segunda-feira, 12 de outubro de 2020

 

Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Faustino Gonçalves

 

Plaquinha

 Arriscaria dizer que os bailinhos foram uma das coisas que mais marcaram nossa juventude no bairro. Nas casas do Luizinho, do Bimba, do Geraldo, do Carlinho do Sargento, do Décio e no salão ao lado do bar da escadaria, por exemplo, agitavam as tardes/noites de fins de semana. Danças e paqueras andavam sempre de mãos dadas. Velhos tempos, belos dias! Vocês não acham?

– Ah, esse eu acho que é um assunto que todos têm muito a contar.

– Eu ia muito aos bailinhos da casa do Bimba. Era o máximo!

 Eu me lembro do nome de alguns frequentadores: Luizinho, Walter, Vavá, Ananias, Alivete, Nice, Sônia...

– Acho que o nome certo era Olivete.

 Não. Era Alivete mesmo. Alivete da Silva, o popular Livete, filho do seu Joaquim e da dona Maria e irmão da Nilda Augusta da Silva e da Rosemira (Mira). A Mira era casada com o Bendito Foga, que chegou a ser lanterninha no cinema do Pereira. A Nilda era casada com o Tiãozinho, mecânico.

 

Era assim mesmo que a gente falava: “buscar lenha” ou “catar lenha”. O significado, no entanto, era o mesmo: ir até o calipal e, de lá, trazer galhos secos para abastecer o fogão. A avó Zefa, septuagenária, coordenava a operação.

Ao cair da tarde, a criançada se reunia, preparando-se para, mais uma vez, buscar lenha. Corda para amarrar o feixe de lenha, faca ou foice para cortar os galhos e uma “rodia” para proteger os ombros ou cabeça.

De volta, deixavam a carga cair no chão, em frente à porta da cozinha. Parte da lenha ia para debaixo do fogão e parte ficava guardada em algum lugar protegido de chuva.

                 – Eu me lembro bem dessa fase da minha infância...

– E eu me lembro mais ou menos. Lembro do calipal e da estrada que chegava até lá. Estrada que passava em frente à chácara da dona “Tiqüê” e acho que passava por trás do frigorífico.

– Era assim; íamos todos para o calipal, crianças e adultos, “catava” a lenha e fazíamos feixes de acordo com o tamanho que cada um podia carregar. Tinha uma “trouxinha” que a gente colocava na cabeça pra apoiar o feixe. Pra mim, particularmente, entrar no calipal era como entrar numa grande floresta.

 Subíamos em direção à Vila Dolores, passávamos onde hoje é a escola do Portela e chegávamos ao calipal, no alto de onde hoje é o Jardim São Carlos. Íamos com a Vó Zefa ou dona Zulmira, e era uma festa.

Tinha outro lenheiro. Passávamos pela estrada da boiada, beirando o rio em direção ao frigorífico, passando por trás do campo do Havaí. Era muito divertido.

 Eu me lembrava apenas do lenheiro atrás do frigorífico. Agora que você falou do lenheiro que havia atrás do Clube de Campo é que me lembrei dele. Se não me engano ficava pelos lados do tanquinho do Itaqui. Além disso, você se lembrou da companhia da dona Zulmira, esposa do seu Sebastião e mãe do Chico, Vitor, Zé do Laço, Valdo e Dirce. Tem mais uma menina que não me lembro do nome.

– Vocês não acreditam. Hoje meu pai me mostrou o morro onde vocês buscavam lenha. Percebi que ele sentiu saudades...

 E essa observação suspirada foi a ponte para um outro assunto que também deixou saudades.

A vila era pequena e com quase nenhuma opção pronta de diversão, e aí é que entrava em cena a criatividade. Nós fazíamos nossos brinquedos e inventávamos nossas brincadeiras. E a pipa, apenas para exemplificar, era um de nossos brinquedos preferidos.

            Isso mesmo. Naquela época não existia cortante e a criatividade incentivava a construção de diversos tipos de pipas, como quadrado, maranhão, raia, peixinho e capucheta. A gente soltava pipas lá no morro do seu Vitor, perto da casa do Odair Vaz, irmão do Merinho. Vocês se lembram?

 Eu me lembro do morro onde morava o Luiz Chapéu, filho do seu Victor, esses que você se referiu e mais o Urbano. Lembro-me de todos. Ah, deixa eu observar que nós chamávamos a pipa de papagaio.

Aliás, dia desses, conversando com o Tino, filho do seu Juventino, ele lembrou que o local mais procurado para soltar papagaio era em frente a casa dele. A gente fazia os próprios papagaios, utilizando cola feita de água e farinha de trigo. As varetas de bambu eram conseguidas no bambuzal nos fundos da chácara ou na beira da linha de trem. Lembrou, ainda, que a linha preferida era a da marca Corrente, número 24, por ser a mais resistente.

 (Ainda tem mais)


 


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