Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Benedito Corrêa
– Só
que, por outro lado, naquele tempo alimentação não era problema, né Chiquinho?
– De
jeito nenhum. A maioria das casas tinha horta, galinheiro, chiqueiro e pomar. O
alimento vinha direto do quintal para a mesa.
– Lembro-me
bem de que, como não havia geladeira, a gente cozinhava a carne e guardava, com
a gordura derretida, em latas grandes. Durava meses.
– Isso
mesmo, Pedrinho, além do que, em cima do fogão a lenha, havia varais feitos com
cabos de vassoura, com toucinho, linguiça e outros tipos de carnes para
defumar.
– E eu me lembro, disse alguém, que para refrescar
bebidas a gente colocava as garrafas no balde do
poço e
descia a corda até que o balde alcançasse a água.
Na
hora de beber, era só puxar a corda e trazer as garrafas de
volta.
– Pra
nós era tudo festa. A gente só se preocupava em brincar.
– Eu
me lembro das brincadeiras. Naquele tempo, não havia dinheiro pra comprar
brinquedo e, assim, a gente inventava nossas brincadeiras. Além
de nadar nos rios e lagoas e jogar bola nos campos da vila, me lembro que
a gente brincava de boiada, arco e
flecha, estilingue, bolinha de vidro e pipa, só pra falar de algumas brincadeiras.
– Também
me lembro, Pedrinho. A gente se fantasiava de índio para brincar nos bailes de
carnaval que seu tio Dito e seu pai, o seu Pedro, faziam. Ah, até no lixão que
havia na curva perto da estação nós chegamos a brincar.
–
Nossa, Chiquinho, é mesmo!
A conversa estava animada,
mas o grupo se aproximava do sobrado. Portanto, a poucos metros da escadaria do
bar; ponto em que combinaram terminar o passeio.
Passaram, na rua de baixo,
pelas casas do João Torto, Seu Santana e da dona Laura. Do outro lado da rua, a
chácara e a olaria.
Fizeram a curva e entraram na
rua principal do bairro, passando pelas casas do Dito Jorge, Seu Sebastião,
Ditinho Pintor, Seu Orestes, Manoel Pinto, Dona Iria, Seu Zé Vaz e pelo
sobrado.
Sentaram nos degraus do Bar
da Escadaria, antes de voltarem para suas casas, para, talvez, alguns
comentários sobre o passeio e, quem sabe, marcar um próximo encontro.
Concentrados no que faziam,
não perceberiam, nem que lhes fosse possível, o cochichado ao fundo.
– Ei,
Sobrado, dê só uma olhada nesse pessoal que está descansando aqui nos meus
degraus. Se não estou ficando caduco, acho que conheço cada um deles.
– Nossa,
Boteco! – a intimidade permitia que o Sobrado tratasse o já senhor Bar da
Escadaria por Boteco – se você estiver caduco, eu também estou. São aquelas
crianças que subiam em nossos telhados para ver a boiada passar e que
frequentavam as casas dos amigos que moravam em meus cômodos!
– Isso
mesmo. Aquelas crianças que compravam balas, marias-moles, paçoquinhas, tubaína
e pão com mortadela para levar de lanche na escola.
– Eles
não paravam um minuto quieto e, daqui, tínhamos uma vista privilegiada, pois
conseguíamos enxergar quase que todas as poucas casas que existiam e,
principalmente a Rua Rio Branco, onde eles se reuniam para a maioria de suas
brincadeiras.
– Sobrado,
você se lembra que eles ficavam até quase o anoitecer brincando de pega-pega,
amarelinha, pula corda, bolinha de gude, pião, pipa, cabana e que, de repente,
sumiam porque ia começar, no rádio, uma novela que se chamava... esqueci o
nome.
– Juvêncio,
o justiceiro do sertão. Esse era o nome da novela, Boteco. Corriam todos para a
frente do rádio. Rádio em caixa de madeira, com uma tela bege e um botão que
movimentava o ponteiro pra sintonizar a rádio. O Juvêncio “passava” na Rádio
Piratininga.
– E
o rádio era a válvula. Tinha que ser ligado alguns minutos antes, para
esquentar.
(Ainda
tem mais)

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