Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
José Luiz Braga Filho
O Tino disse que quando o papagaio pendia pra um lado, pra compensar,
eram amarradas tiras de papel, às vezes, tiradas do próprio rabo do papagaio e
que fazíamos uma argola de papel em volta da linha e, com movimentos
controlados, essa argola deslizava até o estirante, lá no alto, levando uma
mensagem, sabe-se lá pra quem.
– Meu Deus! É muita engenharia para minha cabeça!
– Você
acha? Então escute mais essa. Ainda segundo o Tino, a gente amarrava a linha do
papagaio em um tronco ou pedra e, enquanto ele ficava lá no alto, nós íamos
nadar e depois voltávamos para recolhê-lo. Que às vezes o encontrávamos todo
molhado de sereno, porém ainda “funcionando”. Confesso pra vocês que eu não me
lembro disso, não, mas se o Tino falou...
– Não
sei se vocês se lembram, mas havia uma espécie de papagaio econômico chamado
capucheta. Ele era feito normalmente quando o dinheiro ou a criança eram
pequenos. Para fazê-lo, bastavam uma folha quadrada de papel dobrada ao meio,
um estirante e rabo. Não tinha varetas e voava bem mais baixo que papagaios.
Papagaio lembra
balão que, por sua vez nos traz a lembrança das festas juninas. E o grupo se
anima com o assunto, afinal quem não conheceu uma fogueira de verdade e os
rojões de vara?
– Na entrada do mês de maio já se começava a pensar na festa junina da Rua Rio
Branco. As barracas, feitas com madeira e cobertas com pano, ficavam em frente
à casa do seu Rafael, a de número 28, bloqueando a rua e impedindo a passagem
do trânsito... de cachorros, bois, patos, galinhas, cavalos, etc. Ah, o carro
de boi do seu Atílio, também não conseguia passar.
– Eu
também não tenho lembrança dessa festa. Acho que não eram do meu tempo, mas
falando em festa junina, a melhor do planeta Terra era aquela que o João da
Bota fazia todos os anos no quintal da casa dele. O João da Bota era um misto
de coronel com Dom Quixote. Magro, alto, usando botas de cano alto (daí vem o
apelido), ele não abria mão do mastro com as bandeirinhas, do pau de sebo, da
fogueira, dos rojões e de um bom sanfoneiro puxando uma quadrilha improvisada.
Pão duro como ele só, nessas festas só tinha quentão e batata doce assada na
fogueira. Não me lembro bem, mas acho que as pessoas levavam alguns comes e
bebes. Todo o bairro participava. E o melhor é que ninguém precisava se
fantasiar de caipirinha; era só vestir a roupa do dia a dia e agir
naturalmente!
– Ah, eu não me lembro de nenhuma dessas festas que vocês
falaram, afinal sou uma das caçulas do grupo, mas em contrapartida tenho ótimas
lembranças das festas juninas na casa da dona Glória, na rua Rio Branco, 19.
Comidinhas deliciosas, quadrilha e barraquinhas para brincar. Lembro que
adorava ganhar as prendas que os tios compravam para a criançada!
– Nossa gente, tive a infelicidade de nascer depois
dessas festas todas, mas estou adorando viver essas memórias!
– Da
festa que acontecia na casa da dona Glória, eu me lembro que as crianças
recebiam, na entrada, uma certa quantia em dinheiro (feito de papel comum)
falso, é claro, para gastar nas barracas e, quando esse dinheiro acabava,
pegávamos do caixa de qualquer barraca para reabastecer a criança gastona.
– Era
muito divertido... a noite, a fogueira, as brincadeiras, a reza pelo padroeiro,
o mastro sendo levantado, pau de sebo, baile de sanfona. Ah, o sanfoneiro era o
seu Dito (Benedito Corrêa). Era uma verdadeira festa, a do João da Bota!.
– Ei,
quem se lembra da “maria preta”? isso mesmo, uma espécie de balão econômico.
Era uma folha de jornal onde se uniam as quatro pontas e as prendiam com um
palito ou pedacinho de madeira qualquer. Depois era só tocar fogo em suas
pontas para vê-la subir em cinzas.
Pessoal, o que
vocês acham de a gente parar por hoje? Na quarta que vem nos reunimos
novamente. Até lá colocamos em ordem nossas lembranças, para mais uma sessão de
causos.
Ainda que a
contragosto, o grupo concordou em deixar um pouco pra depois. Por eles, a
conversa varava a noite. Era assunto que não acabava mais.
Despediram-se do
dono do boteco, agradeceram a hospitalidade e saíram para a rua. Dividiram-se
em pequenos grupos, tomando o rumo de suas casas. Aos olhos daquelas pessoas, o
asfalto não conseguia encobrir os buracos feitos pela enxurrada; o muro de
arrimo deixava à mostra a encosta do barranco coberta pelos pés de amora,
gabiroba e araçá; as casas mais novas pareciam-lhes transparentes, deixando à
vista os terrenos baldios, palcos de tantas brincadeiras; as roupas modernas
das pessoas que passavam não escondiam o tecido de algodão das camisas e
vestidos feitos em casa e nem os chinelos e alpargatas que pisavam firmes o
chão de terra batida.
Continuavam
caminhando à luz azulada da lua cheia que encobria as lâmpadas ignoradas dos
postes. Quarta-feira demoraria a chegar.
(Ainda
tem mais)

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