sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Glória Silva Corrêa, também conhecida como Estação Saudade

 

Casa de meus pais. Rua Rio Branco, 19.


 Nós chegamos logo no começo da vila e pudemos assistir à chegada dos pais de cada um deles; primeiro só o casal ou com um neném de colo, abrindo alicerce para a construção da casa de seus sonhos. Depois começaram a chegar as crianças e a família aumentando. Dá saudade daquele tempo, sabe Boteco.

 Era diferente de hoje, que sai todo mundo cedo e só volta à noite. As crianças crescem muito rápido. Aliás, nem sei se chegam a ter infância. Naquele tempo, não. O pai saía de madrugada para o trabalho e a mãe ficava com o serviço de casa e uma “penca” de filhos para tomar conta. Tomar conta, apenas força de expressão, porque tomar conta era quase impossível. A criançada saía para as ruas de manhã e voltava quando sentia fome. A mãe, com roupas para lavar, casa para limpar e comida para fazer, não via o dia passar. E os pequenos chegavam aos pouco, cansados e suados de tanto brincar e, para alívio da mãe, chagavam inteiros, sem nenhum machucado que pudesse preocupar.

– Puxa, meu! Agora você foi fundo!

 Olhe para eles, agora, Sobrado. Parecem crianças novamente. Sentados em um dos pontos de encontro mais famoso de todos os tempos – modéstia à parte – e olhando ao redor como que a procurar algum vestígio do passado. Eu seria capaz de apostar que reviveram, em apenas um dia, muitas das lembranças daqueles tempos.

 Falando em ponto de encontro, Boteco, você me fez lembrar de quando, já na adolescência, eles passavam por aqui todo enfeitados, a caminho da quermesse ou da matinê, no cinema do Pereira. Acho até que namoravam entre eles, mas o medo dos pais e dos irmãos fazia com que namorassem escondidos. E quantos bailinhos fizeram aí em seus salões, Boteco, ou aqui, em meus cômodos.

 É, amigo, estamos ficando velhos! Quanta coisa assistimos daqui do nosso cantinho. Opa! Olhe lá. Estão se levantando para ir embora. Veja como olham para nós; olhar de despedida, mas, me parece, felizes por esse reencontro.

 

– Bem pessoal, o dia foi maravilhoso, mas agora é hora de nos despedirmos.

– Esperem, deixem-me fazer uma sugestão. Terminamos nosso passeio mais cedo do que prevíamos e, se concordarem, poderíamos fazer uma visita para a Caixa d’Água da chácara e para a Paineira. Acho que elas ficariam felizes com nossa visita.

 

Todos concordam e, deixando as escadarias, descem a rua Rio Branco, a caminho do último reencontro do dia e, ali, na tampa da caixa, aos pés da paineira e rodeados pelas goiabeiras, conversaram até o anoitecer, matando saudades e colocando os assuntos em dia.

(Chegada - Fim desta viagem)

Espero que tenham gostado da viagem.

– Até a próxima!                  – Até qualquer dia!

 

Lista de passageiros que contribuíram com fragmentos de suas lembranças

Aline Barril Lopz - Ana Glória Corrêa - Ana Rosa Corrêa - Ângela Maria Corrêa - Antonio James Pinheiro - Ayrton Corrêa - Célia Regina Corrêa – Elisabete Fonseca Nicolau – Elisete Fonseca Nicolau – Francisco Gonçalves (Chiquinho) - José Carlos Branco – Justino Ferreira dos Santos (Tino) - Leandra Corrêa Branquinho - Leandro Lopz - Márcio da Ponte Branquinho – Neusa Santana - Nilva Ajala - Pedro Virgílio Corrêa Filho - Rafael Barranco Jr - Sônia Prado - Tati Moreno - Valéria Centalvi - Vitória Paixão – Walter Braga.

 

Adaptação dos textos originais escritos entre 10/Jul/2014 a 19/Set/2014

Edição, adaptação e organização: Ayrton Corrêa                            

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