serviço, ia pra outro sítio; aí não dava pra permanecer na escola. Até para o
Paraguai nós fomos! Eu tinha 8 anos. Meu pai ganhou um sítio grande e lá fomos
nós. Não durou muito e, depois de um ano, voltamos para o Paraná.
Mas
gosto demais de Itapevi! Quando ouço alguém falar mal daqui, tenho vontade de
esganar! Fiquei 17 anos sem ver meu pai, depois que foi para Belém.
Quando
fiz 18 anos, arrumei um namorado durante as festas juninas que aconteciam na
Igreja Medianeira, no Cardoso, o Amauri. Ficamos namorando um ano mais ou menos
e depois acabou não dando certo. O Antonio, meu marido hoje, era amigo do Amauri.
Eles se conheciam na igreja. Quando eu conheci o Amauri na igreja, o Antonio já
ficava de olho em mim. Ficava na estação, lendo e me dando umas olhadas. Eu
ficava incomodada pra caramba e muito braba. Depois de um tempo começamos a
namorar no trem. Ele trabalhava, não lembro onde, sei que pegava trem. E aí
aconteceu de começarmos a namorar. Namoramos um ano, ficamos noivos mais um e
depois nos casamos.
Quando
me casei, fui morar em um cômodo que tinha no quintal da minha mãe. Na ocasião
minha mãe foi encontrar-se com meu pai em Belém. Só estava esperando eu me
casar pra poder ir. As outras irmãs já tinham tomado seu rumo, ficando eu e a
Nêga. Passei para a casa principal, onde minha mãe morava e a Nêga ficou no
cômodo em que eu tinha morado. Como ficávamos fora durante o dia, aconteceu de
ladrões entrarem e levar um monte de coisas nossas.
O
Antonio já tinha o terreno onde moro atualmente e todos os finais de semana
vínhamos a pé para trabalhar no terreno. Construímos um barraco de madeira, com
dois cômodos. No local, onde hoje é minha casa, fizemos uma horta, com alface,
maxixe, couve. Era enorme a horta! Até feijão a gente colhia! Na época, o
Antonio trabalhava na Madeirite, no Jardim Belval, e ganhamos, do dono, as
telhas e as madeiras pra construir o barraco.
Comecei
a trabalhar, somente alguns dias, como diarista, até para ter tempo de
trabalhar no terreno. Quando fizemos alguns cômodos de alvenaria, passamos do
barraco para eles e, no barraco, veio morar a irmã do Antonio, minha cunhada
Conceição, com o marido. Na verdade, esse terreno era do Antonio e da
Conceição. Eu e o Antonio compramos também outro terreno
aqui perto e, com algumas divisões, ficou acertado que este terreno seria do
Antonio. Coisas de imóveis.
Vizinhos
eram pouquíssimos. Tinha a Iolanda, o Cacau, e mais algumas casas somente. Tudo
mato e barranco! Quando chovia as ruas ficavam todas cheias de buracos. Onde
hoje é o Parque Suburbano, cuja vista da pra ver bem daqui, havia umas duas ou
três casas somente. Era só barranco, morros, e terras. Era tranquilo, pois se
podia sair aqui do barraco, deixar ferramentas e outras coisas espalhadas e ninguém
mexia. Quando o Antonio começou a fazer parte do trabalho antialcoólico, a
gente andava pra cima e pra baixo com as peruas da prefeitura que nos levavam
para as outras sedes. Hoje tenho meus
filhos todos comigo e me sinto feliz em ter conseguido chegar onde
cheguei.
Zaíra
Dias de São Miguel – Nascida
em 10 de outubro de 1963, na cidade de Pérola, Paraná, mora em Itapevi desde
1979. Casada com Antonio Pereira de São Miguel, filha de Cesário Modesto Dias e
de Glinaura Maria da Conceição Dias. Filhos: Raphael Dias de São Miguel e Ana
Paula Dias de São Miguel.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
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