ITAPEVI, CIDADE DAS ROSAS
Nelson Pedro da Silva
Meus
pais moravam em Campo Largo, São Paulo, e quando minha mãe, grávida, estava nos
dias finais da gestação, foram para Bragança Paulista, onde nasci.
Posteriormente, meu pai pediu transferência de onde trabalhava para se fixar em
Bragança. Trabalhou na Estrada de Ferro Bragantina, como manobrador, onde
também fui trabalhar como estagiário, aos meus 15 anos de idade.
Certa
feita, quando eu estava limpando as rodas de um trem, para pintura, um
manobrador fez uma manobra errada e eu, como estava sentado com os pés nos
trilhos, tive um dos dedos de meu pé amputado. Fui efetivado na ferrovia no ano
de 1966; no começo de 1967, a ferrovia Bragantina foi fechada e os funcionários
foram transferidos para a Estrada de Ferro Sorocabana. Alguns foram para
cidades do interior e eu e meu pai fomos para Barra Funda. Meu pai para
trabalhar nas locomotivas e eu na manutenção de caminhões e ônibus.
Alugamos um quarto aqui em Itapevi, na atual
Rua Agostinho Ferreira Campos, que então era só um “triozinho”, onde havia uma
vertente e de onde pegávamos água para abastecer nossa casa. Chegando do
trabalho, antes de vir para casa, meu pai passava na Padaria do Mazito para
comprar pães e salaminho, que então era mais barato que a mortadela, para
fazermos lanches. Fazia o café no coador de pano; comíamos e às 20 horas já
estávamos dormindo.
Em
1967, o restante da família, que tinha ficado em Bragança, veio para Itapevi,
morar em uma casa alugada, próximo de onde hoje é o Shopping de Itapevi. Não
havia ainda a rodovia Castelo Branco e a mudança teve que vir por Cotia para
chegar a Itapevi.
Como
meu pai já tinha comprado um terreno, do corretor Célio, terreno esse ao lado
de onde hoje é a oficina do Brenha, aos finais de semana procurávamos mantê-lo
limpo. A Avenida Presidente Vargas era toda de terra; onde hoje é a Caixa
Econômica, era uma granja de um japonês; onde é o Correio, o Yamada comprou
para fazer um armazém. Não havia ainda o colégio C.E.I. (Colégio Estadual de
Itapevi).
Com 17
anos, trabalhando de segunda a sábado, aos domingos eu e meus irmãos saíamos
andando pelas ruas; íamos
pescar no rio e lagoas próximo ao campo da prefeitura.
Quando
construí dois cômodos e um banheiro, onde moro hoje, vim morar aqui. Na frente
era um quintal enorme,
de terra, onde meus filhos brincavam demais. Num canto comecei a criar galinha,
coelho e plantava alguma coisa também.
Na
época eu tinha dois filhos. O Laerte e o Leandro. Determinada ocasião, um
colega que tinha uma moto ÍNDIA 500 cc pediu pra que eu desse uma volta na
moto, no que respondi que nem de bicicleta sabia andar direito, quanto mais
numa moto daquele tamanho. Mas peguei a moto e fui pela Presidente Vargas até a
altura da casa do cunhado do Osmar, que foi prefeito, onde resolvi fazer a
volta e me perdi nessa operação, entrando pelo quintal adentro da referida
casa. Derrubei a cerca e mais o que tinha pelo caminho. Nunca mais quis andar
de moto.
Outra
história, no mínimo interessante é, quando a caminho do trabalho, carregando
uma bolsa grande de napa, fui atacado por um galo – talvez porque eu estivesse
correndo – que saiu da casa de uma mulher e, com a espora, furou a minha mala.
Quando minha mãe viu a bolsa rasgada e perguntou o que tinha acontecido,
respondi: – Fui atacado por um galo! Difícil de acreditar!
Curioso
também é quando a gente pegava o subúrbio que vinha de Mairinque, o “dez para
as seis”, com suas poltronas vermelhas e manejáveis e com bagageiros, onde eram
colocadas as bolsas com marmitas. Muitas vezes, quando estávamos sentados
tranquilamente, cochilando nos bancos que ficavam nas laterais, sentíamos
pingar, em nosso colo, caldo de feijão ou outro líquido que fizesse parte da
marmita de alguém. Com o solavanco, as bolsas se movimentavam e às vezes alguma
marmita não bem tampada, virava e derramava.
Existia
um trem com um vagão que carregava até bichos e na parte onde o chefe de trem
ficava, eram colocadas as marmitas de trabalhadores de várias estações. Essas
marmitas, enviadas pelas esposas, eram entregues a cada um, em seus respectivos
destinos.
Construímos
uma casa no terreno ao lado do Brenha, para onde mudamos ainda com chão batido
como piso. Acabei por fazer o colégio técnico em Osasco, na escola Fernão Dias.
Para se divertir nos reuníamos na Praça Carlos de Castro para conversar,
paquerar. Cinema do Pereira, parques, quermesses que aconteciam todos os anos e
circos eram também nossa diversão. Onde agora é a rodoviária, a gente montava
barraca da Igreja Cristo Rei para arrecadar fundos. Costumava ir também, aos
domingos, à casa do Ayrton e do Pedrinho para consertar seus carros. Passava o
dia todo lá. Trocava lonas de freio, trocava velas, mexia no carburador. Às
vezes frequentava a casa de um amigo, próximo onde hoje está a câmara
Municipal, para jogar truco, buraco.
Certa
vez, quando do casamento do meu amigo Daniel, fomos buscar o bolo do casamento
com uma Kombi, em São João Novo e, ao retornar, o bolo que estava no colo dos
irmãos do Daniel, por uma freada mais forte, já chegando onde seria a festa,
virou no colo de todos eles, fazendo a maior sujeira!
Conheci
o Irineu, filho do chefe da estação, que também foi trabalhar com a gente na
ferrovia. Uma vez ele comprou um garrafão de vinho lá de São Roque e disse que
iria levar para seus pais. Saímos do trabalho na Barra Funda e, ao entrarmos no
trem, começamos a beber o vinho. Quando chegamos a Itapevi, ele estava bem
“ruinzão”. Não quis companhia até sua casa. Não sei como chegou até lá. Só sei
que chegou com o garrafão pela metade.
E a
vez que eu e meu irmão mais velho, na véspera do natal de 1968 ou 1969, não me
lembro bem, decidimos ir até a pastelaria do japonês, que ficava onde hoje é a
farmácia Drogasil, próximo à Praça Carlos de Castro, para tomar cerveja. Quanto
custa a cerveja? Custa “tanto”, respondeu o balconista. Procuramos nos bolsos e o dinheiro não dava
pra tomar nem uma cerveja. Então me dê uma garrafa de água mineral com gás. E
voltamos pra casa sem tomar cerveja.
Eu me
casei em 1982 e fui morar atrás de onde hoje é o Ambulatório Médico de Especialidades
(AME), na Presidente Vargas. Em 1987 compramos o terreno onde moro hoje. Logo
em seguida fui demitido da empresa, por justa causa, por ter participado de uma
greve considerada ilegal. Fiquei cinco anos longe da Fepasa, recebendo um
salário mínimo, por ser estatutário. Antes de ser mandado embora da empresa,
tinha comprado um fusquinha 1984 zero quilômetro. Tirei pelo consórcio. Como
fui mandado embora, tive que vender o fusquinha para meu cunhado.
Falando de carro, também tive um Perfet ou Prefet,
não sei bem, quatro portas, verde, seis cilindros, da Ford, com partida a
manivela. Cada vez de dar partida, arrancava o couro da mão!
Às
vezes tenho vontade de sair de Itapevi por causa do barulho que existe agora.
Mas gosto muito daqui. Antigamente era muito mais sossegado. Frequentávamos o
Supermercado do Camarotto, mercado do Chico; poucas opções, mas muita
tranquilidade. Mas Itapevi é um bom lugar pra se morar.
Nelson
Pedro da Silva –
Nascido em 1o de março de 1950, na cidade de Bragança Paulista.
Casado com Ana Maria Santi da Silva. Filho de Hermínio Pedro da Silva e
Virgínia dos Santos Silva. Filhos: Leandro Pedro Santi da Silva, formado em
Farmácia e Laerte Pedro Santi da Silva, em Engenharia Mecatrônica, Chegou a
Itapevi no ano de 1967, onde mora até hoje.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
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