O
REENCONTRO
Miriam Paixão Corrêa
Nasci na cidade vizinha, Jandira, e mudei-me
para Itapevi em 1976. Minha mãe mudou-se para morar em frente à Praça 18 de
Fevereiro e eu fiquei morando com meus irmãos em Jandira, até que resolvi,
mesmo podendo continuar morando com meus irmãos, vir com ela. Depois de alguns
meses, minha mãe comprou um terreno na Vila Nova Itapevi, onde construiu e eu
continuei a morar com ela.
Quando
vim morar na “Vila do Sapo”, que era o nome que a gente dava ao Bairro, também
me adaptei rapidinho. Apesar dos sapos, pererecas, brejo e mato, gostei demais!
Mesmo tendo saído de um local onde havia asfalto e luz elétrica e vindo para um
local onde nem luz tinha. Porque eu amei Itapevi, gostei demais da Praça 18 de
Fevereiro, da estação de trem; é como se eu já tivesse morado aqui. Gostei
demais!
A
primeira casa que surgiu na rua foi a da minha mãe e, assim, fiquei morando no
meio do mato, sem luz, sem asfalto, sem rua até, mas não me incomodava.
Trabalhava em São Paulo, na época, no Bom Retiro, na Rua dos Italianos. Depois
fui trabalhar em Barueri, num escritório de Engenharia, de propriedade do
Fernando Mencaroni, como recepcionista.
Eu
amava, quer dizer, amo Itapevi! Divertia-me no CJC, circos, cinema do Pereira,
bailes que existiam no salão da Prefeitura. Nesse salão eu adorava ir com minha
prima Suzi, que vinha de Pinheiros pra gente ir juntas. Ia muito num parquinho
no Jardim Santa Rita, onde hoje é a creche municipal. A gente ia a pé! Adorava
fazer piquenique na Roselândia, onde existia o que a gente chamava de floresta
negra, bem em frente. Havia também uma turminha de colegas que andava de moto.
O Pixoxó, o Bêne, a Ivone, o Amauri, enfim, e alguns meninos que trabalhavam
numa quitanda na Presidente Vargas. Tinha também um autoelétrico, se bem me
recordo, era uma turminha legal. Andávamos em Itapevi, íamos pra Vargem Grande,
Pirapora, Aparecida,
às vezes para Interlagos, fazíamos piquenique. Era muito divertido!
O
fato de não ter luz não me incomodava muito, porque havia um vizinho na rua
detrás que nos emprestava a luz. O difícil era sair de madrugada, no escuro, e
voltar também tarde da noite, na escuridão, porque, depois do trabalho, eu ia
pra escola em Carapicuíba. Eu tinha uma vida muito ativa e nem dava pra pensar
em dificuldades. Aos sábados fazia hora extra e aos domingos cuidava da casa,
então as dificuldades eram superadas e eu nem percebia.
Uma
das dificuldades era a enchente. Quando minha mãe comprou o terreno, não avisaram
que acontecia. Lembro que em determinada ocasião veio o Luiz Braga e Walter
dizendo que iriam socorrer a mim e ao Pedrinho, por causa da enchente; que não
nos deixariam morrer afogados! Foi um corre-corre danado e muito divertido,
porque a gente ria demais! Eu, o Luizinho e o Walter, tentando pegar os bichos
pra socorrer; os porquinhos, pintainhos, galinhas, e era
uma correria só, no meio d’água, com muitas gargalhadas.
Outra
vez, apareceu um bombeiro com um barco e com uma corda amarrada na cintura,
pedindo pra gente sair de casa, porque iam soltar uma represa não sei onde e
que iria alagar tudo. Pedia encarecidamente pra gente sair. Estava com mais
medo do que nós. No final tudo dava certo.
Nas
vindas da escola foi que aconteceu o reencontro com o Pedrinho. Eu estava vindo
da Escola e ele vinha de Osasco, onde estudava, na época. Encontramo-nos no
ônibus. O Pedrinho estava sentado. A última vez que nos encontramos eu tinha 5
anos, mais ou menos, porque ele frequentava minha casa em Jandira e era muito
amigo de minha irmã.
Como
eu estava dizendo, eu entrei no ônibus em Carapicuíba e ele estava sentado,
fingindo que dormia, pra não ceder lugar. Nem meus cadernos e minha bolsa pediu
pra segurar! Depois ele disse que estava realmente dormindo, mas eu não
acredito não. Os encontros no ônibus aconteceram várias vezes, mas ele sempre
só me cumprimentava com o olho e nem se importava comigo. Aí, conversando com
minha irmã, disse: – Encontrei seu amigo Pedrinho e ele não me reconheceu, ou
fez pouco caso de mim! Acho até que ele nem se lembra de mim! Até que um dia
ele pediu para segurar meus cadernos e minha bolsa, (mas não ofereceu o lugar!),
e puxou conversa comigo. Daí ele perguntou: – Você não é a Miriam, irmã da
Claudete, é? Eu respondi: – Sou eu mesma! E ele: – Putz! Nossa! Como você
cresceu! Depois disso, prometi a minha irmã que iria namorar, “ganhar” o
Pedrinho. Riu muito e disse: – Duvido! Imagine que o Pedrinho vai querer
namorar com você! Vou sim, você vai ver, eu disse. Quer apostar? Ela duvidou e então
fizemos uma aposta. Caso eu conseguisse, ela teria que me dar um LP da Maria
Bethânia, Álibi. Bendita
aposta! Ganhei o disco e ganhei ele! Quando minha família ficou sabendo que a
gente estava namorando, ficaram muito felizes porque gostavam muito do
Pedrinho. Gente boa, por isso estou com ele até hoje.
Quando
ficamos noivos, ele me comprou uma aliança que cabiam três dedos juntos!
Mandou-me um buquê de flores (palma), que não cabia dentro do fusca! Quanto
mais ele tirava o buquê, mais saía de dentro do fusca! Ele me disse, depois,
que foi a moça da floricultura que escolheu, porque ele pediu um buquê de
flores para comemorar um noivado. Quando entrei em casa, foi um reboliço pra
encontrar baldes pra colocar tudo aquilo de palmas! Depois me deu um sapato
preto que trançava nas pernas, muito bonito, só que eu calçava trinta e quatro
e ele me deu trinta e sete!
Aí,
nos casamos em 1980. Voltei a estudar, fiz curso de auxiliar de enfermagem,
trabalhei nas clínicas do Dr. Aniz e do Dr. Laurindo, em Cotia, e no Pronto
Socorro Municipal de Itapevi. Quando a Vitória nasceu, eu parei de trabalhar
porque ela era prematura e precisava de muita atenção. Nessa época, eu continuava a fazer meu
serviço de voluntária,
que sempre fiz, pedindo, inclusive, ajuda a meus amigos no que fosse possível,
como doação de móveis e roupas.
Ajudei
a Dirce, da Kolping Cristo Rei, fazendo quermesses, bingos e outros eventos
para arrecadar fundos. Depois, fui ser Voluntária no Grupo Espírita Maria de Magdala,
no Grupo Espírita Fonte Viva, no Comitê da Solidariedade; aí eu já era casada.
Fazíamos visitas a casas e hospitais; levava enxoval para bebês, quando
inaugurou o Hospital Geral de Itapevi.
Em
2004, me tornei fundadora presidente da ONG Núcleo de Orientação São Francisco
de Assis, onde até hoje minha família toda é voluntária. Em 2008, formamos um
Grupo de Estudos Espíritas, o que resultou na necessidade de formar um Centro
Espírita que denominamos de Centro Espírita São Francisco de Assis.
Digo
para todo mundo que sou filha de Itapevi! Essa cidade me adotou e eu só tenho
que agradecer! Repito, eu amo Itapevi! Itapevi é minha vida! Foi aqui que
construí minha família, foi aqui que me encontrei. Fui recebida de Braços
abertos e procuro fazer o que posso para retribuir. Acho que faço muito pouco.
Faz quarenta e um anos que sou voluntária em Itapevi.
Quando
me mudei pra cá, eu iniciei auxílio àqueles que estavam chegando à Vila Nova
Itapevi e que não tinham estudo. Formei um grupo com o Glicério, o seu João,
dona Maria e mais algumas pessoas que vieram do nordeste, que eram analfabetos,
e comecei a alfabetizá-los em minha casa. Depois comprei um esfigmomanômetro e
comecei a medir pressão arterial daqueles que me procuravam. Era uma forma que
encontrei para ajudar também, assim eles não precisavam ir até o PS.
Hoje,
tenho minha filha Ana Glória, formada em Administração de Empresas, casada, mãe
de Laura Maria, e a Vitória, que hoje tem 19 anos, funcionária concursada da
Prefeitura e estudante de Letras.
Depois
de tudo isso, só tenho que agradecer. Muitas pessoas boas que passaram na minha
vida, às quais também sou muita grata. Tenho amigos que acreditam no meu
trabalho e ajudam de uma maneira ou de outra. Estou com 37 anos de casada e
muito feliz.
Miriam
Paixão de Oliveira Corrêa – Nascida em Jandira, em 8
de maio de 1963, mora em Itapevi desde 1976. Filha de Valdemar Santos de
Oliveira e de Ana Clara da Paixão da Silva. Casada com Pedro Virgílio Corrêa
Filho. Tem duas filhas, Ana Gloria Corrêa e Vitória Paixão Corrêa. É presidente
fundadora da ONG Núcleo de Orientação São Francisco de Assis.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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