terça-feira, 9 de abril de 2019


MINHAS LEMBRANÇAS
Justino Ferreira dos Santos (Tino)

Nasci em maio de 1951. Portanto, tenho 66 anos, vividos no bairro Jardim Portela, em Itapevi.
Minha história começa quando meu pai resolve sair de Sorocaba para viver aqui em Itapevi. Nasci aqui nesta casa, na Rua São Paulo. Comecei a aproveitar a vida aos 6 ou 7 anos, período escolar. Fiz o primeiro ano no Grupo Escolar Marechal Cândido Rondon que, na época, era onde hoje é a Praça 18 de Fevereiro.
Os dois próximos anos fiz no Grupo Escolar Dr. Raul Briquet, onde hoje é a rotatória da Cohab. E, por fim, o último ano eu fiz nessa mesma escola, mas em novo prédio, na Rua Escolástica Chaluppe, também conhecida como rua da feira.
Eu cabulava muita aula para ir ao rio nadar. Para ir à escola, saía da minha casa pelos fundos, atravessava um “triozinho” que dava na linha férrea e pegava um trole (espécie de prancha de madeira com as rodas sobre trilhos), indo até o final, perto do campo da prefeitura.
Na “biquinha”, a gente pegava água para encher a caixa de casa. Meu pai saía para trabalhar e já avisava: – Quando chegar, quero ver a caixa cheia! A criançada se reunia e, com balde, ia buscar água até encher a caixa. Tinha que ser antes do pai chegar do serviço.
Quando íamos buscar a compra no armazém, era o mesmo esquema. Todos nós carregávamos algo. Fazíamos uma fila na estrada; parecia uma carreira de formigas! Desde o menor até o maior, todos carregavam alguma coisa. Às vezes, quando dava, meu pai pagava o Ditinho Carroceiro pra levar a compra. Na compra vinha tudo de bom!
Minhas brincadeiras, quando pequeno, eram mais no quintal. Depois, eu, o Chiquinho, o Adalberto, o Pedrinho e o Ayrton, todos juntos, começamos a debandar de casa. Brincadeiras eram no rio, no campo e no mato, que era o que não faltava!
O campo da época era um campo oficial que tinha perto da casa do “Dez” (Não sei o nome dele. A gente o conhecia por Dez). Ele tinha uma cachorra igual à Lassie do filme, chamada Marusca, que entrava no meio do nosso jogo e acabava com ele. Pegava a bola e quem disse que ela devolvia!
 Em frente a minha casa, aqui na Rua São Paulo, nos divertimos muito! Lembro-me da primeira bicicleta que o Pedrinho e o Ayrton ganharam, uma Monark vermelha. Eles a traziam aqui e a gente ficava andando até o fim da rua e depois voltava para dar vez a outro. Ficávamos andando de bicicleta até escurecer.
A brincadeira com papagaio (pipa), quando não havia cortante como hoje, era ver quem conseguia fazê-lo ir mais longe, mais alto.
Nessa mesma rua a gente brincava de guerra de mamona, arco e flecha feita de vareta de guarda-chuva, bolinha de gude e rolar tambor. Rolar tambor merece uma explicação. Meu pai tinha um tambor grande de 200 litros e, como o fundo enferrujou, pediu pra que o jogássemos fora, no meio do mato. Mas aí surgiu a ideia de fazer uma brincadeira com esse tambor. Cada vez um entrava nele, que era empurrado ladeira abaixo no meio do mato. Quando batia numa cerca, no final da ladeira, ele parava. Imagine!
Havia cinco eucaliptos em frente de casa, que serviam de suporte pra fazer as balanças. No chão, a gente rodava muito pião e fazia as “bucas” para jogar bolinha. Carrinho de rolimã? Nossa! Quantos a gente fazia! E o aro que vivíamos empurrando com uma espécie de vareta de arame! Carrinhos feitos de lata, com uma ou várias delas! Pernas de pau com lata! Sem falar que subir e descer em barrancos eram nossa especialidade. Ao lado da minha casa, existia um barranco que, cavoucando, deixava à mostra uma espécie de argila com camadas de cores diferentes, verde, vermelha, amarela, que a gente aproveitava pra fazer figuras esculpidas. Artistas!
O que marcou muito foi quando seu Pedro Corrêa, chegando do serviço, parou no bar e promoveu uma corrida para a molecada, fazendo distribuição de balas como prêmio!
Certa vez, brincando de me pendurar em cipós, um não aguentou meu peso e arrebentou! Em baixo, esperando eu cair, tinha um tronco grosso de mamona que havia caído e eu bati minhas costas bem no meio dele. Perdi a voz, não conseguia respirar. Levaram-me pra casa e naquele dia não houve mais brincadeira.
Existia um cipó rasteiro e comprido que dava um ótimo laço para as brincadeiras de boiadeiro; para laçar os moleques menores que nós.
Qualquer brincadeira que estivesse acontecendo era deixada imediatamente de lado quando chegava a hora de assistir, na TV em preto e branco, os desenhos do Thor, Príncipe Submarino, Hulk, etc. No início, assistia na casa do Cirilo, filho do seu Orestes, depois meu pai comprou uma televisão e passamos a assistir em casa.
Uma vez meu pai comprou uma espécie de um quadrado plástico transparente que era colocado na frente do televisor para que ficasse com imagens coloridas. Era um tal de céu verde, rosto vermelho, roupas amarelas e outras cores! Era muito engraçado! 
A gente inventava muitas brincadeiras! Mais tarde, já com 16, 17 anos, começamos a ir aos bailinhos que aconteciam nas casas. Na Rua Sorocaba, onde o Dudu morava, no porão da Tota, no sobrado, na casa do Walter Braga, onde, aliás, aconteceu uma encrenca porque o pessoal do Jardim da Rainha queria entrar no baile, na marra. E em outras casas; onde houvesse bailinho, lá estávamos nós.
Os parquinhos, todos os circos, festas juninas na igreja matriz, cinema do Pereira, onde era possível trocar muitos gibis – Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Fantasma, Cheyenne, etc.
Dos 13 anos até os 16, eu andava Itapevi inteiro. Não parava quieto. Saía de manhã e voltava só à noite. Minha mãe deixava a porta da cozinha encostada com uma cadeira pra que eu pudesse entrar. Não havia preocupação de maneira nenhuma. Minha mãe deixava a sacola pendurada na porta e o Zé Padeiro passava cedinho, deixando os pães e o leite.
Sei que não devemos ter apego a coisas materiais, mas esta casa aqui, que eu ajudei a trazer pedras enormes lá da rua até aqui em baixo, e o lugar com seus barrancos e ruas, difícil não sentir apego.
Lembro-me que o trem branco, quando passava na estação, enroscava uma argola em um poste que ficava próximo à linha, e eu ficava curioso! Resolvi perguntar a um bilheteiro o porquê daquela argola e ele me explicou que eram recados que vinham da central. Eram colocados naquela argola, com avisos que se faziam necessários aos funcionários da estação ou ao maquinista. Enfim, era um meio de comunicação. Também existia o telégrafo! Tinha vários postinhos com dois fios beirando a linha que ia até Mairinque.
Do lado da casa do chefe da estação, havia uma caixa d’água enorme, com uma mangueira para abastecer o trem e a máquina a vapor, que quando jogava a água quente, fazia um barulhão e subia um vapor forte que me dava medo! Eu não chegava perto!
Sempre trabalhei para ganhar uns trocados. Lavava telhas, vendia laranja e mexerica no campo de futebol. Mais chupava do que vendia! Depois, meu pai achou que eu estava muito preguiçoso e falou com o Vitor, gerente do Frigorífico Itapevi.
Num domingo, estava eu no bar do seu João reunindo o pessoal pra irmos ao campinho, quando o Vitor passou e disse: – Sobe no carro Tino! Fui para o frigorífico e fiquei quase uma semana sem vir pra casa. Era muito serviço! Comecei a fazer os cabeçalhos nas notas fiscais, utilizando carbono. Não era mole não! Depois de aprender a lidar com as máquinas calculadoras, passei a fazer as notas fiscais. Fui Faturista. Muito bom trabalhar lá! Os patrões eram todos muito bons! Muito trabalho, porém era divertido e prazeroso!
Eu não trocaria minha infância e vida aqui em Itapevi por coisa nenhuma. Eu era muito feliz! Que vida boa que eu tive! Casei, separei, fui para Casa Branca e voltei pra Itapevi.

Justino Ferreira dos Santos – Nascido em Itapevi, em 1o de maio de 1951, onde mora até hoje. Filho de Juventino Ferreira dos Santos e de Isabel Corrêa Camargo. Tem três filhos: Patrícia Ferreira dos Santos (em memória), Sandro Ferreira dos Santos e Renato Ferreira dos Santos. Em 1967, iniciou sua carreira profissional no frigorífico de Itapevi.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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