sábado, 6 de abril de 2019


EM BUSCA DA ESPERANÇA
Antonio Pereira de São Miguel

Vim do Paraná morar em Itapevi no ano de 1978. Já passávamos por certas dificuldades no Paraná, trabalhando na roça, quando aconteceu uma seca de dezembro de 1977 a março de 1978, ocasionando a perda de nossas plantações. O que salvou a situação foi a colheita de milho, mas como minhas duas irmãs mais velhas, Efigênia e Maria (Doca),  já moravam aqui em Itapevi, meu pai resolveu vir com todo o resto da família para morar com elas.
Construiu um barraco de madeira no quintal da Efigênia, onde nos acomodamos todos os nove, num barraco de Madeirit com dois cômodos pequenos! Ficamos todos embolados. Um vizinho da Efigênia insistiu para que eu colocasse luz no barraco, por toda lei! Vanderlei o nome dele. Foi quando liguei a primeira lâmpada, na vida.
 Não estranhei a cidade de Itapevi, pois onde morava, no Paraná, era uma vila em que já havia colégio de primeiro grau, igreja, um time de futebol, luz elétrica, por exemplo; então não estranhei. Na verdade, o que me causou estranheza foi eu ter achado que o sol estava nascendo do lado errado.
Na ocasião em que meu pai esteve aqui visitando minhas irmãs, os genros dele, Paulo e Adalberto, disseram pra ele vir morar aqui que teria emprego garantido. Eu, com 19 anos, fui indicado por um amigo para ir a uma empresa no Bairro da Cruz Preta, em Barueri. Cheguei na hora em que os funcionários saíam para o almoço e o guarda me atendeu dizendo que realmente tinha serviço; e foi me mostrar como era. Era uma fundição com várias fornalhas. Aquele fogo todo e o guarda me dizendo que ali era coisa de doido. Desisti. Fui trabalhar na empresa de ônibus Himalaia, como cobrador. Fiquei 28 dias só. Eu queria estudar e o horário do trabalho não me dava essa possibilidade.
No Paraná eu estudava e ao entrar na Escola Dr. Raul Briquet achei de uma inferioridade absurda. Eu estranhei demais. Lá, em Capitão Leônidas Marques/PR, era um estudo participativo, proveitoso, mas aqui... Os alunos eram rebeldes, brigavam, não tinham educação.
Como eu chegava em casa à meia-noite e meia, levantava-me às três horas para pegar o “negreiro”, aquele ônibus que buscava os cobradores e motoristas para levar à garagem, eu tinha muito sono durante o dia. Aí eu não aguentei. Também não conciliava com a escola que, como disse, já era muito ruim. Enrolava-me nos trocos também.
Fiquei 28 dias, saí e entrei na COMABRA (Wilson), na área operacional. E eu sempre quis trabalhar na área administrativa. Fiquei três meses somente. Depois, a gente não podia comer um nadinha pra completar nossa marmita. Ah! E aquela linguiça Josefina...! Fui para uma companhia de ar condicionado, onde fiquei um ano e alguns meses. No primeiro dia, fui para a USP com o engenheiro e, se ele não me pagasse o almoço, eu estava ferrado! Não tinha um tostão! Serviu de aprendizado; nunca mais saí sem marmita. Nessa, CEBEC, eu pedi a conta porque eu queria estudar e o horário não permitia. Eu queria completar o segundo grau.
Com o dinheiro recebido, comprei todo o material necessário para construir a casa no terreno que meu pai tinha. Depois de uns três meses, mais ou menos, saímos do barraco e mudamos para a casa construída.
Nesse mesmo tempo, matriculei-me no Colégio Padre Anchieta, em Osasco, para fazer o supletivo do 2º grau e já trabalhava no Banco Bradesco, na Cidade de Deus. Como eu saía do serviço às duas horas, ficava na biblioteca até dar o horário de ir para o colégio. Na ocasião de uma greve da CUT, eu não fui trabalhar e fui dispensado com os demais faltantes.
No estudo, fiz o técnico em contabilidade no Padre Anchieta, depois de ter tentado em outras escolas e não ter gostado. Ao sair do Bradesco, fui trabalhar no Supermercado Real, em Alphaville, aí já na parte administrativa, onde aprendi pra caramba! Xerox, operador de telex, cobrança e, tudo que tinha pra aprender, eu aprendi.
Como o salário era pouco, procurei outro emprego e fui trabalhar numa empresa de transportes de entrega de documentos. Geograficamente conheci muitos países, muitos locais! Quem muito lê, muito sabe, muito vê, diz o ditado! Através das faturas, conheci muito! Fiquei seis meses nessa empresa. Fiquei constrangido, pois quem trabalhava lá eram todos da mesma família; só eu era de fora.
Depois, lá fui eu pra Madeirit, no Jardim Belval, onde fiquei sete anos e meio. Quando a Madeirit fechou, eu fui trabalhar na Larmod, onde fiquei 18 anos. Ali sim eu gostava de trabalhar, pois meu sonho se concretizou. Tinha minha sala, onde ficava sozinho fazendo meu trabalho. Com a crise, não pude mais continuar na Larmod e saí.
Nunca fui de me divertir. No primeiro domingo, quando cheguei em Itapevi, fui ver um jogo de futebol do Caveira F.C. e fiquei decepcionado. Era briga, empurrões, xingamentos, pessoas usando drogas, um futebol quadrado, meu Deus do céu! De repente, olhei pra frente e vi a torre da igreja Medianeira, onde tocava a música do Padre Zezinho. Pensei: não vou ficar aqui nessa confusão não!
Saí e fui direto pra igreja. Comecei a participar do grupo de jovens, na época do Padre Giovani, e minha diversão era trabalhar na igreja onde eu ficava aos sábados e domingos. Conheci todas as igrejas daqui. Todo mês havia a “Tolotréia” (que até hoje não sei o que significa), mas era o encontro mensal da pastoral da Juventude. Era o encontro das comunidades de jovens das paróquias de vários municípios. Era muito bom! Na minha primeira palestra, na igreja de Ambuitá, isso em 1980, mais ou menos, consegui falar duas palavras e depois travei.
 Nunca fui muito namorador. Conheci uma menina, a Lurdes Figueiredo, e pedi pra ela ser minha namorada. Ela aceitou na hora e eu fiquei sem saber o que fazer! E agora? Pensei eu. Na verdade eu tinha uma tendência a ser padre, o que não aconteceu, graças a Deus! Só tive três namoradas. Antes mesmo de eu ter uma namorada, já tinha minha casa em mente. Estava tudo formado na minha mente! Foi quando eu vi a Zaira, na estação do Cardoso, aquela morena magra, magrela mesmo, cabelos compridos, pretos. Eu sabia que era essa. Aí começamos a namorar, nem sei como. Fui à casa dela e oficializamos. O mais difícil foi pedi-la em casamento. Mas casamos. Graças à lista que os amigos do mercado Real fizeram e mais o corte da gravata, fomos passar a lua de mel na praia José Menino, em Santos.
Eu vivia sempre sem dinheiro quando solteiro! Nunca tive dinheiro pra levar a Zaira a uma lanchonete. Aliás, até hoje ela reclama disso. Eu pagava o colégio e o terreno. Enfim, não sobrava quase nada. Tinha comprado o terreno em sociedade com meu tio Antonio. Depois de seis meses aconteceu a correção da ORTN, disparando o valor das parcelas e meu tio desistiu do terreno. Acabei por entrar em um acordo com a imobiliária Sabará e fiquei com o terreno. Chamei minha irmã Conceição e entramos em sociedade. Depois acabei por ficar com o terreno só pra mim. Fiz minha casa e moro aqui até hoje.
Adoro Itapevi! Não saio daqui nem na marra! Em Itapevi estou em casa e sou feliz!

Antonio Pereira de São Miguel – Nasceu em 20/9/1959 na cidade de Itamarandiba (Penha de França). Filho de Pedro C. São Miguel e Ana Pereira de Jesus. Veio para Itapevi em julho de  1978. (39 anos atrás) Filhos: Ana Paula, Raphael e Samanta. Três netos.
Texto do livro “Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br

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