Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Lourenço Ajala
– Os
meninos pareciam indiozinhos; descalços e sem camisa. Mas enchiam de alegria
esse nosso quintal, quando chegavam para brincar ou passavam, falando até pelos
cotovelos, na direção da escola.
– Comadre,
eu ficava com o coração nas mãos, quando os via descer pelo cabo de aço que ia
do poste aqui de cima do barranco, até à linha do trem, alguns metros abaixo.
– Nem
diga, comadre Paineira, o que mais me preocupava era a possibilidade de não
perceberem a aproximação de um trem.
– Graças
a Deus, nada de ruim aconteceu. E agora eles passam novamente bem aqui pertinho
de nós, falando e gesticulando como nos velhos tempos! Como eu gostaria que
eles subissem até aqui e descansassem à minha sombra, pra que a gente pudesse
ouvir um pouco das histórias que certamente estavam contando.
– Tenho
certeza que até as goiabeiras à nossa volta ficariam felizes com a visita e se
apressariam a lhes oferecer seus frutos, como fizeram naqueles tempos.
– Dias
desses, comadre Caixa, eu estava conversando com aqueles dois eucaliptos que moram em frente à casa do seu
Juventino e, por coincidência, falamos desses nossos amigos. Eles contaram que
essas crianças conheciam cada palmo de terra do bairro, tal a disposição que
tinham para andar por todos os lados.
Contaram
que usavam seus galhos para fazer balanços, onde ficavam horas rodando ao redor
de seus troncos. No dia seguinte voltavam dispostos a outras brincadeiras.
Traziam galhos e folhas e improvisavam cabanas, que armavam bem junto às suas
raízes. Eles adoravam quando ouviam o vozerio ao longe, pois estavam
acostumados com a companhia daqueles pequenos.
Disseram,
ainda, que até um campinho de futebol e um campo de malhas chegaram a fazer
naquela rua. Sabe, comadre, lembram com saudade daqueles amiguinhos que, não
sabem por que, de uma hora para outra, sem nenhuma explicação, sumiram todos ao
mesmo tempo. Os eucaliptos me disseram que sofreram muito com essa ausência e
demoraram para entender que não mais os veriam.
– Puxa,
comadre! Que triste! Fala a verdade, mas pra nós também foi muito difícil essa
separação, não? Quantas vezes tivemos a impressão de que eles estavam vindo nos
visitar e choramos em silêncio, quando dávamos conta de que nossos ouvidos nos
enganavam! Bem, pelos menos hoje nós os vimos, ainda que à distância.
Trocaram
entre si as guloseimas que cada um trouxe para o lanche, beberam a água que
trouxeram da biquinha e se aprontaram para mais um pouco de caminhada, até
porque o fim da tarde se aproximava e não queriam ser surpreendidos pela noite.
Combinaram
que desceriam pela Rua de Baixo, dariam a volta no quarteirão e terminariam o
passeio na escadaria do bar.
– Aqui,
a casa do João Torto, ali, a casa do Sargento Santana, lá na frente, a casa
grande da esquina e, ao nosso lado esquerdo, no lugar dessa escola, a olaria do
senhor Joaquim Mendes de Moraes. Naquele tempo, essas eram as únicas
construções desta rua.
– Dia
desses estive conversando com a Neuzinha, filha do sargento Santana. Como todos
nós, ela também guarda boas recordações do nosso tempo de infância e juventude.
–
E aí, Pedrinho, o que ela contou pra você?
– Por
exemplo, ela se lembrou do Léia, irmão do Zico. Lembrou que ele tinha um barco
que usava para tirar areia do rio para vender e que, nas horas de folga, levava
as meninas para dar uma volta.
– Eu
também me lembro dele. O barco ficava ancorado na curva do rio, do lado direito
da ponte, próximo à lagoa em que costumávamos pescar.
–
Contou que, como não havia diversão na vila, distraiam-se, com suas amigas,
vendo os meninos passarem em frente a casa dela; assistindo à passagem da
boiada; indo aos bailinhos que aconteciam nas casas vizinhas e ao matinê do
cinema do Pereira.
Falou
do rigor com que os pais criavam as filhas, obrigando os rapazes a pedir
autorização para namorar em casa, e sair sem um “segura vela” nem pensar.
– Nossa!
Hoje quando o pai fica sabendo, a filha já está casada. Brincou alguém.
– Dentre
as coisas que mais marcaram aquele tempo, a Neuzinha destaca o cinema do
Pereira. Ficava doente se perdesse uma matinê. Adorava os seriados que
antecediam aos filmes e se lembra que, quando chegava atrasada, o lanterninha a
ajudava a encontrar uma cadeira vaga.
– Lembramos
de um fato curioso. No sobrado havia um garoto que vendia doces. A mãe dele
fazia uns canudinhos recheados com creme de coco, colocava-os em uma cesta e o
menino saía oferecendo-os de casa em casa. Como ninguém é de ferro, a vontade
de experimentar um doce daqueles era forte, mas o menino não tinha autorização
para pegar nenhum deles. Então, o garoto aproveitava um lugar mais deserto e
lambia, um a um, parte do recheio para, em seguida, vendê-los.
– Bem,
Pedrinho, já que estamos falando de fatos curiosos, vou contar um pra vocês.
Acho que nem a Neusa se lembra dessa. Uma tarde de um fim de semana qualquer, a
Neusinha, com algumas amigas, talvez suas irmãs e, com certeza, a amiga
Iracema, resolveram promover um concurso de beleza masculina. Que eu me lembre,
os candidatos, além de mim, eram Chico, Vander, Cyrilo, Jura, alguns outros
poucos que não me recordo e o Nelson, tio do Luiz Barranco. Depois do desfile,
da votação secreta e da apuração rigorosamente fiscalizada pelas meninas, eu e
o Nelson acabamos empatados... em último lugar. Ali foi prematuramente
encerrada nossa carreira de galã de novelas.
– Nossa,
Ayrton, traumatizante! Exagerou um engraçadinho.
(Ainda tem mais)

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