MUDANÇA TOTAL
Maria de Fátima Nunes Moreira (Lia)
Minha
história começa com a vinda de meu marido, do estado da Paraíba para São Paulo,
em busca de melhoria de vida. Veio sozinho para procurar emprego e se
estruturar até que eu e meus filhos também pudéssemos nos juntar a ele. É bom que
se diga que, pra nós, São Paulo era o local onde não havia dificuldades. Tudo
era muito fácil e maravilhoso. A visão que muita gente do Nordeste ainda tem é
essa.
Chegou
a Itapevi no ano de 1986, na casa de meu cunhado que já morava aqui e
trabalhava na Padaria Roberta, na COHAB. Chegou no domingo e, na segunda-feira,
foi apresentado ao dono da padaria pelo meu cunhado, onde fez um pequeno teste
para padeiro, sendo aprovado de imediato.
Já
empregado, depois de seis meses mandou-me dinheiro para que eu pudesse vir. Vim
com meus filhos, Gerôncio, Geana, Doca e Ana Paula e meu sobrinho Rômulo com a
esposa, recém-casados. Depois tive o Renan que nasceu aqui e é Itapeviense.
Vim
morar na casa onde meu marido já morava, de propriedade do dono da padaria. Cheguei
a Itapevi com aquela visão de que aqui ninguém passava dificuldades, ganhava-se
dinheiro fácil. Fiquei decepcionada. Passei dificuldades por não conhecer
ninguém, pela maneira de falar diferente. Meu marido ganhava pouco e era
insuficiente para cuidar de mim e das crianças. Houve época em que nós fazíamos
somente uma refeição por dia. Todos ficaram doentes por não estar acostumados
com a temperatura. O frio nos afetava demais!
Eu
tinha dificuldades para me fazer compreender. O linguajar diferente. Às vezes,
mandava um de meus filhos comprar algo e eles voltavam dizendo que não tinha.
Eu dizia: – Como não tem? Passei lá ontem e vi na prateleira! Como exemplo,
posso citar quando precisei de grampos para cabelo, que na minha terra damos o
nome de friso. Imagine o menino chegando ao mercado e querendo uma dúzia de
frisos! Eu tinha que mostrar o que eu queria. Necessitei de cabides, e fui
procurar ombreiras; ninguém sabia o que era. E assim outras palavras que não
compreendiam aqui.
Demorou
bastante para eu me acostumar. Pensei em trabalhar, mas sou muito apegada a
meus filhos e não os deixaria para outra pessoa tomar conta. Então decidi viver
para criá-los. O costume, as amizades, tudo diferente. Era como se eu estivesse
em outro país! Achei as pessoas daqui muito fechadas. Logo que cheguei
aconteceu a primeira enchente que inundou toda minha casa! Perdemos todos os
móveis! Uma vez por ano há que se comprar móveis novos.
Na
minha terra, comparando com aqui, eu vivia no céu! Achei Itapevi muito feia,
muito mato; parecia uma chácara! No Norte, eu era professora, trabalhava
registrada, tinha um bom salário, meus filhos estudavam no Instituto Rita
Suassuna, escola modelo em Taperoá. Saí de lá pra podermos ficar todos juntos;
ter a família reunida. Aos finais de semana, saía com meus filhos e meu marido
para conhecer a cidade. Andar de trem e metrô, ir ao Anhangabaú, à Praça da Sé, onde ficávamos horas, Jardim da Luz. Esse
era meu passeio.
Aqui
em Itapevi, eu ia muito à COHAB. Achava parecido com minha cidade no Nordeste.
Bastante agitação, rádios ligados por todo lado, muita gente andando pra cima e
pra baixo. Era muito mais divertido do que aqui na vila onde moro até hoje.
Na rua
havia poucos vizinhos, muitos sapos e mato. Os vizinhos eram o Homero, Miriam,
Ana, Nice, seu Francisco, seu João, Luzinete, Isabel. Minhas crianças brincavam
o dia inteiro no quintal de casa, com portão aberto, saindo e voltando sem
problema nenhum. A filha da Miriam, a Ana Gloria, enquanto ela e o Pedrinho
trabalhavam, ficava comigo, brincando com minhas crianças até a Miriam voltar.
Nos
finais de ano, esses vizinhos se reuniam para comemorar. Montava-se uma mesa no
meio da rua e cada um trazia um prato de comida. Acontecia o mesmo na época de
festa junina. Enfeitávamos a rua com bandeirinhas e preparávamos as comidas
para, à noite, colocar na mesa, junto com as outras dos vizinhos. Às vezes
convidávamos um amigo mais próximo para participar da nossa festa. Com o tempo,
as coisas foram mudando, chegando mais gente e aí não se tinha mais a mesma
proximidade entre os vizinhos. Para minha família não saber que São Paulo não
era tudo “bonito” como se pensava, eu não contava nada.
Mas
agora eu vivo bem. Meus filhos estão todos bem e meu marido conseguiu,
recentemente, realizar o sonho de se formar em Direito.
Itapevi,
nos dias de hoje, eu considero muito bom pra se morar. Cresceu muito e tem
muitas firmas que oferecem oportunidades de emprego, o que antes não ocorria.
Não saio daqui nem pra voltar para minha terra. Tudo é muito perto: comércio,
Pronto Socorro, transporte, igreja. E tenho muita esperança que vai melhorar
mais ainda!
Hoje,
Itapevi, pra mim, tem tudo o que eu preciso. Gosto daqui.
Maria
de Fátima Nunes Moreira –
Nascida em 30 de março de 1955, na cidade de Itaperoá, Paraíba. Veio para
Itapevi no ano de 1986, casada com Francisco Moreira da Silva. Filhos: Gerôncio
Nunes Moreira, Gilvandro Nunes Moreira, Geana Nunes Moreira, Ana Paula Nunes
Moreira e Paulo Renan Nunes Moreira.
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