quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 

Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação João Nicolau Sobrinho

 

Bar da Escadaria

 Amigos, onde vocês estão? Voltem para a terra! Aqui estão os refrigerantes que pediram.

 

E,  interrompidos pelo dono do boteco, aterrissaram, molharam a garganta e reiniciaram suas histórias.

 

 Na tampa dessa caixa d’água que existia – não sei se ainda existe – lá onde a Rua Rio Branco faz a curva, pelos anos 1960 e alguma coisa, nós nos reuníamos à sombra de uma paineira, para praticar ações próprias dos delinquentes juvenis da época, como jogar baralho, dominó, tômbola, bate bafo e palitinhos. Chegávamos perto da criminalidade, quando os mais ousados arriscavam fumar cigarros Macedônia, Evereste ou Capri, por exemplo ou se aventuravam na leitura de “catecismos.” Diziam que essa caixa abastecia a chácara dos “italiano” e que, em tempos remotos, teria abastecido a fábrica de vinho.

– Essa caixa era o “point” da moçadinha.

– Brinquei lá também! Ainda existe.

– Não vamos confundir essa caixa d’água, que tinha o formato de um queijo, com as que ficavam na plaquinha e eram retangulares. A primeira abastecia a chácara e as últimas, a estação e os imóveis da ferrovia.

 Vai ser difícil alguém que não viveu aquela época acreditar, mas exatamente lá no pontilhão, atrás da fábrica de vinho, lá pelos anos 1960, o rio formava uma curva e, por causa disso, formava também uma espécie de lagoa de água clara e bebível. Que nas tardes quentes era impossível resistir a uns bons mergulhos.

 E da boiada, vocês se lembram? Era assim, a boiada vinha de trem e era descarregada em um mangueirão que existia bem na base de um barranco ao lado da estação. Daí atravessava a vila do Portela inteira, tocada por boiadeiros. Descia pela rua principal, até onde hoje é o Jardim São Carlos e, então, entrava pela rua que margeia o rio, atravessava o “calipeiro” e chegava ao frigorífico.

O barrancão ficava apinhado de garotos que, lá de cima, assistiam ao trabalho dos boiadeiros e faziam festa quando algum boi escapava ao cerco e saía correndo para qualquer lado, provocando verdadeiro alvoroço entre as pessoas que estivessem por perto.

 Eu me lembro que a gente “roubava” os chumbinhos que lacravam as portas dos vagões, para colocá-los sobre os trilhos e serem achatados pelas rodas dos trens.

Às vezes, fazíamos chumbada para vara de pescar. Interessante também lembrar que a gente copiava o trabalho dos boiadeiros em nossas brincadeiras. Ao brincar de boiada, a gente laçava os colegas (bois), enquanto assumíamos o papel dos boiadeiros de verdade: Zé do Laço, seu Lourenço, seu Lindolfo, seu Ernesto, seu França, seu Sebastião, Zé Pintado e seu João Boiadeiro. Cada um escolhia o nome daquele que representava seu super-herói.

 Ah, muito bem lembrada essa história do chumbinho para vara de pescar. Para que os mais novos tenham uma ideia de como era, vou dar uma receita para fazer chumbada. INGREDIENTES: 1 tijolo, uma faca, uma colher, uma espiriteira e um prego. COMO FAZER: com a ponta da faca, se faz um buraco no tijolo, no formato de um funil. No centro desse buraco, finca-se o prego, o suficiente para que ele fique em pé. Coloca-se o chumbo na colher e põe para derreter ao calor do fogo da espiriteira. Em estado líquido, o chumbo é derramado no buraco do tijolo, de onde será retirado logo que esfriar. Ah, o prego é para que fique o furo no centro da chumbada, por onde se amarra a linha de pesca. Simples, assim.

 Eu sou testemunha do alvoroço que a boiada causava. Era meu terror particular. Quantas vezes a gente estava na estrada que ia para a cidade e dava de cara com a boiada. Era um tal de subir nos barrancos, entrar nas casas ou voltar correndo. Não raras vezes alguns bois escapavam do controle e invadiam o quintal das casas que ficavam próximo à estrada.

 Os boiadeiros sofriam quando os bois desgarravam, pois tinham que buscá-los e, ao mesmo tempo, defender algumas pessoas que estivessem no caminho.

 

A tarde ia avançada. Mais um pouco e a vila cairia em seu silêncio habitual. Apenas os ruídos dos animais noturnos poderiam ser ouvidos.

A luz elétrica ainda não havia chegado naquele lugarejo esquecido pelo mundo, como reclamavam seus moradores, quando alguma coisa saía errada ou, ainda, quando vinham de visita a lugares onde o progresso já dera sua cara.

O tempo seco, pois há muito não chovia, cobria de poeira as roupas estendidas nos varais e emprestava um colorido amarronzado às cortinas e roupas de cama.

O grupo se despedia do dono do boteco e de sua mulher. Alcançavam o meio da rua, onde faziam um pequeno círculo, para os bate papo de arremate. Dessa vez, no entanto, não marcaram uma nova data para se reunir. Os assuntos se escassearam e, por isso, preferiram se manter em contato até que novo repertório se formasse.

Estavam felizes com o reencontro. Valeu a pena. – Até a próxima! – Até qualquer dia!  

 

(Ainda tem mais)

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