Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Conceição Barranco
Caixa d'água da chácara
– Tá
bom, vai, mas vamos mudar de assunto. Vou contar pra vocês um pouco do que
conversaram o Pedrinho e o Chiquinho, quando se encontraram dia desses.
Como não poderia deixar de
ser, falaram um bocado sobre “aqueles tempos”, ou seja, o tempo que ia desde
quando eram crianças, até a juventude.
Lembraram dos rios de águas
claras que, de tão limpas, serviam para beber.
Ali no trevo da Cohab, o rio
ao lado do campo da prefeitura, o rio atrás do salão da prefeitura e o rio no
início da estrada que vai para Santa Rita; do outro lado da cidade, o rio
embaixo da ponte da praça, o rio do pontilhão da estrada de ferro e o rio à
beira dos campos do América e do CIPE.
No Portela, com suas curvas
que ofereciam lugares excelentes para bons mergulhos: no fundo da chácara, na
curva pra baixo da ponte, na curva pra cima da ponte e na curva próximo à
chácara do japonês.
Isso sem falar nas lagoas
que, de tantas, tomariam muito espaço para relacioná-las.
Mas vamos ao bate-papo.
– Chiquinho,
quem surgiu primeiro, o bairro Portela ou a fábrica de vinho?
– Olha,
Pedrinho, pelo que sei, a vila inteira era um terreno só e pertencia aos donos
da fábrica de vinho. Depois foi loteado, dando origem ao Bairro do Jardim
Portela. Uma das coisas que eu me lembro bem, é que a gente ia buscar
miniaturas de garrafas de vinho que a
gente pedia para o encarregado.
– Lembro-me
disso também, Chiquinho. Pena que não guardamos nem uma dessas miniaturas, não?
– Você
se lembra que a primeira luz elétrica que algumas casas do bairro teve foi
emprestada da fábrica de vinho? Ergueram alguns postes de madeira e levaram luz
até a minha casa, à casa do seu Juventino e pra mais duas ou três casas
vizinhas. O Joãozinho, encarregado, fazia a cobrança todo mês. Era uma luz
fraquinha, mas quebrava bem o galho.
– Disso não me lembro, não.
–
Essa é do fundo do baú, alguém brincou.
–
Sabe, Pedrinho, eu cabulei muita aula pra poder jogar bola ou nadar e hoje
sinto saudade do tempo de escola.
–
Quer dizer, quando podia, cabulava e agora tem saudade das aulas.
– É,
e essas faltas me custaram caro. Só não repeti o quarto ano. Lembro-me dos
professores Sérgio, Irani, Pedro, Maria José e Milani. Naquele tempo, professor
era respeitado. Eu estudei no único grupo escolar que havia na cidade, o Raul
Briquet. Vinha criança de toda a redondeza pra estudar no Briquet. Hoje é
moleza; tem um grupo em cada bairro!
O
Briquet ficava ao lado da igreja de São José, onde hoje é a Cohab e o Rondon,
foi construído, inicialmente, onde hoje é a Praça 18 de Fevereiro. Ambos eram
de madeira.
Ah!
Não sei se você se lembra, mas o nosso terror era o Dr. Amim Chalupe, dentista
que visitava a escola periodicamente pra examinar os dentes dos alunos.
–
Eu me lembro, disse alguém. Ele era o terror de todo mundo.
– Chiquinho,
você se lembra de como eram as casas da época?
– Eram
todas mais ou menos iguais. Sala, quarto e cozinha, com horta, chiqueiro,
galinheiro e alguns pés de frutas no quintal.
– E
os banheiros eram todos fora, o mais longe possível da casa.
– Verdade,
Pedrinho, também não tinha nenhuma higiene. Eles eram feitos perto da fossa.
– E
pra tomar banho, hem! Em casa, a exemplo de muitas outras, a gente tomava banho
em bacias. Depois meu pai comprou um balde que, pendurado no teto do banheiro,
servia de chuveiro.
–
Como era o nome do seu pai, Chiquinho?
–
Era Faustino. Um dia ele chegou em casa com uma bomba de poço movida a
manivela. Era o progresso dando as caras. Mais tarde, ele instalou uma bomba
movida a motor e construiu o banheiro, ainda do lado de fora, mas mais perto da
casa. Essa evolução acontecia, também, em outras casas do bairro.
– Então,
se entendi bem, pra tomar banho ou usar o banheiro à noite a gente tinha que
sair no quintal.
– Isso
mesmo. Considere, ainda, que não havia luz elétrica e as casa eram cercadas de
mato e afastadas uma da outra.
–
Vida dura, hem!
(Ainda tem mais)

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