MINHA VIDA EM ITAPEVI
Bernadete do Carmo Rocha
Nasci
na zona norte, em São Paulo, e vim para Itapevi com 28 anos. Tinha feito a
inscrição para adquirir um apartamento na COHAB, apesar de eu não querer vir,
porque minha família é toda da zona norte e eu achava muito longe morar aqui em
Itapevi. Estava grávida de meu primeiro filho e insisti em não vir. Acabei por
perder o apartamento para o qual tinha feito a inscrição, porque não fui mais
atrás.
Mas eu
não tinha casa e precisava comprar uma. Meu marido, Renato, veio para Itapevi à
procura de uma casa ou apartamento e acabou por encontrar um apartamento na
COHAB. Demos um jeito de arranjar o dinheiro para comprá-lo e eu acabei por vir
morar onde não queria. O apartamento ficava próximo de onde hoje é a Escola
Estadual Paulo da Costa Pan Chacon.
Com
dois filhos pequenos, Tiago e Tauan, nos mudamos para esse apartamento e, como
eu não trabalhava fora, cuidava da casa e das crianças.
Então,
nós começamos a sair, andar pelo bairro, pra conhecer e nos familiarizarmos com
o lugar. Nós íamos muito com as crianças ao morro perto da Escola Inês Amélia,
onde tinha areia que as crianças gostavam muito de brincar nela; elas o
chamavam de morro da areia fininha. E lá perto tinha também uma esteira muito
alta, de ferro, que as crianças também gostavam de brincar nela e que, depois
de um tempo, eu descobri que ali tinha sido uma pedreira, e aquela esteira
levava as pedras pra cima para separá-las.
Na
verdade, eu não queria vir pra Itapevi, apenas porque era longe da minha
família. Eu chorava muito! Toda minha família na zona norte e só eu aqui!
Mas
aqui eu estudei, me formei e fui me adaptando. Fiz o magistério no Colégio
Estadual de Itapevi (CEI) e, antes de terminar, prestei concurso para trabalhar
na prefeitura e passei. Trabalhei como monitora durante sete anos, fiz
faculdade de Pedagogia, prestei concurso novamente na prefeitura, dessa vez
para professora, e passei. Isso tudo em Itapevi, pra onde eu não queria vir!
Quando eu vim pra cá, era bem diferente. Aos
finais de semana íamos para a casa da minha família na zona norte. Antes da
construção da Escola Monteiro Lobato, o local era um campo de futebol, o
Grêmio, do seu Valdir. Meus filhos, conforme foram crescendo, se divertiam
muito nos arredores do prédio; não havia muros e o espaço era muito bom.
Aí
comecei a trabalhar na Creche Doce Vida, no Alto da Colina, e levava meus
filhos pra ficar comigo. Meu marido chegava muito tarde em casa porque
trabalhava no centro de São Paulo e eu me sentia sozinha. Quando comecei a
fazer o Magistério no C.E.I, tive que me mudar para o Durvalino, em Jandira.
Com o
tempo, as mudanças foram acontecendo e comecei a me sentir acolhida pela
cidade. Acredito que muitas coisas boas existem em Itapevi. A linha de ônibus,
por exemplo, passa em frente ao prédio onde eu morava. Quando saio, ao
retornar, a condução me deixa na porta de casa. Tem também o Fórum, o Centro de
Reabilitação, os shows e comícios
na praça em frente ao Centro de Reabilitação, o passeio ciclístico, tudo ali
dentro da COHAB ou nas proximidades.
Hoje
tem muita gente. Carro demais. Trânsito. Terrível! Tenho muita saudade do
teatro que havia onde hoje é a Secretaria da Educação. Bem estruturado,
poltronas superconfortáveis, espaço enorme, bem localizado. Era um bom teatro!
Pena que acabou. Meus filhos frequentaram muito o Centro Integrado de Educação
Física (CIEF), próximo à Escola Benvindo. Tinha capoeira, basquete, etc.
De
uma forma geral, Itapevi me deu condições de criar meus filhos, trabalhar e
fazer minha vida. Não posso reclamar.
Quase
nunca precisei utilizar o trem como meio de transporte, mas me lembro de um dia
que precisava levar um dinheiro proveniente da venda de produtos tupperware e
passei por uma situação complicada. Estava eu sentada, estudando, fazendo um
trabalho de história, quando veio um menino e puxou a minha bolsa, no que eu
imediatamente a segurei também puxando. Apareceu outro rapaz, armado com um
revólver. Pegou minha bolsa, tirou tudo, mas não encontrou o dinheiro que
estava dentro de um talão de cheques. Eu tive sorte, mas levaram dinheiro de
muitas pessoas que tinham acabado de receber salários. Fiquei traumatizada. Uma
situação muito difícil!
Estávamos morando na COHAB, quando foi oferecida,
aos funcionários da prefeitura, a possibilidade de comprar casa no condomínio
onde moro hoje. Foi dada a preferência aos funcionários. Acabamos por comprar e
é ótimo morar aqui! Como vou reclamar de Itapevi? Hoje, estamos no céu! Moramos
em um lugar tranquilo e sossegado, mas sem nenhuma reclamação do tempo em que
moramos na COHAB. Afinal, meus filhos cresceram lá, fizeram muitas amizades e
foram muito felizes.
Consegui
muitas coisas em Itapevi. Claro que existem algumas coisas que eu não gosto,
por exemplo, a sujeira. É uma questão de educação, de conscientização. Itapevi
deixa muito a desejar nesse sentido. E as enchentes? Lembro
uma vez em que fui ao centro de Itapevi buscar meus filhos; choveu e a rua
encheu d’água. Eu, carregando um espelho grande e tomando conta de meus filhos,
foi uma aventura!
Apesar
de não ter querido vir morar em Itapevi, pra mim, foi muito significativo vir
pra cá. Amo tudo que ela me deu e agradeço tudo o que consegui dela. Foi bacana
minha trajetória!
Bernadete do Carmo Rocha –
Nasceu em São Paulo, zona norte. Professora. Mora em Itapevi desde 1990, tem
dois filhos, Tiago Rocha Luiz e Flavio Taun Rocha. Casada com Renato José
Baptista Luiz, trabalha na Prefeitura Municipal de Itapevi.
Texto
do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e
disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
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