sexta-feira, 16 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Izabel Ferreira dos Santos

 


Cinema do Pereira

E o grupo de amigos resolve se encontrar mais uma vez. Dessa, porém, optaram por um passeio ao ar livre, enquanto contariam seus causos. Com bagagem de piquenique e com roupa própria para uma boa caminhada, marcaram encontro no mais famoso lugar de encontros da Vila: a Plaquinha.

Início de tarde e, para ajudar, de uma tarde com céu limpo, mas com temperatura amena. Aos poucos, os amigos iam chegando e se acomodando no gramado ao lado das caixas d’água.

O “camiinho” lá estava, feliz em rever aquelas criaturas que tanto utilizaram de seu traçado para chegar a tempo à estação de trem ou para economizar alguns passos nas idas para a cidade.

As caixas d’água que, segundo a versão de alguns, serviam a estação e o abastecimento das locomotivas a vapor, também olharam espantadas para aquelas pessoas que não lhes pareciam estranhas.

Apressaram-se a avisar a “biquinha”, sugerindo que se preparasse para receber visitas, pois tudo indicava que aquele grupo passaria por lá, para aliviar a sede e abastecer suas garrafas, para a caminhada a que se programaram.

Lá embaixo, a paisagem não mudara. O barrancão, lotado de crianças que aguardavam ansiosamente a abertura das portinholas para o descarregamento da boiada. A estação com o banheiro masculino, o barzinho, o prédio da administração e a bilheteria, como centro do cenário. A ponte de madeira que unia os dois lados da cidade erguia-se majestosa ao lado do bar do Jupira e da banca de jornal. Era possível, ainda, ver o bar do Constantino, a igreja de São Judas, o telhado do cinema do Pereira, com seus alto-falantes e da loja do seu Armindo. Do outro lado da rua, parte do bazar do seu “Bobs” e da casa do seu Antonio, dentista.

Todos reunidos. Sentados em círculo, preparados para o que promete ser uma deliciosa viagem no tempo.

 

 E o prédio do cinema continua exatamente como era desde sua inauguração. Aliás, nesta cidade, pouca coisa muda.

– Verdade. Lembro-me de quando eu, o Júnior, a Valéria e o Kleber íamos com a Luci ao cinema. Era bom demais!

 Era assim mesmo, Leandra. O cinema era nossa diversão preferida. Além do que muitas paqueras e até casamentos tiveram início no cine São Manoel. Ah, o cinema, também, além dos seriados antes do filme principal, dava a oportunidade para que trocássemos nossos gibis! Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Zorro, Flash Gordon, entre muitos.

 Sabe, Pedrinho, eu também tenho ótimas lembranças do cinema. Aliás, lembro-me de um trio de meninas muito bonitas: Luci, Cláudia e Maria. Elas trabalhavam na lanchonete do cinema e eram muito paqueradas. Eu era um pouco mais nova que elas e pagava o maior pau para as meninas, principalmente para a Luci que era loira e a mais linda. Lembram rapazes?

– Claro, né Célia, quem se esqueceria?!.

– E esse lugar em que estamos, então, ninguém sabe com certeza a origem do seu nome: Plaquinha.

 Mas talvez esteja aí o charme deste pequeno pedaço de chão, não acha, Pedrinho?

 Você tem razão. Outro dia, conversando com o Tino, ele me deu uma versão até interessante. Ele disse que alguém comprou esse terreno, carpiu todinho e chegou a construir o alicerce de uma casa. Depois desistiu e colocou a placa de “vende-se” e, como era uma placa pequena, o nome de plaquinha.

 Não é impossível, mas pouco provável, pois esse terreno, pelo que me consta, é de propriedade da estrada de ferro e, portanto, com pouca chance de ser vendido a particular, mas...

 E sobre as caixas d’água ele me contou que elas foram construídas para abastecer a estação de trem e as locomotivas marias-fumaça da época. Ele disse que descia um cano enorme e preto, até a beira da linha, onde existia um “L”, também enorme, que servia para que a mangueira ou algo parecido ficasse no alto e assim pudesse alcançar a caldeira das locomotivas.

– Agora tenho certeza de que essas são as mesmas pessoas que, há muitos anos, passavam horas sentadas ali onde estão agora, batendo papo ou simplesmente olhando a paisagem tranquila à sua volta. Esperavam por alguém ou apenas apreciavam o movimento nos fins de tarde, com a chegada dos trens que traziam os moradores da vila de volta para casa – disse uma das caixas d’água.

 Você tem razão, eu também as estou reconhecendo – disse a outra caixa. Lembro-me até do nome da garotada que costumava frequentar o gramado aí da frente, veja só: Ayrton, Chiquinho, Cidinho, Dudu, Jair, Luizinho, Pedrinho, Tino, Walter.

 Ah, muito bem! Mas e as meninas? Olha de quem me lembro: Ângela, Célia, Cidinha, Dione, Eva, Nair, Neusa, Pitucha, Sônia, Sueli. Com certeza deixamos de mencionar alguém, mas vão nos perdoar, afinal nossa memória já não é lá essas coisas.

 

Bem pessoal, acho que a gente poderia ir andando. Vamos começar nosso passeio aqui pelo fim da Rua Rio Branco, neste trecho, mais conhecida como a Rua da Biquinha. Como vocês sabem, ela começa lá no bar da escadaria e dá a volta, terminando aqui bem em frente à Plaquinha.

 

(Ainda tem mais)

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