EM BUSCA DA ESPERANÇA
Antonio Pereira de São Miguel
Vim
do Paraná morar em Itapevi no ano de 1978. Já passávamos por certas
dificuldades no Paraná, trabalhando na roça, quando aconteceu uma seca de
dezembro de 1977 a março de 1978, ocasionando a perda de nossas plantações. O que salvou a situação
foi a colheita de milho, mas como minhas duas irmãs mais velhas, Efigênia e
Maria (Doca), já moravam aqui em
Itapevi, meu pai resolveu vir com todo o resto da família para morar com elas.
Construiu
um barraco de madeira no quintal da Efigênia, onde nos acomodamos todos os
nove, num barraco de Madeirit
com dois cômodos pequenos! Ficamos todos embolados. Um vizinho da Efigênia insistiu para que eu colocasse luz no barraco, por toda
lei! Vanderlei o nome dele. Foi quando liguei a primeira lâmpada, na
vida.
Não estranhei a cidade de Itapevi, pois onde morava,
no Paraná, era uma vila em que já havia colégio
de primeiro grau,
igreja, um time de futebol, luz elétrica, por exemplo; então não
estranhei. Na verdade, o que me causou estranheza foi eu ter achado que o sol
estava nascendo do lado errado.
Na
ocasião em que meu pai esteve aqui visitando minhas irmãs, os genros dele,
Paulo e Adalberto, disseram pra ele vir morar aqui que teria emprego garantido. Eu,
com 19 anos, fui indicado por um amigo para ir a uma empresa no Bairro da Cruz
Preta, em Barueri. Cheguei na hora em que os funcionários saíam para o almoço e
o guarda me atendeu dizendo que realmente tinha serviço; e foi me mostrar como
era. Era uma fundição com várias fornalhas. Aquele fogo todo e o guarda me
dizendo que ali era coisa de doido. Desisti. Fui trabalhar na empresa de ônibus
Himalaia, como cobrador. Fiquei 28 dias só. Eu queria estudar e o horário do
trabalho não me dava essa possibilidade.
No
Paraná eu estudava e ao entrar na Escola Dr. Raul Briquet achei de uma
inferioridade absurda. Eu estranhei demais. Lá, em
Capitão Leônidas Marques/PR, era
um estudo participativo, proveitoso, mas aqui... Os alunos eram rebeldes, brigavam,
não tinham educação.
Como
eu chegava em casa à meia-noite e meia, levantava-me às três horas para pegar o
“negreiro”, aquele ônibus que buscava os cobradores e motoristas para levar à
garagem, eu tinha muito sono durante o dia. Aí eu não aguentei. Também não
conciliava com a escola que, como disse, já era muito ruim. Enrolava-me nos
trocos também.
Fiquei
28 dias, saí e entrei na COMABRA (Wilson), na área operacional. E eu sempre
quis trabalhar na área administrativa. Fiquei três meses somente. Depois, a
gente não podia comer um nadinha pra completar nossa marmita. Ah! E aquela
linguiça Josefina...! Fui para uma companhia de ar condicionado, onde fiquei um
ano e alguns meses. No primeiro dia, fui para a USP com o engenheiro e, se ele
não me pagasse o almoço, eu estava ferrado! Não tinha um tostão! Serviu de
aprendizado; nunca mais saí sem marmita. Nessa,
CEBEC, eu pedi a conta porque eu queria estudar e o
horário não permitia. Eu queria completar o segundo grau.
Com o
dinheiro recebido, comprei todo o material necessário para construir a casa no
terreno que meu pai tinha. Depois de uns três meses, mais ou menos, saímos do
barraco e mudamos para a casa construída.
Nesse
mesmo tempo, matriculei-me no Colégio Padre Anchieta,
em Osasco, para fazer o supletivo do 2º grau e já
trabalhava no Banco Bradesco, na Cidade de Deus. Como eu saía do serviço às
duas horas, ficava na biblioteca até dar o horário de ir para o colégio. Na ocasião de uma greve da CUT, eu não fui
trabalhar e fui dispensado com os demais faltantes.
No
estudo, fiz o técnico em contabilidade no Padre Anchieta, depois de ter tentado
em outras escolas e não ter gostado. Ao sair do Bradesco, fui trabalhar no
Supermercado Real, em Alphaville, aí já na parte administrativa, onde aprendi
pra caramba! Xerox, operador de telex,
cobrança e, tudo que tinha pra aprender, eu aprendi.
Como o
salário era pouco, procurei outro emprego e fui trabalhar numa empresa de
transportes de entrega de documentos.
Geograficamente conheci muitos países, muitos locais! Quem muito lê, muito
sabe, muito vê, diz o ditado! Através das faturas, conheci muito! Fiquei seis
meses nessa empresa. Fiquei constrangido, pois quem trabalhava lá eram todos da
mesma família; só eu era de fora.
Depois,
lá fui eu pra Madeirit, no Jardim Belval, onde fiquei sete anos e meio. Quando
a Madeirit fechou, eu fui trabalhar na Larmod, onde fiquei 18 anos. Ali sim eu
gostava de trabalhar, pois meu sonho se concretizou. Tinha minha sala, onde ficava
sozinho fazendo meu trabalho. Com a crise, não pude mais continuar na Larmod e
saí.
Nunca
fui de me divertir. No
primeiro domingo, quando cheguei em Itapevi,
fui ver um jogo de futebol do Caveira F.C. e fiquei decepcionado. Era
briga, empurrões, xingamentos, pessoas usando drogas, um futebol quadrado, meu
Deus do céu! De repente, olhei pra frente e vi a torre da igreja Medianeira,
onde tocava a música do Padre Zezinho. Pensei:
não vou ficar aqui nessa confusão não!
Saí e
fui direto pra igreja. Comecei a participar do grupo de jovens, na época do
Padre Giovani, e minha diversão era trabalhar na igreja onde eu ficava aos
sábados e domingos. Conheci todas as igrejas daqui. Todo mês havia a
“Tolotréia” (que até hoje não sei o que significa), mas era o encontro mensal da pastoral
da Juventude. Era o encontro das
comunidades de jovens
das
paróquias
de vários municípios. Era muito bom! Na minha primeira palestra,
na igreja de Ambuitá, isso em 1980, mais ou menos, consegui falar duas palavras e depois travei.
Nunca fui muito namorador. Conheci uma menina,
a Lurdes Figueiredo, e pedi pra ela ser minha namorada. Ela aceitou na hora e eu fiquei sem saber o que fazer! E
agora? Pensei eu. Na verdade eu tinha uma tendência a ser padre, o que não
aconteceu, graças a Deus! Só tive três namoradas. Antes
mesmo de eu ter uma
namorada, já
tinha minha casa em mente. Estava tudo formado na
minha mente! Foi quando eu vi a Zaira, na estação do Cardoso, aquela morena
magra, magrela mesmo, cabelos compridos, pretos. Eu sabia que era essa. Aí
começamos a namorar, nem sei como. Fui à casa dela e oficializamos. O mais
difícil foi pedi-la em casamento. Mas casamos. Graças à lista que os amigos
do mercado Real
fizeram e mais o corte da
gravata, fomos passar a lua de mel na
praia José Menino, em
Santos.
Eu
vivia sempre sem dinheiro quando solteiro!
Nunca tive dinheiro pra levar a Zaira a uma lanchonete. Aliás, até hoje ela
reclama disso. Eu pagava o colégio e o terreno. Enfim, não sobrava quase nada.
Tinha comprado o terreno em sociedade com meu tio Antonio. Depois de seis meses
aconteceu a
correção da ORTN,
disparando
o valor das
parcelas e meu tio desistiu do terreno.
Acabei por entrar em um acordo com a imobiliária
Sabará e fiquei com o terreno. Chamei minha irmã
Conceição e entramos em sociedade. Depois acabei por ficar com o terreno só pra
mim. Fiz minha casa e moro aqui até hoje.
Adoro
Itapevi! Não saio daqui nem na marra! Em Itapevi estou em casa e sou feliz!
Antonio
Pereira de São Miguel – Nasceu em 20/9/1959 na cidade de Itamarandiba (Penha de
França). Filho de Pedro C. São Miguel e Ana Pereira de Jesus. Veio para Itapevi em julho de 1978. (39 anos atrás) Filhos: Ana Paula, Raphael e Samanta. Três netos.
Texto do livro
“Pedras preciosas - Histórias de Itapevi” – 2018, publicado e disponível para
aquisição no Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário