quinta-feira, 22 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Benedito Corrêa

 

Sobrado - Uma das mais antigas construções do Bairro Portela

 Só que, por outro lado, naquele tempo alimentação não era problema, né Chiquinho?

 De jeito nenhum. A maioria das casas tinha horta, galinheiro, chiqueiro e pomar. O alimento vinha direto do quintal para a mesa.

 Lembro-me bem de que, como não havia geladeira, a gente cozinhava a carne e guardava, com a gordura derretida, em latas grandes. Durava meses.

 Isso mesmo, Pedrinho, além do que, em cima do fogão a lenha, havia varais feitos com cabos de vassoura, com toucinho, linguiça e outros tipos de carnes para defumar.

 E eu me lembro, disse alguém, que para refrescar bebidas a gente colocava as garrafas no balde do poço e descia a corda até que o balde alcançasse a água. Na hora de beber, era só puxar a corda e trazer as garrafas de volta.

 Pra nós era tudo festa. A gente só se preocupava em brincar.

 Eu me lembro das brincadeiras. Naquele tempo, não havia dinheiro pra comprar brinquedo e, assim, a gente inventava nossas brincadeiras. Além de nadar nos rios e lagoas e jogar bola nos campos da vila, me lembro que a  gente brincava de boiada, arco e flecha, estilingue, bolinha de vidro e pipa, só pra falar de algumas brincadeiras.

 Também me lembro, Pedrinho. A gente se fantasiava de índio para brincar nos bailes de carnaval que seu tio Dito e seu pai, o seu Pedro, faziam. Ah, até no lixão que havia na curva perto da estação nós chegamos a brincar.

– Nossa, Chiquinho, é mesmo!

 

A conversa estava animada, mas o grupo se aproximava do sobrado. Portanto, a poucos metros da escadaria do bar; ponto em que combinaram terminar o passeio.

Passaram, na rua de baixo, pelas casas do João Torto, Seu Santana e da dona Laura. Do outro lado da rua, a chácara e a olaria.

Fizeram a curva e entraram na rua principal do bairro, passando pelas casas do Dito Jorge, Seu Sebastião, Ditinho Pintor, Seu Orestes, Manoel Pinto, Dona Iria, Seu Zé Vaz e pelo sobrado.

Sentaram nos degraus do Bar da Escadaria, antes de voltarem para suas casas, para, talvez, alguns comentários sobre o passeio e, quem sabe, marcar um próximo encontro.

Concentrados no que faziam, não perceberiam, nem que lhes fosse possível, o cochichado ao fundo.

 

 Ei, Sobrado, dê só uma olhada nesse pessoal que está descansando aqui nos meus degraus. Se não estou ficando caduco, acho que conheço cada um deles.

 Nossa, Boteco! – a intimidade permitia que o Sobrado tratasse o já senhor Bar da Escadaria por Boteco – se você estiver caduco, eu também estou. São aquelas crianças que subiam em nossos telhados para ver a boiada passar e que frequentavam as casas dos amigos que moravam em meus cômodos!

 Isso mesmo. Aquelas crianças que compravam balas, marias-moles, paçoquinhas, tubaína e pão com mortadela para levar de lanche na escola.

 Eles não paravam um minuto quieto e, daqui, tínhamos uma vista privilegiada, pois conseguíamos enxergar quase que todas as poucas casas que existiam e, principalmente a Rua Rio Branco, onde eles se reuniam para a maioria de suas brincadeiras.

 Sobrado, você se lembra que eles ficavam até quase o anoitecer brincando de pega-pega, amarelinha, pula corda, bolinha de gude, pião, pipa, cabana e que, de repente, sumiam porque ia começar, no rádio, uma novela que se chamava... esqueci o nome.

 Juvêncio, o justiceiro do sertão. Esse era o nome da novela, Boteco. Corriam todos para a frente do rádio. Rádio em caixa de madeira, com uma tela bege e um botão que movimentava o ponteiro pra sintonizar a rádio. O Juvêncio “passava” na Rádio Piratininga.

 E o rádio era a válvula. Tinha que ser ligado alguns minutos antes, para esquentar.

 

(Ainda tem mais)



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