Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
– Vocês se lembram que ali, onde está o grupo escolar do bairro, na rua Benedito Corrêa, antigamente Rua Campinas, conhecida como “a rua de baixo”, havia uma olaria de propriedade do senhor Joaquim Mendes de Moraes? Pois é. Ela ocupava toda a área beirando o muro da chácara até as margens do rio.
– Claro
que lembramos. A gente nadava nas lagoas do barreiro e passeava no trator que
buscava capim e transportava materiais, e que era dirigido pelo Ananias Antonio
Pires, que nós chamávamos de Nanias.
– Eu me lembro! Lembro-me dessa olaria que era do Joaquim Mendes de
Moraes. A esposa dele se chamava Cecília. O seu Joaquim era delegado de Itapevi
lá pelos anos 1960. Ah, na frente dessa olaria morava o senhor Dito Jorge, que
era bombeiro.
– E
teve uma época em que nós, crianças, ajudávamos nossa mãe lá na olaria. Pra nós
era pura diversão!
– Era
muito legal passear no trator, se não me engano pela estrada do Itaqui. Na
olaria brincávamos dentro do forno quando já havia esfriado depois da queima
dos tijolos. Era uma brincadeira chamada de canto. Alguém se lembra?
– Ah!
Por isso é que somos todos tão moreninhos, né? É que às vezes a gente entrava
no forno mesmo antes dele esfriar.
Outra alfinetada
que provoca risos.
– Pessoal,
deixe eu concluir o assunto do canto. Vejam bem, não tem nada a ver com música.
Os participantes (4) ficavam um em cada canto e, no meio, ficava o sorteado que
deveria tentar a conquista de um canto, no momento exato em que os outros
participantes tentassem trocar de lugar.
Que tal fazermos mais uma pausa? Aproveitamos para refrescar a memória e reabastecer nossos copos. Lá no balcão tem uma jarra de Ki-Suco fresquinho aguardando vocês.
A conversa seguia
animada. Afinal fazia um bom tempo que aqueles amigos não se encontravam. O
corre-corre diário dera rumos diferentes a cada um deles. Alguns nem na vila
moravam mais. Transformaram-se em visitantes de fins de semana. Ouviram dizer,
até, que os tempos eram outros e que alguns dos lugares que frequentavam
estavam dando lugar ao progresso. As serenatas no bar da escadaria estavam se
tornando cada vez mais raras. O campo de malhas estava sendo largado ao
abandono. Tudo em nome do progresso.
E o grupo voltava
aos poucos. Mais um rodada de refresco e alguns doces de abóbora ou paçoquinha
garantiriam fôlego para mais algumas histórias.
Ali, onde a Rua Campinas (Benedito Corrêa) e a Rua Rio Branco (José Luiz Braga Filho) se encontram, fica a entrada da chácara dos italianos. Antes sem muros, com apenas dois ou três fios de arame farpado, era o paraíso de um grupo de crianças. O seu Emílio Barranco, caseiro da chácara, muito gentilmente fazia vistas grossas, fazendo de conta que não os via entrar. Era o ano de 1950 e alguma coisa.
– Xiiii!
Aí tem história! Por exemplo, quando íamos “roubar” frutas, geralmente laranjas
e mexericas para nosso próprio consumo. A adrenalina quando se atravessava a
cerca para entrar no pomar acabava quando fazíamos o caminho inverso. Oh vida
dura a de ladrão de frutas! Ainda bem que não havia guardas e nem cachorros
para atrapalhar nossa empreitada!
E quando brincávamos na mesa de sinuca na sala da casa grande?
Também tem a história do Luizinho Barranco, que pulou dentro de um tonel,
sobre uma garrafa quebrada e se cortou, dando um trabalho danado para tirá-lo
de dentro do tonel.
Bem pessoal, enquanto ninguém se lembra e fica olhando para a minha
cara, sem falar nada, eu sigo com minhas histórias.
E o carrinho sobre trilhos
que certa feita derrubamos nos trilhos da Sorocabana (CPTM), já que a fábrica
dá fundos para a linha férrea? E tem mais! As garrafinhas em miniatura que
pegávamos... os rótulos com desenho de um cacho da uva que eram aplicados nas
garrafas de vinho...
Ah, e o laboratório que ficava no alto (como um mezanino) e fuçamos nas
prateleiras? Hem, alguém se lembra?
Bem, pessoal, agora é com vocês. Já falei muito.
– Puxa,
meu! Você falou quase tudo. Só me restou lembrar do pé de amora que tinha
dentro da chácara, perto da fábrica. Era imenso e a molecada adorava comer
amoras lá e voltar pra casa com os pés e mãos manchados.
– Verdade! Falei tanto e nem me lembrei do pé de amora. Mas me lembro
quando brincávamos em uma roda (que eu não sei pra que servia). Entrávamos e
havia uma manivela que fazia com que ela girasse. A gente parecia um hamster
brincando naquelas rodinhas em gaiolas.
– Eu me encantava mais com os pés de frutas e o rio lá no fundo.
(Ainda tem mais)

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