Fragmentos de um passeio pelo Bairro
do Jardim Portela
Estação Raquel Campos Corrêa
– Gente!
Hoje, com um pouco mais de pressa pra voltar logo com o pão da padaria, cortei
caminho pela Plaquinha.
– Plaquinha? Parece que já ouvi esse nome.
– Sei,
vão me dizer agora que não são desse tempo. Lógico que se lembram. Dentre as
diversas opções para irmos ao centro da cidade ou à estação, uma delas era o
caminho da Plaquinha. Aliás, a gente não falava “ir para o centro da cidade”,
mas sim “ir para Itapevi”, como se não estivéssemos na cidade. O caminho da
Plaquinha era de terra e muito íngreme, tipo uma trilha nível 3 ou 4 (risos).
Na verdade, optávamos por esse caminho porque era mais curto e a gente descia
quase rolando e subia colocando os bofes pra fora. Em dia de chuva, era uma
loucura; lama por todos os lados. Quantas vezes a gente escorregava e caía no
barro. Aí tinha que voltar pra casa. Mas ainda assim era melhor do que ir pela
estrada e se arriscar a dar de cara com a boiada!
– A
plaquinha é o espaço mais plano no topo do morro, ao lado das caixas d’água.
Era o ponto de encontro da turma da vila. Era onde a gente esperava quem vinha
da cidade ou descia do trem. Ela fica exatamente no fim da rua Rio Branco (José
Luiz Braga Filho), de onde se avista a estação ferroviária.
– Pessoal,
apenas para complementar, a plaquinha era o ponto preferido dos casais de
namorado da época, preferencialmente após as onze horas da noite, quando o
trânsito de pessoas diminuía. Interessante notar que naquele tempo era possível
namorar tarde da noite sem correr qualquer tipo de risco.
Lembro que no
final do trilho, para quem descia da Plaquinha, havia um córrego de um metro de
largura que a gente tinha que pular para alcançar a beira da linha e os fundos
da estação.
– Gente,
fiquei curiosa para conhecer essa Plaquinha (risos). Mas me digam, por que esse
nome?
– Para
isso existem diversas versões. Vamos lá. Dizem que é porque ali havia uma placa
dando nome a alguma coisa. Que ali havia uma placa anunciando a venda de
terrenos no bairro que começava a se formar. Com certo humor, dizem até que ali
havia uma plaquinha com os dizeres: “pirralhada, parem de falar o meu nome em
vão” (risos). Que havia alguma coisa a ver com as caixas d’água, tipo avisando
sobre o perigo de se chegar muito perto delas. Enfim, como podem ver, não se
tem informação definitiva sobre o assunto.
– Antes
que me esqueça, eu gostaria de falar um pouco sobre um time de futebol de salão
que, embora em uma época mais recente do que os causos que contamos até agora,
teve um papel importante como opção de lazer para o pessoal do bairro.
Estou me referindo ao Rio Branco Futebol de Salão, que foi fundado por
um grupo de amigos, encabeçados pelo Ayrton e pelo Luizinho Braga, com o
objetivo de mexer um pouco com a rotina da vila. Fundado em 07 de novembro de
1976, em reunião realizada na casa do seu Zé Braga e da dona Luci, não sei se o
RBFS chegou a completar um ano, mas nos divertimos bastante, enquanto durou.
– Já
fiz esse comentário dia desses, quando falamos da Rua Rio Branco, mas vou repeti-lo
aqui, porque tem relação direta com esse assunto. Isso mesmo! Foi tudo muito
divertido desde a propaganda. Colocamos em pedaços de papel os dizeres “Rio
Branco vem aí” e jogamos nos quintais das casas do Portela. Foi um comentário
geral, pois demoramos alguns dias para revelar do que se tratava e a
especulação foi muito engraçada. Apostavam que seria uma farmácia,
supermercado, loja ou qualquer outra coisa, menos um time de futebol.
E os causos iam fluindo
naturalmente, sem que tivessem sido programados. Vinham da memória, ou melhor,
vinham direto do coração. Vez ou outra era possível perceber um olhar marejado,
provocado pela emoção de uma lembrança. Procurava-se disfarçar, é claro! Onde
já se viu adultos maduros como aqueles darem-se ao luxo de revelar seus
sentimentos. Nem pensar!
Os salgadinhos
estavam deliciosos. O doce de abóbora que a mulher do dono do boteco preparou,
era qualquer coisa do outro mundo.
De onde o grupo
estava era possível ver o terreno baldio coberto pelo capim-gordura, disputando
espaço com os pés de vassourinha e mamona. Lá fora a criançada brincava de
pega-pega, os meninos. Porque as meninas brincavam de amarelinha, pulavam corda
ou formavam círculos, embaladas pelas cantigas de roda.
Um papagaio
mostrava suas cores ao sabor do vento. Na outra ponta da linha, com certeza, um
moleque sonhava em um dia poder voar; ver o vilarejo lá de cima.
(Ainda
tem mais)

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