quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Conceição Barranco

 



Caixa d'água da chácara

 Tá bom, vai, mas vamos mudar de assunto. Vou contar pra vocês um pouco do que conversaram o Pedrinho e o Chiquinho, quando se encontraram dia desses.

Como não poderia deixar de ser, falaram um bocado sobre “aqueles tempos”, ou seja, o tempo que ia desde quando eram crianças, até a juventude.

Lembraram dos rios de águas claras que, de tão limpas, serviam para beber.

Ali no trevo da Cohab, o rio ao lado do campo da prefeitura, o rio atrás do salão da prefeitura e o rio no início da estrada que vai para Santa Rita; do outro lado da cidade, o rio embaixo da ponte da praça, o rio do pontilhão da estrada de ferro e o rio à beira dos campos do América e do CIPE.

No Portela, com suas curvas que ofereciam lugares excelentes para bons mergulhos: no fundo da chácara, na curva pra baixo da ponte, na curva pra cima da ponte e na curva próximo à chácara do japonês.

Isso sem falar nas lagoas que, de tantas, tomariam muito espaço para relacioná-las.

Mas vamos ao bate-papo.

 

 Chiquinho, quem surgiu primeiro, o bairro Portela ou a fábrica de vinho?

 Olha, Pedrinho, pelo que sei, a vila inteira era um terreno só e pertencia aos donos da fábrica de vinho. Depois foi loteado, dando origem ao Bairro do Jardim Portela. Uma das coisas que eu me lembro bem, é que a gente ia buscar miniaturas de garrafas de vinho que a  gente pedia para o encarregado.

 Lembro-me disso também, Chiquinho. Pena que não guardamos nem uma dessas miniaturas, não?

 Você se lembra que a primeira luz elétrica que algumas casas do bairro teve foi emprestada da fábrica de vinho? Ergueram alguns postes de madeira e levaram luz até a minha casa, à casa do seu Juventino e pra mais duas ou três casas vizinhas. O Joãozinho, encarregado, fazia a cobrança todo mês. Era uma luz fraquinha, mas quebrava bem o galho.

Disso não me lembro, não.

– Essa é do fundo do baú, alguém brincou.

– Sabe, Pedrinho, eu cabulei muita aula pra poder jogar bola ou nadar e hoje sinto saudade do tempo de escola.

– Quer dizer, quando podia, cabulava e agora tem saudade das aulas.

 É, e essas faltas me custaram caro. Só não repeti o quarto ano. Lembro-me dos professores Sérgio, Irani, Pedro, Maria José e Milani. Naquele tempo, professor era respeitado. Eu estudei no único grupo escolar que havia na cidade, o Raul Briquet. Vinha criança de toda a redondeza pra estudar no Briquet. Hoje é moleza; tem um grupo em cada bairro!

O Briquet ficava ao lado da igreja de São José, onde hoje é a Cohab e o Rondon, foi construído, inicialmente, onde hoje é a Praça 18 de Fevereiro. Ambos eram de madeira.

Ah! Não sei se você se lembra, mas o nosso terror era o Dr. Amim Chalupe, dentista que visitava a escola periodicamente pra examinar os dentes dos alunos.

– Eu me lembro, disse alguém. Ele era o terror de todo mundo.

 Chiquinho, você se lembra de como eram as casas da época?

 Eram todas mais ou menos iguais. Sala, quarto e cozinha, com horta, chiqueiro, galinheiro e alguns pés de frutas no quintal.

 E os banheiros eram todos fora, o mais longe possível da casa.

 Verdade, Pedrinho, também não tinha nenhuma higiene. Eles eram feitos perto da fossa.

 E pra tomar banho, hem! Em casa, a exemplo de muitas outras, a gente tomava banho em bacias. Depois meu pai comprou um balde que, pendurado no teto do banheiro, servia de chuveiro.

– Como era o nome do seu pai, Chiquinho?

– Era Faustino. Um dia ele chegou em casa com uma bomba de poço movida a manivela. Era o progresso dando as caras. Mais tarde, ele instalou uma bomba movida a motor e construiu o banheiro, ainda do lado de fora, mas mais perto da casa. Essa evolução acontecia, também, em outras casas do bairro.

 Então, se entendi bem, pra tomar banho ou usar o banheiro à noite a gente tinha que sair no quintal.

 Isso mesmo. Considere, ainda, que não havia luz elétrica e as casa eram cercadas de mato e afastadas uma da outra.

– Vida dura, hem!

 

(Ainda tem mais)

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