Fragmentos de um
passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
João Nicolau Sobrinho
– Amigos,
onde vocês estão? Voltem para a terra! Aqui estão os refrigerantes que pediram.
E, interrompidos pelo dono do
boteco, aterrissaram, molharam a garganta e reiniciaram suas histórias.
– Na
tampa dessa caixa d’água que existia – não sei se ainda existe – lá onde a Rua
Rio Branco faz a curva, pelos anos 1960 e alguma coisa, nós nos reuníamos à
sombra de uma paineira, para praticar ações próprias dos delinquentes juvenis
da época, como jogar baralho, dominó, tômbola, bate bafo e palitinhos. Chegávamos
perto da criminalidade, quando os mais ousados arriscavam fumar cigarros
Macedônia, Evereste ou Capri, por exemplo ou se aventuravam na leitura de
“catecismos.” Diziam que essa caixa abastecia a chácara dos “italiano” e que,
em tempos remotos, teria abastecido a fábrica de vinho.
– Essa caixa era o “point” da moçadinha.
– Brinquei lá também! Ainda existe.
– Não vamos confundir essa caixa d’água, que tinha o formato de um
queijo, com as que ficavam na plaquinha e eram retangulares. A primeira
abastecia a chácara e as últimas, a estação e os imóveis da ferrovia.
– Vai ser difícil alguém que não
viveu aquela época acreditar, mas exatamente lá no pontilhão, atrás da fábrica
de vinho, lá pelos anos 1960, o rio formava uma curva e, por causa disso,
formava também uma espécie de lagoa de água clara e bebível. Que nas tardes
quentes era impossível resistir a uns bons mergulhos.
– E
da boiada, vocês se lembram? Era assim, a boiada vinha de trem e era
descarregada em um mangueirão que existia bem na base de um barranco ao lado da
estação. Daí atravessava a vila do Portela inteira, tocada por boiadeiros.
Descia pela rua principal, até onde hoje é o Jardim São Carlos e, então,
entrava pela rua que margeia o rio, atravessava o “calipeiro” e chegava ao
frigorífico.
O barrancão ficava apinhado de garotos que, lá de cima, assistiam ao
trabalho dos boiadeiros e faziam festa quando algum boi escapava ao cerco e
saía correndo para qualquer lado, provocando verdadeiro alvoroço entre as
pessoas que estivessem por perto.
– Eu
me lembro que a gente “roubava” os chumbinhos que lacravam as portas dos
vagões, para colocá-los sobre os trilhos e serem achatados pelas rodas dos
trens.
Às vezes, fazíamos chumbada para vara de pescar. Interessante também
lembrar que a gente copiava o trabalho dos boiadeiros em nossas brincadeiras.
Ao brincar de boiada, a gente laçava os colegas (bois), enquanto assumíamos o
papel dos boiadeiros de verdade: Zé do Laço, seu Lourenço, seu Lindolfo, seu
Ernesto, seu França, seu Sebastião, Zé Pintado e seu João Boiadeiro. Cada um
escolhia o nome daquele que representava seu super-herói.
– Ah,
muito bem lembrada essa história do chumbinho para vara de pescar. Para que os
mais novos tenham uma ideia de como era, vou dar uma receita para fazer
chumbada. INGREDIENTES: 1 tijolo, uma faca, uma colher, uma espiriteira e um
prego. COMO FAZER: com a ponta da faca, se faz um buraco no tijolo, no formato
de um funil. No centro desse buraco, finca-se o prego, o suficiente para que
ele fique em pé. Coloca-se o chumbo na colher e põe para derreter ao calor do
fogo da espiriteira. Em estado líquido, o chumbo é derramado no buraco do
tijolo, de onde será retirado logo que esfriar. Ah, o prego é para que fique o
furo no centro da chumbada, por onde se amarra a linha de pesca. Simples,
assim.
– Eu
sou testemunha do alvoroço que a boiada causava. Era meu terror particular.
Quantas vezes a gente estava na estrada que ia para a cidade e dava de cara com
a boiada. Era um tal de subir nos barrancos, entrar nas casas ou voltar
correndo. Não raras vezes alguns bois escapavam do controle e invadiam o
quintal das casas que ficavam próximo à estrada.
– Os
boiadeiros sofriam quando os bois desgarravam, pois tinham que buscá-los e, ao
mesmo tempo, defender algumas pessoas que estivessem no caminho.
A tarde ia
avançada. Mais um pouco e a vila cairia em seu silêncio habitual. Apenas os
ruídos dos animais noturnos poderiam ser ouvidos.
A luz elétrica
ainda não havia chegado naquele lugarejo esquecido pelo mundo, como reclamavam
seus moradores, quando alguma coisa saía errada ou, ainda, quando vinham de
visita a lugares onde o progresso já dera sua cara.
O tempo seco,
pois há muito não chovia, cobria de poeira as roupas estendidas nos varais e
emprestava um colorido amarronzado às cortinas e roupas de cama.
O grupo se
despedia do dono do boteco e de sua mulher. Alcançavam o meio da rua, onde
faziam um pequeno círculo, para os bate papo de arremate. Dessa vez, no
entanto, não marcaram uma nova data para se reunir. Os assuntos se escassearam
e, por isso, preferiram se manter em contato até que novo repertório se
formasse.
Estavam felizes
com o reencontro. Valeu a pena. – Até a próxima! – Até qualquer dia!
(Ainda
tem mais)

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