sábado, 10 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

              

                 Estação Juventino Ferreira dos Santos


Rua Campinas 

 Vocês se lembram que ali, onde está o grupo escolar do bairro, na rua Benedito Corrêa, antigamente Rua Campinas, conhecida como “a rua de baixo”, havia uma olaria de propriedade do senhor Joaquim Mendes de Moraes? Pois é. Ela ocupava toda a área beirando o muro da chácara até as margens do rio.

 Claro que lembramos. A gente nadava nas lagoas do barreiro e passeava no trator que buscava capim e transportava materiais, e que era dirigido pelo Ananias Antonio Pires, que nós chamávamos de Nanias.

– Eu me lembro! Lembro-me dessa olaria que era do Joaquim Mendes de Moraes. A esposa dele se chamava Cecília. O seu Joaquim era delegado de Itapevi lá pelos anos 1960. Ah, na frente dessa olaria morava o senhor Dito Jorge, que era bombeiro.

 E teve uma época em que nós, crianças, ajudávamos nossa mãe lá na olaria. Pra nós era pura diversão!

 Era muito legal passear no trator, se não me engano pela estrada do Itaqui. Na olaria brincávamos dentro do forno quando já havia esfriado depois da queima dos tijolos. Era uma brincadeira chamada de canto. Alguém se lembra?

 Ah! Por isso é que somos todos tão moreninhos, né? É que às vezes a gente entrava no forno mesmo antes dele esfriar.

Outra alfinetada que provoca risos.

 Pessoal, deixe eu concluir o assunto do canto. Vejam bem, não tem nada a ver com música. Os participantes (4) ficavam um em cada canto e, no meio, ficava o sorteado que deveria tentar a conquista de um canto, no momento exato em que os outros participantes tentassem trocar de lugar.

Que tal fazermos mais uma pausa? Aproveitamos para refrescar a memória e reabastecer nossos copos. Lá no balcão tem uma jarra de Ki-Suco fresquinho aguardando vocês.

A conversa seguia animada. Afinal fazia um bom tempo que aqueles amigos não se encontravam. O corre-corre diário dera rumos diferentes a cada um deles. Alguns nem na vila moravam mais. Transformaram-se em visitantes de fins de semana. Ouviram dizer, até, que os tempos eram outros e que alguns dos lugares que frequentavam estavam dando lugar ao progresso. As serenatas no bar da escadaria estavam se tornando cada vez mais raras. O campo de malhas estava sendo largado ao abandono. Tudo em nome do progresso.

E o grupo voltava aos poucos. Mais um rodada de refresco e alguns doces de abóbora ou paçoquinha garantiriam fôlego para mais algumas histórias.

Ali, onde a Rua Campinas (Benedito Corrêa) e a Rua Rio Branco (José Luiz Braga Filho) se encontram, fica a entrada da chácara dos italianos. Antes sem muros, com apenas dois ou três fios de arame farpado, era o paraíso de um grupo de crianças. O seu Emílio Barranco, caseiro da chácara, muito gentilmente fazia vistas grossas, fazendo de conta que não os via entrar. Era o ano de 1950 e alguma coisa.

 – A chácara, quanto tempo eu não entro mais lá!

 Xiiii! Aí tem história! Por exemplo, quando íamos “roubar” frutas, geralmente laranjas e mexericas para nosso próprio consumo. A adrenalina quando se atravessava a cerca para entrar no pomar acabava quando fazíamos o caminho inverso. Oh vida dura a de ladrão de frutas! Ainda bem que não havia guardas e nem cachorros para atrapalhar nossa empreitada!

E quando brincávamos na mesa de sinuca na sala da casa grande?

Também tem a história do Luizinho Barranco, que pulou dentro de um tonel, sobre uma garrafa quebrada e se cortou, dando um trabalho danado para tirá-lo de dentro do tonel.

Bem pessoal, enquanto ninguém se lembra e fica olhando para a minha cara, sem falar nada, eu sigo com minhas histórias.

E o carrinho sobre trilhos que certa feita derrubamos nos trilhos da Sorocabana (CPTM), já que a fábrica dá fundos para a linha férrea? E tem mais! As garrafinhas em miniatura que pegávamos... os rótulos com desenho de um cacho da uva que eram aplicados nas garrafas de vinho...

Ah, e o laboratório que ficava no alto (como um mezanino) e fuçamos nas prateleiras? Hem, alguém se lembra?

Bem, pessoal, agora é com vocês. Já falei muito.

 Puxa, meu! Você falou quase tudo. Só me restou lembrar do pé de amora que tinha dentro da chácara, perto da fábrica. Era imenso e a molecada adorava comer amoras lá e voltar pra casa com os pés e mãos manchados.

– Verdade! Falei tanto e nem me lembrei do pé de amora. Mas me lembro quando brincávamos em uma roda (que eu não sei pra que servia). Entrávamos e havia uma manivela que fazia com que ela girasse. A gente parecia um hamster brincando naquelas rodinhas em gaiolas.

– Eu me encantava mais com os pés de frutas e o rio lá no fundo.

 

(Ainda tem mais)

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