Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Izabel Ferreira dos Santos
E o grupo de amigos resolve
se encontrar mais uma vez. Dessa, porém, optaram por um passeio ao ar livre,
enquanto contariam seus causos. Com bagagem de piquenique e com roupa própria
para uma boa caminhada, marcaram encontro no mais famoso lugar de encontros da
Vila: a Plaquinha.
Início de tarde e, para
ajudar, de uma tarde com céu limpo, mas com temperatura amena. Aos poucos, os
amigos iam chegando e se acomodando no gramado ao lado das caixas d’água.
O “camiinho” lá estava, feliz
em rever aquelas criaturas que tanto utilizaram de seu traçado para chegar a
tempo à estação de trem ou para economizar alguns passos nas idas para a
cidade.
As caixas d’água que, segundo
a versão de alguns, serviam a estação e o abastecimento das locomotivas a
vapor, também olharam espantadas para aquelas pessoas que não lhes pareciam
estranhas.
Apressaram-se a avisar a
“biquinha”, sugerindo que se preparasse para receber visitas, pois tudo
indicava que aquele grupo passaria por lá, para aliviar a sede e abastecer suas
garrafas, para a caminhada a que se programaram.
Lá embaixo, a paisagem não
mudara. O barrancão, lotado de crianças que aguardavam ansiosamente a abertura
das portinholas para o descarregamento da boiada. A estação com o banheiro
masculino, o barzinho, o prédio da administração e a bilheteria, como centro do
cenário. A ponte de madeira que unia os dois lados da cidade erguia-se
majestosa ao lado do bar do Jupira e da banca de jornal. Era possível, ainda,
ver o bar do Constantino, a igreja de São Judas, o telhado do cinema do
Pereira, com seus alto-falantes e da loja do seu Armindo. Do outro lado da rua,
parte do bazar do seu “Bobs” e da casa do seu Antonio, dentista.
Todos reunidos. Sentados em
círculo, preparados para o que promete ser uma deliciosa viagem no tempo.
– E o prédio do cinema continua
exatamente como era desde sua inauguração. Aliás, nesta cidade, pouca coisa
muda.
– Verdade. Lembro-me de
quando eu, o Júnior, a Valéria e o Kleber íamos com a Luci ao cinema. Era bom
demais!
– Era assim mesmo, Leandra. O
cinema era nossa diversão preferida. Além do que muitas paqueras e até
casamentos tiveram início no cine São Manoel. Ah, o cinema, também, além dos
seriados antes do filme principal, dava a oportunidade para que trocássemos
nossos gibis! Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Zorro, Flash Gordon, entre
muitos.
– Sabe, Pedrinho, eu também
tenho ótimas lembranças do cinema. Aliás, lembro-me de um trio de meninas muito
bonitas: Luci, Cláudia e Maria. Elas trabalhavam na lanchonete do cinema e eram
muito paqueradas. Eu era um pouco mais nova que elas e pagava o maior pau para
as meninas, principalmente para a Luci que era loira e a mais linda. Lembram
rapazes?
– Claro, né Célia, quem se
esqueceria?!.
– E esse lugar em que
estamos, então, ninguém sabe com certeza a origem do seu nome: Plaquinha.
– Mas talvez esteja aí o charme
deste pequeno pedaço de chão, não acha, Pedrinho?
– Você tem razão. Outro dia,
conversando com o Tino, ele me deu uma versão até interessante. Ele disse que
alguém comprou esse terreno, carpiu todinho e chegou a construir o alicerce de
uma casa. Depois desistiu e colocou a placa de “vende-se” e, como era uma placa
pequena, o nome de plaquinha.
– Não é impossível, mas pouco
provável, pois esse terreno, pelo que me consta, é de propriedade da estrada de
ferro e, portanto, com pouca chance de ser vendido a particular, mas...
– E sobre as caixas d’água ele
me contou que elas foram construídas para abastecer a estação de trem e as
locomotivas marias-fumaça da época. Ele disse que descia um cano enorme e
preto, até a beira da linha, onde existia um “L”, também enorme, que servia
para que a mangueira ou algo parecido ficasse no alto e assim pudesse alcançar
a caldeira das locomotivas.
– Agora tenho certeza de
que essas são as mesmas pessoas que, há muitos anos, passavam horas sentadas
ali onde estão agora, batendo papo ou simplesmente olhando a paisagem tranquila
à sua volta. Esperavam por alguém ou apenas apreciavam o movimento nos fins de
tarde, com a chegada dos trens que traziam os moradores da vila de volta para
casa – disse uma das caixas d’água.
– Você tem razão, eu também as
estou reconhecendo – disse a outra caixa. Lembro-me até do nome da garotada que
costumava frequentar o gramado aí da frente, veja só: Ayrton, Chiquinho,
Cidinho, Dudu, Jair, Luizinho, Pedrinho, Tino, Walter.
– Ah, muito bem! Mas e as
meninas? Olha de quem me lembro: Ângela, Célia, Cidinha, Dione, Eva, Nair,
Neusa, Pitucha, Sônia, Sueli. Com certeza deixamos de mencionar alguém, mas vão
nos perdoar, afinal nossa memória já não é lá essas coisas.
Bem pessoal, acho que a gente
poderia ir andando. Vamos começar nosso passeio aqui pelo fim da Rua Rio
Branco, neste trecho, mais conhecida como a Rua da Biquinha. Como vocês sabem,
ela começa lá no bar da escadaria e dá a volta, terminando aqui bem em frente à
Plaquinha.
(Ainda tem
mais)

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