segunda-feira, 29 de abril de 2019


ITAPEVI, CIDADE DAS ROSAS
Nelson Pedro da Silva

Meus pais moravam em Campo Largo, São Paulo, e quando minha mãe, grávida, estava nos dias finais da gestação, foram para Bragança Paulista, onde nasci. Posteriormente, meu pai pediu transferência de onde trabalhava para se fixar em Bragança. Trabalhou na Estrada de Ferro Bragantina, como manobrador, onde também fui trabalhar como estagiário, aos meus 15 anos de idade.
Certa feita, quando eu estava limpando as rodas de um trem, para pintura, um manobrador fez uma manobra errada e eu, como estava sentado com os pés nos trilhos, tive um dos dedos de meu pé amputado. Fui efetivado na ferrovia no ano de 1966; no começo de 1967, a ferrovia Bragantina foi fechada e os funcionários foram transferidos para a Estrada de Ferro Sorocabana. Alguns foram para cidades do interior e eu e meu pai fomos para Barra Funda. Meu pai para trabalhar nas locomotivas e eu na manutenção de caminhões e ônibus.
 Alugamos um quarto aqui em Itapevi, na atual Rua Agostinho Ferreira Campos, que então era só um “triozinho”, onde havia uma vertente e de onde pegávamos água para abastecer nossa casa. Chegando do trabalho, antes de vir para casa, meu pai passava na Padaria do Mazito para comprar pães e salaminho, que então era mais barato que a mortadela, para fazermos lanches. Fazia o café no coador de pano; comíamos e às 20 horas já estávamos dormindo.
Em 1967, o restante da família, que tinha ficado em Bragança, veio para Itapevi, morar em uma casa alugada, próximo de onde hoje é o Shopping de Itapevi. Não havia ainda a rodovia Castelo Branco e a mudança teve que vir por Cotia para chegar a Itapevi.
Como meu pai já tinha comprado um terreno, do corretor Célio, terreno esse ao lado de onde hoje é a oficina do Brenha, aos finais de semana procurávamos mantê-lo limpo. A Avenida Presidente Vargas era toda de terra; onde hoje é a Caixa Econômica, era uma granja de um japonês; onde é o Correio, o Yamada comprou para fazer um armazém. Não havia ainda o colégio C.E.I. (Colégio Estadual de Itapevi).
Com 17 anos, trabalhando de segunda a sábado, aos domingos eu e meus irmãos saíamos andando pelas ruas; íamos pescar no rio e lagoas próximo ao campo da prefeitura.
Quando construí dois cômodos e um banheiro, onde moro hoje, vim morar aqui. Na frente era um quintal enorme, de terra, onde meus filhos brincavam demais. Num canto comecei a criar galinha, coelho e plantava alguma coisa também.
Na época eu tinha dois filhos. O Laerte e o Leandro. Determinada ocasião, um colega que tinha uma moto ÍNDIA 500 cc pediu pra que eu desse uma volta na moto, no que respondi que nem de bicicleta sabia andar direito, quanto mais numa moto daquele tamanho. Mas peguei a moto e fui pela Presidente Vargas até a altura da casa do cunhado do Osmar, que foi prefeito, onde resolvi fazer a volta e me perdi nessa operação, entrando pelo quintal adentro da referida casa. Derrubei a cerca e mais o que tinha pelo caminho. Nunca mais quis andar de moto.
Outra história, no mínimo interessante é, quando a caminho do trabalho, carregando uma bolsa grande de napa, fui atacado por um galo – talvez porque eu estivesse correndo – que saiu da casa de uma mulher e, com a espora, furou a minha mala. Quando minha mãe viu a bolsa rasgada e perguntou o que tinha acontecido, respondi: – Fui atacado por um galo! Difícil de acreditar!
Curioso também é quando a gente pegava o subúrbio que vinha de Mairinque, o “dez para as seis”, com suas poltronas vermelhas e manejáveis e com bagageiros, onde eram colocadas as bolsas com marmitas. Muitas vezes, quando estávamos sentados tranquilamente, cochilando nos bancos que ficavam nas laterais, sentíamos pingar, em nosso colo, caldo de feijão ou outro líquido que fizesse parte da marmita de alguém. Com o solavanco, as bolsas se movimentavam e às vezes alguma marmita não bem tampada, virava e derramava.
Existia um trem com um vagão que carregava até bichos e na parte onde o chefe de trem ficava, eram colocadas as marmitas de trabalhadores de várias estações. Essas marmitas, enviadas pelas esposas, eram entregues a cada um, em seus respectivos destinos.
Construímos uma casa no terreno ao lado do Brenha, para onde mudamos ainda com chão batido como piso. Acabei por fazer o colégio técnico em Osasco, na escola Fernão Dias. Para se divertir nos reuníamos na Praça Carlos de Castro para conversar, paquerar. Cinema do Pereira, parques, quermesses que aconteciam todos os anos e circos eram também nossa diversão. Onde agora é a rodoviária, a gente montava barraca da Igreja Cristo Rei para arrecadar fundos. Costumava ir também, aos domingos, à casa do Ayrton e do Pedrinho para consertar seus carros. Passava o dia todo lá. Trocava lonas de freio, trocava velas, mexia no carburador. Às vezes frequentava a casa de um amigo, próximo onde hoje está a câmara Municipal, para jogar truco, buraco.
Certa vez, quando do casamento do meu amigo Daniel, fomos buscar o bolo do casamento com uma Kombi, em São João Novo e, ao retornar, o bolo que estava no colo dos irmãos do Daniel, por uma freada mais forte, já chegando onde seria a festa, virou no colo de todos eles, fazendo a maior sujeira!
Conheci o Irineu, filho do chefe da estação, que também foi trabalhar com a gente na ferrovia. Uma vez ele comprou um garrafão de vinho lá de São Roque e disse que iria levar para seus pais. Saímos do trabalho na Barra Funda e, ao entrarmos no trem, começamos a beber o vinho. Quando chegamos a Itapevi, ele estava bem “ruinzão”. Não quis companhia até sua casa. Não sei como chegou até lá. Só sei que chegou com o garrafão pela metade.
E a vez que eu e meu irmão mais velho, na véspera do natal de 1968 ou 1969, não me lembro bem, decidimos ir até a pastelaria do japonês, que ficava onde hoje é a farmácia Drogasil, próximo à Praça Carlos de Castro, para tomar cerveja. Quanto custa a cerveja? Custa “tanto”, respondeu o balconista. Procuramos nos bolsos e o dinheiro não dava pra tomar nem uma cerveja. Então me dê uma garrafa de água mineral com gás. E voltamos pra casa sem tomar cerveja.
Eu me casei em 1982 e fui morar atrás de onde hoje é o Ambulatório Médico de Especialidades (AME), na Presidente Vargas. Em 1987 compramos o terreno onde moro hoje. Logo em seguida fui demitido da empresa, por justa causa, por ter participado de uma greve considerada ilegal. Fiquei cinco anos longe da Fepasa, recebendo um salário mínimo, por ser estatutário. Antes de ser mandado embora da empresa, tinha comprado um fusquinha 1984 zero quilômetro. Tirei pelo consórcio. Como fui mandado embora, tive que vender o fusquinha para meu cunhado.
 Falando de carro, também tive um Perfet ou Prefet, não sei bem, quatro portas, verde, seis cilindros, da Ford, com partida a manivela. Cada vez de dar partida, arrancava o couro da mão!
Às vezes tenho vontade de sair de Itapevi por causa do barulho que existe agora. Mas gosto muito daqui. Antigamente era muito mais sossegado. Frequentávamos o Supermercado do Camarotto, mercado do Chico; poucas opções, mas muita tranquilidade. Mas Itapevi é um bom lugar pra se morar. 

Nelson Pedro da Silva – Nascido em 1o de março de 1950, na cidade de Bragança Paulista. Casado com Ana Maria Santi da Silva. Filho de Hermínio Pedro da Silva e Virgínia dos Santos Silva. Filhos: Leandro Pedro Santi da Silva, formado em Farmácia e Laerte Pedro Santi da Silva, em Engenharia Mecatrônica, Chegou a Itapevi no ano de 1967, onde mora até hoje.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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