Fragmentos de um
passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Faustino Gonçalves
– Arriscaria
dizer que os bailinhos foram uma das coisas que mais marcaram nossa juventude
no bairro. Nas casas do Luizinho, do Bimba, do Geraldo, do Carlinho do
Sargento, do Décio e no salão ao lado do bar da escadaria, por exemplo,
agitavam as tardes/noites de fins de semana. Danças e paqueras andavam sempre
de mãos dadas. Velhos tempos, belos dias! Vocês não acham?
– Ah, esse eu acho que é um assunto que todos têm muito a
contar.
– Eu ia muito aos bailinhos da casa do Bimba. Era o máximo!
– Eu
me lembro do nome de alguns frequentadores: Luizinho, Walter, Vavá, Ananias,
Alivete, Nice, Sônia...
– Acho que o nome certo era Olivete.
– Não.
Era Alivete mesmo. Alivete da Silva, o popular Livete, filho do seu Joaquim e
da dona Maria e irmão da Nilda Augusta da Silva e da Rosemira (Mira). A Mira
era casada com o Bendito Foga, que chegou a ser lanterninha no cinema do
Pereira. A Nilda era casada com o Tiãozinho, mecânico.
Era assim mesmo que a gente
falava: “buscar lenha” ou “catar lenha”. O significado, no entanto, era o
mesmo: ir até o calipal e, de lá, trazer galhos secos para abastecer o fogão. A
avó Zefa, septuagenária, coordenava a operação.
Ao cair da tarde, a criançada
se reunia, preparando-se para, mais uma vez, buscar lenha. Corda para amarrar o
feixe de lenha, faca ou foice para cortar os galhos e uma “rodia” para proteger
os ombros ou cabeça.
De volta, deixavam a carga
cair no chão, em frente à porta da cozinha. Parte da lenha ia para debaixo do
fogão e parte ficava guardada em algum lugar protegido de chuva.
– Eu me lembro bem dessa fase da minha infância...
– E eu me lembro mais ou menos. Lembro do calipal e da estrada que
chegava até lá. Estrada que passava em frente à chácara da dona “Tiqüê” e acho
que passava por trás do frigorífico.
– Era assim; íamos todos para o calipal, crianças e adultos, “catava” a
lenha e fazíamos feixes de acordo com o tamanho que cada um podia carregar.
Tinha uma “trouxinha” que a gente colocava na cabeça pra apoiar o feixe. Pra
mim, particularmente, entrar no calipal era como entrar numa grande floresta.
– Subíamos
em direção à Vila Dolores, passávamos onde hoje é a escola do Portela e
chegávamos ao calipal, no alto de onde hoje é o Jardim São Carlos. Íamos com a
Vó Zefa ou dona Zulmira, e era uma festa.
Tinha outro lenheiro. Passávamos pela estrada da boiada,
beirando o rio em direção ao frigorífico, passando por trás do campo do Havaí.
Era muito divertido.
– Eu
me lembrava apenas do lenheiro atrás do frigorífico. Agora que você falou do
lenheiro que havia atrás do Clube de Campo é que me lembrei dele. Se não me
engano ficava pelos lados do tanquinho do Itaqui. Além disso, você se lembrou
da companhia da dona Zulmira, esposa do seu Sebastião e mãe do Chico, Vitor, Zé
do Laço, Valdo e Dirce. Tem mais uma menina que não me lembro do nome.
– Vocês não acreditam. Hoje meu pai me mostrou o morro onde vocês
buscavam lenha. Percebi que ele sentiu saudades...
E essa observação suspirada foi a ponte para um outro assunto que também deixou saudades.
A vila era pequena e com quase nenhuma opção pronta de
diversão, e aí é que entrava em cena a criatividade. Nós fazíamos nossos
brinquedos e inventávamos nossas brincadeiras. E a pipa, apenas para
exemplificar, era um de nossos brinquedos preferidos.
– Isso mesmo. Naquela época não existia cortante e a criatividade incentivava a construção de diversos tipos de pipas, como quadrado, maranhão, raia, peixinho e capucheta. A gente soltava pipas lá no morro do seu Vitor, perto da casa do Odair Vaz, irmão do Merinho. Vocês se lembram?
– Eu
me lembro do morro onde morava o Luiz Chapéu, filho do seu Victor, esses que
você se referiu e mais o Urbano. Lembro-me de todos. Ah, deixa eu observar que
nós chamávamos a pipa de papagaio.
Aliás, dia desses, conversando com o Tino, filho do seu Juventino, ele
lembrou que o local mais procurado para soltar papagaio era em frente a casa
dele. A gente fazia os próprios papagaios, utilizando cola feita de água e
farinha de trigo. As varetas de bambu eram conseguidas no bambuzal nos fundos
da chácara ou na beira da linha de trem. Lembrou, ainda, que a linha preferida
era a da marca Corrente, número 24, por ser a mais resistente.
(Ainda tem mais)

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