terça-feira, 20 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Lourenço Ajala

 


Fábrica de vinho Portela

 Os meninos pareciam indiozinhos; descalços e sem camisa. Mas enchiam de alegria esse nosso quintal, quando chegavam para brincar ou passavam, falando até pelos cotovelos, na direção da escola.

 Comadre, eu ficava com o coração nas mãos, quando os via descer pelo cabo de aço que ia do poste aqui de cima do barranco, até à linha do trem, alguns metros abaixo.

 Nem diga, comadre Paineira, o que mais me preocupava era a possibilidade de não perceberem a aproximação de um trem.

 Graças a Deus, nada de ruim aconteceu. E agora eles passam novamente bem aqui pertinho de nós, falando e gesticulando como nos velhos tempos! Como eu gostaria que eles subissem até aqui e descansassem à minha sombra, pra que a gente pudesse ouvir um pouco das histórias que certamente estavam contando.

 Tenho certeza que até as goiabeiras à nossa volta ficariam felizes com a visita e se apressariam a lhes oferecer seus frutos, como fizeram naqueles tempos.

 Dias desses, comadre Caixa, eu estava conversando com aqueles dois eucaliptos que moram em frente à casa do seu Juventino e, por coincidência, falamos desses nossos amigos. Eles contaram que essas crianças conheciam cada palmo de terra do bairro, tal a disposição que tinham para andar por todos os lados.

Contaram que usavam seus galhos para fazer balanços, onde ficavam horas rodando ao redor de seus troncos. No dia seguinte voltavam dispostos a outras brincadeiras. Traziam galhos e folhas e improvisavam cabanas, que armavam bem junto às suas raízes. Eles adoravam quando ouviam o vozerio ao longe, pois estavam acostumados com a companhia daqueles pequenos.

Disseram, ainda, que até um campinho de futebol e um campo de malhas chegaram a fazer naquela rua. Sabe, comadre, lembram com saudade daqueles amiguinhos que, não sabem por que, de uma hora para outra, sem nenhuma explicação, sumiram todos ao mesmo tempo. Os eucaliptos me disseram que sofreram muito com essa ausência e demoraram para entender que não mais os veriam.

 Puxa, comadre! Que triste! Fala a verdade, mas pra nós também foi muito difícil essa separação, não? Quantas vezes tivemos a impressão de que eles estavam vindo nos visitar e choramos em silêncio, quando dávamos conta de que nossos ouvidos nos enganavam! Bem, pelos menos hoje nós os vimos, ainda que à distância.

 

Trocaram entre si as guloseimas que cada um trouxe para o lanche, beberam a água que trouxeram da biquinha e se aprontaram para mais um pouco de caminhada, até porque o fim da tarde se aproximava e não queriam ser surpreendidos pela noite.

Combinaram que desceriam pela Rua de Baixo, dariam a volta no quarteirão e terminariam o passeio na escadaria do bar.

 

 Aqui, a casa do João Torto, ali, a casa do Sargento Santana, lá na frente, a casa grande da esquina e, ao nosso lado esquerdo, no lugar dessa escola, a olaria do senhor Joaquim Mendes de Moraes. Naquele tempo, essas eram as únicas construções desta rua.

 Dia desses estive conversando com a Neuzinha, filha do sargento Santana. Como todos nós, ela também guarda boas recordações do nosso tempo de infância e juventude.

– E aí, Pedrinho, o que ela contou pra você?

 Por exemplo, ela se lembrou do Léia, irmão do Zico. Lembrou que ele tinha um barco que usava para tirar areia do rio para vender e que, nas horas de folga, levava as meninas para dar uma volta.

 Eu também me lembro dele. O barco ficava ancorado na curva do rio, do lado direito da ponte, próximo à lagoa em que costumávamos pescar.

– Contou que, como não havia diversão na vila, distraiam-se, com suas amigas, vendo os meninos passarem em frente a casa dela; assistindo à passagem da boiada; indo aos bailinhos que aconteciam nas casas vizinhas e ao matinê do cinema do Pereira. 

Falou do rigor com que os pais criavam as filhas, obrigando os rapazes a pedir autorização para namorar em casa, e sair sem um “segura vela” nem pensar.

 Nossa! Hoje quando o pai fica sabendo, a filha já está casada. Brincou alguém.

 Dentre as coisas que mais marcaram aquele tempo, a Neuzinha destaca o cinema do Pereira. Ficava doente se perdesse uma matinê. Adorava os seriados que antecediam aos filmes e se lembra que, quando chegava atrasada, o lanterninha a ajudava a encontrar uma cadeira vaga.

 Lembramos de um fato curioso. No sobrado havia um garoto que vendia doces. A mãe dele fazia uns canudinhos recheados com creme de coco, colocava-os em uma cesta e o menino saía oferecendo-os de casa em casa. Como ninguém é de ferro, a vontade de experimentar um doce daqueles era forte, mas o menino não tinha autorização para pegar nenhum deles. Então, o garoto aproveitava um lugar mais deserto e lambia, um a um, parte do recheio para, em seguida, vendê-los.

 Bem, Pedrinho, já que estamos falando de fatos curiosos, vou contar um pra vocês. Acho que nem a Neusa se lembra dessa. Uma tarde de um fim de semana qualquer, a Neusinha, com algumas amigas, talvez suas irmãs e, com certeza, a amiga Iracema, resolveram promover um concurso de beleza masculina. Que eu me lembre, os candidatos, além de mim, eram Chico, Vander, Cyrilo, Jura, alguns outros poucos que não me recordo e o Nelson, tio do Luiz Barranco. Depois do desfile, da votação secreta e da apuração rigorosamente fiscalizada pelas meninas, eu e o Nelson acabamos empatados... em último lugar. Ali foi prematuramente encerrada nossa carreira de galã de novelas.

 Nossa, Ayrton, traumatizante! Exagerou um engraçadinho.

 

 (Ainda tem mais)

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