segunda-feira, 1 de abril de 2019


O REENCONTRO
Miriam Paixão Corrêa
Nasci na cidade vizinha, Jandira, e mudei-me para Itapevi em 1976. Minha mãe mudou-se para morar em frente à Praça 18 de Fevereiro e eu fiquei morando com meus irmãos em Jandira, até que resolvi, mesmo podendo continuar morando com meus irmãos, vir com ela. Depois de alguns meses, minha mãe comprou um terreno na Vila Nova Itapevi, onde construiu e eu continuei a morar com ela.
Quando vim morar na “Vila do Sapo”, que era o nome que a gente dava ao Bairro, também me adaptei rapidinho. Apesar dos sapos, pererecas, brejo e mato, gostei demais! Mesmo tendo saído de um local onde havia asfalto e luz elétrica e vindo para um local onde nem luz tinha. Porque eu amei Itapevi, gostei demais da Praça 18 de Fevereiro, da estação de trem; é como se eu já tivesse morado aqui. Gostei demais!
A primeira casa que surgiu na rua foi a da minha mãe e, assim, fiquei morando no meio do mato, sem luz, sem asfalto, sem rua até, mas não me incomodava. Trabalhava em São Paulo, na época, no Bom Retiro, na Rua dos Italianos. Depois fui trabalhar em Barueri, num escritório de Engenharia, de propriedade do Fernando Mencaroni, como recepcionista.
Eu amava, quer dizer, amo Itapevi! Divertia-me no CJC, circos, cinema do Pereira, bailes que existiam no salão da Prefeitura. Nesse salão eu adorava ir com minha prima Suzi, que vinha de Pinheiros pra gente ir juntas. Ia muito num parquinho no Jardim Santa Rita, onde hoje é a creche municipal. A gente ia a pé! Adorava fazer piquenique na Roselândia, onde existia o que a gente chamava de floresta negra, bem em frente. Havia também uma turminha de colegas que andava de moto. O Pixoxó, o Bêne, a Ivone, o Amauri, enfim, e alguns meninos que trabalhavam numa quitanda na Presidente Vargas. Tinha também um autoelétrico, se bem me recordo, era uma turminha legal. Andávamos em Itapevi, íamos pra Vargem Grande, Pirapora, Aparecida, às vezes para Interlagos, fazíamos piquenique. Era muito divertido!
O fato de não ter luz não me incomodava muito, porque havia um vizinho na rua detrás que nos emprestava a luz. O difícil era sair de madrugada, no escuro, e voltar também tarde da noite, na escuridão, porque, depois do trabalho, eu ia pra escola em Carapicuíba. Eu tinha uma vida muito ativa e nem dava pra pensar em dificuldades. Aos sábados fazia hora extra e aos domingos cuidava da casa, então as dificuldades eram superadas e eu nem percebia.
Uma das dificuldades era a enchente. Quando minha mãe comprou o terreno, não avisaram que acontecia. Lembro que em determinada ocasião veio o Luiz Braga e Walter dizendo que iriam socorrer a mim e ao Pedrinho, por causa da enchente; que não nos deixariam morrer afogados! Foi um corre-corre danado e muito divertido, porque a gente ria demais! Eu, o Luizinho e o Walter, tentando pegar os bichos pra socorrer; os porquinhos, pintainhos, galinhas, e era uma correria só, no meio d’água, com muitas gargalhadas.
Outra vez, apareceu um bombeiro com um barco e com uma corda amarrada na cintura, pedindo pra gente sair de casa, porque iam soltar uma represa não sei onde e que iria alagar tudo. Pedia encarecidamente pra gente sair. Estava com mais medo do que nós. No final tudo dava certo.
Nas vindas da escola foi que aconteceu o reencontro com o Pedrinho. Eu estava vindo da Escola e ele vinha de Osasco, onde estudava, na época. Encontramo-nos no ônibus. O Pedrinho estava sentado. A última vez que nos encontramos eu tinha 5 anos, mais ou menos, porque ele frequentava minha casa em Jandira e era muito amigo de minha irmã.
Como eu estava dizendo, eu entrei no ônibus em Carapicuíba e ele estava sentado, fingindo que dormia, pra não ceder lugar. Nem meus cadernos e minha bolsa pediu pra segurar! Depois ele disse que estava realmente dormindo, mas eu não acredito não. Os encontros no ônibus aconteceram várias vezes, mas ele sempre só me cumprimentava com o olho e nem se importava comigo. Aí, conversando com minha irmã, disse: – Encontrei seu amigo Pedrinho e ele não me reconheceu, ou fez pouco caso de mim! Acho até que ele nem se lembra de mim! Até que um dia ele pediu para segurar meus cadernos e minha bolsa, (mas não ofereceu o lugar!), e puxou conversa comigo. Daí ele perguntou: – Você não é a Miriam, irmã da Claudete, é? Eu respondi: – Sou eu mesma! E ele: – Putz! Nossa! Como você cresceu! Depois disso, prometi a minha irmã que iria namorar, “ganhar” o Pedrinho. Riu muito e disse: – Duvido! Imagine que o Pedrinho vai querer namorar com você! Vou sim, você vai ver, eu disse. Quer apostar? Ela duvidou e então fizemos uma aposta. Caso eu conseguisse, ela teria que me dar um LP da Maria Bethânia, Álibi. Bendita aposta! Ganhei o disco e ganhei ele! Quando minha família ficou sabendo que a gente estava namorando, ficaram muito felizes porque gostavam muito do Pedrinho. Gente boa, por isso estou com ele até hoje.
Quando ficamos noivos, ele me comprou uma aliança que cabiam três dedos juntos! Mandou-me um buquê de flores (palma), que não cabia dentro do fusca! Quanto mais ele tirava o buquê, mais saía de dentro do fusca! Ele me disse, depois, que foi a moça da floricultura que escolheu, porque ele pediu um buquê de flores para comemorar um noivado. Quando entrei em casa, foi um reboliço pra encontrar baldes pra colocar tudo aquilo de palmas! Depois me deu um sapato preto que trançava nas pernas, muito bonito, só que eu calçava trinta e quatro e ele me deu trinta e sete!
Aí, nos casamos em 1980. Voltei a estudar, fiz curso de auxiliar de enfermagem, trabalhei nas clínicas do Dr. Aniz e do Dr. Laurindo, em Cotia, e no Pronto Socorro Municipal de Itapevi. Quando a Vitória nasceu, eu parei de trabalhar porque ela era prematura e precisava de muita atenção.  Nessa época, eu continuava a fazer meu serviço de voluntária, que sempre fiz, pedindo, inclusive, ajuda a meus amigos no que fosse possível, como doação de móveis e roupas.
Ajudei a Dirce, da Kolping Cristo Rei, fazendo quermesses, bingos e outros eventos para arrecadar fundos. Depois, fui ser Voluntária no Grupo Espírita Maria de Magdala, no Grupo Espírita Fonte Viva, no Comitê da Solidariedade; aí eu já era casada. Fazíamos visitas a casas e hospitais; levava enxoval para bebês, quando inaugurou o Hospital Geral de Itapevi. 
Em 2004, me tornei fundadora presidente da ONG Núcleo de Orientação São Francisco de Assis, onde até hoje minha família toda é voluntária. Em 2008, formamos um Grupo de Estudos Espíritas, o que resultou na necessidade de formar um Centro Espírita que denominamos de Centro Espírita São Francisco de Assis.
Digo para todo mundo que sou filha de Itapevi! Essa cidade me adotou e eu só tenho que agradecer! Repito, eu amo Itapevi! Itapevi é minha vida! Foi aqui que construí minha família, foi aqui que me encontrei. Fui recebida de Braços abertos e procuro fazer o que posso para retribuir. Acho que faço muito pouco. Faz quarenta e um anos que sou voluntária em Itapevi.
Quando me mudei pra cá, eu iniciei auxílio àqueles que estavam chegando à Vila Nova Itapevi e que não tinham estudo. Formei um grupo com o Glicério, o seu João, dona Maria e mais algumas pessoas que vieram do nordeste, que eram analfabetos, e comecei a alfabetizá-los em minha casa. Depois comprei um esfigmomanômetro e comecei a medir pressão arterial daqueles que me procuravam. Era uma forma que encontrei para ajudar também, assim eles não precisavam ir até o PS.
Hoje, tenho minha filha Ana Glória, formada em Administração de Empresas, casada, mãe de Laura Maria, e a Vitória, que hoje tem 19 anos, funcionária concursada da Prefeitura e estudante de Letras.
Depois de tudo isso, só tenho que agradecer. Muitas pessoas boas que passaram na minha vida, às quais também sou muita grata. Tenho amigos que acreditam no meu trabalho e ajudam de uma maneira ou de outra. Estou com 37 anos de casada e muito feliz.

Miriam Paixão de Oliveira Corrêa Nascida em Jandira, em 8 de maio de 1963, mora em Itapevi desde 1976. Filha de Valdemar Santos de Oliveira e de Ana Clara da Paixão da Silva. Casada com Pedro Virgílio Corrêa Filho. Tem duas filhas, Ana Gloria Corrêa e Vitória Paixão Corrêa. É presidente fundadora da ONG Núcleo de Orientação São Francisco de Assis.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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