Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação Luci Bernardes
Braga
Eu sempre tive a esperança de
rever esse pessoal – falou baixinho para a cuia. Por muito tempo, todos os
dias, a cada barulho de passos eu corria para ver se era algum deles. Hoje,
mais madura, eu entendo que cada um tomou um rumo diferente. Que a vida é assim
mesmo.
Eu também, sabe, dona
Biquinha. Diferente de agora que cada um bebe água e me devolve ao meu lugar,
naquele tempo, saciavam a sede e me largavam aí embaixo. Hoje eu sei que não
faziam por maldade; tinham muita pressa para brincar e não podiam perder tempo.
Uma vez quase morro sufocada pela areia! Mas era muito divertido!
Sabe minha amiga, pela
expressão deles, eles também devem estar se lembrando com saudade daqueles
tempos.
Do outro lado da rua, as
poucas casas olhavam para aquele grupo e também reconheciam seus integrantes. A
casa do seu Darci e do seu Dante eram as primeiras da rua. A seguir, a casa da
dona Dina e, por último, a casa do Chiquinho. Nenhuma outra mais. Depois, só
terrenos baldios e mato.
Sede saciada e garrafas
cheias, o grupo de amigos reinicia sua caminhada. Para trás, deixa a Plaquinha,
as Caixas d’Água, a Biquinha e a Cuia. Sabem que dificilmente verão aquelas
pessoas novamente. Mas ficam felizes por tê-las recebido, depois de tanto
tempo.
Aqui estamos nós, perto da
fábrica de vinho. À nossa esquerda o cabo de aço que encurtava o caminho para a
escola ou para o rio atrás da sede da prefeitura.
Lá embaixo, a parte dos
fundos da fábrica, à beira da estrada de ferro, por onde entrava e saía grande
parte da matéria prima e do produto final.
Em frente à grande porta de
madeira ainda existe a caverna que fizemos no barranco, para nosso esconderijo
e, do lado de dentro daquela porta, o carrinho que nos servia de brinquedo,
depois que a fábrica encerrou suas atividades.
Um pouco mais à frente, ainda
à esquerda, a casa comprida e que servia de moradia ao zelador da chácara ou
aos empregados da fábrica de vinho.
Passada essa curva, à nossa
direita, a caixa d’água, no formato de um queijo, onde descansávamos à sombra
da paineira e jogávamos tômbola, figurinha, dominó e dama. Ah, essa caixa
abastecia a chácara e a fábrica.
– E que susto o nosso, no dia em que não conseguimos
brecar o carrinho e ele atingiu a porta, ficando mais da metade dele
dependurada pelo lado de fora! Foi uma
debandada geral!
– Nossa! Impossível esquecer,
Pedrinho. Acho que depois disso nunca mais voltamos lá.
– E lá está a casa grande da
chácara. O lugar mais proibido de todos, pois é a casa dos donos. Mas, falem sério, quem
resistia àquela mesa de bilhar no meio da sala e que ficava olhando pra gente
toda vez que passávamos pela varanda? Não sei como conseguimos a chave, mas um
joguinho por semana não fazia mal a ninguém.
– É, só que tivemos que
sair correndo de lá, mais de uma vez, porque os donos chegaram fora do dia de
costume.
– Essa rua podia não ser a
principal do bairro, mas era um tremendo ponto de encontro. Repararam que quase
todas as brincadeiras acabavam acontecendo por aqui?
– Verdade. E agora me lembro
que mais importante do que as brincadeiras era a hora do Juvêncio, o Justiceiro
do Sertão. Todas as tardes a gente corria para a casa da Vó Zefa, para ouvir,
no rádio, essa novela e aproveitava para tomar uma sopinha gostosa, feita no
fogão a lenha.
– Imperdível mesmo, Célia. A
gente parava de brincar de latinha ou de agarrou beijou, pra assistir ao
Juvêncio. Mas depois a gente voltava pra rua!
– Ué, Pedrinho, eu pensei que
agarrou beijou era pra depois da sopinha!
– Falando da Vó Zefa, além de
me lembrar da comida gostosa que ela fazia, eu me lembrei do Vô João. Ele
criava abelhas no fundo do quintal e usava uma vestimenta apropriada e que me
dava muito medo.
– Ah, Nenê, tem dó. Ter medo de
roupa usada para se proteger de abelhas!
– Falando em medo, vocês se
lembram quando a gente subia até a casa da Dona Luci, para assistir ao Zé do
Caixão? Aliás, estamos bem em frente à casa, que hoje mora a Maura. Pra ir tudo
bem, mas a volta era complicada. Impressionados com o filme de terror, a gente
descia bem perto um do outro e, mesmo assim, morrendo de medo.
– Lá atrás, quando falamos da
caverna no barranco, eu me lembrei de um caso, mas não quis interromper. O Tino
me disse que a gente fazia buraco nos barrancos à beira da estrada, para ver a
boiadas passar. Que quantas vezes, fazendo esses buracos, a gente dava de cara
com escorpiões. Até do lixão que havia na curva da estrada, perto da estação de
trem, ele se lembrou! Lembra disso, Pedrinho?
– Do lixão, me lembro, mas
dos buracos, não!
(Ainda tem
mais)
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